23 dezembro 2016

Salve Geral


Planeta: Terra. Cidade: Goiânia. Como em todas as metrópoles deste planeta, Goiânia se acha hoje em desvantagem em sua luta contra um dos maiores inimigos do homem: o pentelho. E, apesar dos esforços das autoridades de todo o mundo, pode chegar um dia em que a terra, o ar e as águas estejam infestados das mais diversas formas de pentelhos: os panfletários de diversas siglas, os reclamantes do meio ambiente, os entregadores de panfletos, movimentos esparsos como as cores dos MM´s ou os chatos que são chatos só pelo prazer que isso lhes causa. Com ou sem uma causa válida. Quem poderá intervir? Spectreman?[1]


Segunda feira, passava da uma da tarde e eu sentado no boteco ao lado do Centro Administrativo. Até aí nada de anormal: tava rebatendo uma ressaca lazarenta. Ficava ali vendo o rodízio de passeatas reclamando de uma ou outra coisa: primeiro havia vindo os atendentes de cartório, depois os bancários e logo em seguida uma grande passeata de professores da rede estadual; estão sempre entre os mais pendurados. Entre uma greve e outra, aparecia um movimento disto ou daquilo: sem-terra, sem-moradia, sem camisa, sem calça, sem vergonha, sem isso, sem aquilo. Eu devia estar com uma cara pra lá de gozada, pois volta e meia alguém mandava uma frase de ordem para o meu lado:
─ Você aí parado, também é explorado! 
Errado. Eu aqui parado, tô ficando é chapado, pensei. 
─ O povo, unido, jamais será vencido! 
Tá, diga isso para as grandes corporações e os grupos bancários...
─ Caminhando e cantando e seguindo a canção... 
Sempre tem um mané para tirar a porra dessa música. Será que não cansam?
Foi então que reconheci uma voz no meio da multidão: 
─ Juliano Werneck, ainda entregue aos prazeres da Baco?
─ Poisé, Professor Birowski. Não dizem que a vida é feita de momentos? Os meus são quase todos aqui, no meio das garrafas. 
─ Junte-se a nós e exerça seu direito de cidadão, proteste! 
─ Vão abaixar o preço da breja?
─ Não que eu saiba; a coisa aqui é mais pela política. 
Entonces, tô fora.
─ “O pior de todos os analfabetos é o analfabeto político”. 
Ai, meu saco: Brecht[2] debaixo de uma lua dessas é de estourar as bolas... 
─ E a pior de todas as sedes é a etílica, professor. Deixa a reclamança de lado e vambora chapar o coco! 
─ Você, como um representante da classe literária tinha que se engajar mais, defender alguma causa, algum movimento. 
─ Sou do Movimento dos Sem Movimento. Qualquer lugar para encostar e tomar uma é meu reino; toda mesa de bar é meu campo e o balcão é o melhor exemplo da socialização da humanidade: ali estão lado a lado direita e esquerda, ricos e pobres, empregados e patrões e por aí vai... 
Fechei os olhos por um instante, a tarde estava estupidamente brilhante naquele momento. Clima perfeito para uma pestana. 
Foi o bastante para um grupo de uns quinze ou vinte manifestantes abordarem o botequim: 
─ Nós somos do Movimento dos Sem Cerveja. Vamos desapropriar toda essa bebida pequeno-burguesa!
Meu apitinho cívico tocou na hora: na minha gelada ninguém bota a mão! Nada contra dividir o pão, mas daí para bicar da minha garrafa, há uma enorme distância.
─ E quem disse que a cerveja é uma bebida de elite? – protestei, mas intimamente meio que concordando com os caras: com o preço que a loirinha tá, mais fácil e barato tomar pinga ou catuaba, as campeãs das biroscas de subúrbio. Mas tinha que defender meu suco de cevada com 60% de milho. Aprontei o gogó e comecei a aula de história:
─ Tipo uns 10 mil anos, conforme os cervejeiros mais antigos e ainda não afetados pela cirrose, os homens descobriram, meio na cagada, meio na preguiça, que aquela parada de deixar um monte de cereais jogados em um lugar qualquer acabava fermentando e virando uma pasta que dava para fazer uma espécie esquisita de bolo. Vai daí que uns caras de um lugar das antigas chamado Mesopotâmia, inventaram de tomar uns goles da garapa que sobrava desses bolos, estando assim entre os primeiros birituns da história.
A parada deu uma luz e os fulanos ficaram com aquela cara de alegres, gente boa, achando tudo uma maravilha. Pronto, tava inventada a cerva, mesmo bem diferente da que a gente toma hoje... ─ Neste momento, o lugar foi cercado pela tropa de choque, doidinha para valer a lei do cassetete e descer a borracha no lombo dos mais inflamados. Levantei meu caneco com a autoridade que me era cabida, de cachaceiro mais respeitado do boteco e pedi para eles aguardarem o final de meu pronunciamento. E voltei à carga:
─ Daí, uns tempos depois (não me pergunte quanto, nem os caras deviam saber: estavam todos chapados), os egípcios chegaram quebrando tudo na rave mesopotâmica e acabaram levando com eles o segredo mágico da fabricação da birita. Depois de muito porre nas pirâmides, a coisa estendeu-se até os romanos darem as caras (e as espadas). Como eles tinham um pezinho em cada canto, acabaram levando o néctar para todos os lados, seja a Britânia (para posterior alegria dos futuros ingleses), Gália (França) e outras paragens. Dizem inclusive, que César, o cara mesmo, era chegado numa caneca da fermentada (na época ainda não deviam cognominá-la de “loira” ou “gelada”). O nome cerveja acabou sendo uma homenagem à deusa Ceres, o que demonstra que os homens quando bebem sempre estão com uma mulher na cabeça... 
Quando baixaram as trevas da Idade Média, a fabricação da bebida acabou parando nos conventos, onde os monges, com tempo de sobra para fazer experimentos mil, vide Mendel[3] e suas ervilhas, acabaram criando outros tipos da bebida com diferentes técnicas de fabricação. O que veio bem a calhar, pois com o crescimento dos conjuntos habitacionais, o povo precisava de uma atividade para extravasar os maravilhosos hobbies medievais, como o jugo e a servidão. Então, dá-lhes cerveja que a galera se acalma. Outra coisa bacana que esses caras fizeram, por terem o quase monopólio da escrita, foi deixar anotadas as técnicas de fabrico.
Daí surgiram os mestres cervejeiros, que antes eram aprendizes na arte de fabricar a bebida com próprios monges. Aderindo a moda dos artesãos dos burgos, começaram a produzir cerveja em estabelecimentos próprios, as tavernas. Tais lugares logo, logo acabaram virando points onde se discutia de tudo, menos religião e futebol: o primeiro porque podia acabar te levando para a fogueira, o segundo por não existir mesmo. Daí os caras falavam bastante, principalmente depois de umas e outras, de política. Isso fez com que as autoridades da época acabassem botando um olho nestes lugares. Foi quando surgiram os alcaguetes modernos, o popular dedo-duro. 
Durante a Idade Moderna, quem vocês acham que estava em todas as mesas importantes da Revolução Francesa? Nota zero para quem pensou em champanhe ou brioche: o que pegava bem mesmo, independente se era entre girondinos ou jacobinos, era estar com uma baita caneca na mão. Para molhar a palavra e aqueles discursos intermináveis da liberte, egalité, fraternité[4]. Não existe nada mais fraterno que dividir uma cerveja com um irmão. 
Com os adventos científicos da revolução industrial, o ramo cervejeiro não ficou de fora, o que transformou a breja no que ela é hoje, uma bebida de fácil acesso, popular e com milhões de admiradores espalhados pelos quatro cantos do mundo, a conhecida e admirada “loira gelada” (Acho inclusive que deveriam dar um Nobel, um Oscar e um Pulitzer ao gênio desconhecido que gelou a primeira caneca de cerveja). Ideal para todos os tipos de eventos: casamentos, batizados, aniversários e afins; churrascos de fim de semana, reuniões com teor político ou não ─ Pude notar então que o discurso já havia acalmado os ânimos de ambas as partes. 
─ Daí vos pergunto, meus caros, o que tem a ver o meu goró com o blá-blá-blá de vocês? Há algum dentre vós, seja militante ou polícia, que não tome uma cervejinha?
Os manifestantes entreolharam-se meio sem jeito, os policiais balançaram as cabeças concordando: havia atingido todos em um ponto fraco, do lado direito do corpo, entre o baço e o pâncreas: bem no fígado.
A manifestação, que havia parado para ouvir minhas sábias e ébrias palavras, explodiu em palmas. Havia pessoas chorando comovidas e abraços entre diferentes lados políticos: esquerdistas e direitistas de mãos dadas com o pessoal do centro e todos degustando um gole de cerveja.
Os canas gostaram tanto daquilo que me colocaram na chefia deles. Questão de tempo, já tava comandando a cidade. Daí para o governo do estado foi um pulo; a presidência foi um passo natural, dadas às circunstâncias: um brado percorreu o país de norte a sul, de leste a oeste: Manguaceiros, uni-vos!
Fui entronado como governante enquanto os estoques de cerveja se mantivessem graúdos. Chamei o pessoal da Embav, da Choça-Cola, Cachincariol, além de todas as outras marcas e modelos de cerveja e firmei um contrato com eles para fornecimento eterno do néctar da cevada para cada cidadão; aqueles que não bebessem podiam repassar sua cota para o sortudo, quero dizer, parente mais próximo. Deste jeito meu governo tornou-se vitalício logo de cara... 
Fiz um churrasco e chamei os amigos que tinha e não tinha. No meio da coisa, um dos políticos que lá estavam resolveu reclamar que faltava sal na carne. Fiquei tão puto que mandei prender o safado. Onde já se viu, o mocorongo ir numa boca livre e ficar reclamando do que tá ganhando de mão beijada? Meti o safado na grade. E depois dele foram os seus correligionários. E logo após os adversários. Mas o pior é que eu peguei gosto pela coisa. O tal de mandar prender os outros...
Na outra semana já tinha metido em cana quase um terço da população; uns por reclamarem, outros por escutarem as reclamações e outros ainda por torcerem para o time errado: qualquer motivo era motivo para mandar para o xilindró... Os xadrezes acabaram todos lotados. Agora, além de arranjar mais espaço para os que tinham que entrar, teria também que triplicar a produção de cerveja para conter a demanda. Resolvi tudo com uma decisão radical: el paredón, lógico.
Mandei juntar logo uma centena de políticos conhecidos, que era para ir quebrando o gelo e não ter reclamação: e lá alguém ia achar ruim de passar o cerol em vagabundo?
 O comandante do pelotão de fuzilamento começou a contagem e olhou para meu lado: 
─ Preparar, apontar... Err... Senhor, eu poderia dar uma sugestão?
─ É para maximizar a produção de presunto e a desova de safado?
─ Sim Senhor! 
─ Então manda bala. Quer dizer, pode falar. 
─ É o seguinte; com a quantidade de político ruim que a gente tem, fica uma grana meter uma azeitona em cada um. Daí que o senhor faria a maior economia se usasse um método diferente. E poderia investir a grana economizada na produção de mais cerveja, o que acha?
O cara estava estupidamente certo. Então, diretamente do Louvre, mandei vir uma das guilhotinas remanescentes da Revolução Francesa. Agora os caras iriam ter a honra de colocar seus pescoços em lugares já frequentados por outros mais famosos, como Robespierre, Danton e Marat[5]... Não, peraí: foi uma dona peituda, ou melhor, com muito peito que jogou esse cara para trás. Mas isso é outra estória. Eu só não sabia onde ela ia se encaixar. Aliás, algo ficava me perturbando já tinha um tempo e não sabia exatamente o quê.
A não ser que tudo não passasse de...
─ Seu Juliano, Seu Juliano! − acordei com o Etelvino, o garçom, sacudindo meu ombro ─ Vai mais uma cerveja?
Olhei para os lados, tinha cochilado em pleno botequim. Porra, apagar em mesa de boteco é o fim da picada. Consultei o relógio e vi que estava em cima da hora para pegar o banco ainda aberto. Disfarcei com um leve bocejo e mandei ver o resto do copo numa golada só. 
─ Passa a régua. 
─ Vai participar da passeata?
Balancei a cabeça devagar em negativa:
─ Mexer com esse negócio de política nada; acabei de descobrir que sou um ditador em potencial ─ ao ver a cara redonda e curiosa do atendente, emendei:
─ Mas nem sei se isso é tão ruim assim no fim das contas. Vive La Bierre![6]
E sai gingando com aquele andado de John Wayne[7] bêbado do cerrado.





[1] Adaptado da chamada inicial do seriado japonês Spectreman.
[2] Bertold Brecht ( 1898 – 1956) – dramaturgo e poeta alemão. 
[3] Gregor Mendel (1822 – 1884) – Monge agostiniano, botânico e metereologista, considerado o pai da genética por suas experiências com cruzamento de tipos de ervilhas e outras plantas
[4] Liberdade, Igualdade, Fraternidade,  lema da Revolução Francesa. 
[5] Personagens históricos da Revolução Francesa. 
[6] Viva a cerveja
[7] Fala sério: cê não sabe quem foi o cowboy-ator-cara-durão-da-silva?

04 agosto 2015

Tratamento de choque **



            De começo foi imperceptível e estranha infecção, daquelas que espreitam corpos desavisados, trechos não vistos e períodos decompostos. Amigavelmente, ia atingindo um setor, um membro, daí se espalhando para todo o corpo. Ou a maior parte dele.
            Isto em geral poderia resultar em uma atividade febril, na suspensão de sensações ou, em casos mais extremos, a morte do organismo. E os órgãos sabem que morrem coletivamente; o problema nunca é somente dos outros... Cada um tem sua parcela, a falência individual acaba tornando-se múltipla. Morrer é fácil, viver é fácil, o difícil é conviver, como já disse o poeta...
            Não que estivesse já nos estertores: por fora ainda brilhava o lume do uso diário, de aventuras passadas e outras atividades recentes que sempre refrigeravam, traziam um frescor de vida e beleza que areja lugares insalubres. Assim como o tifo, aparece quase sem querer.
            Austregésilo do Perpétuo Amparo tremia convulsivamente no meio da birosca mal ajambrada onde havia se refugiado, estrofes e parágrafos estragados nas mãos, um sem número de rostos, rodopiando em sua volta, sussurravam sibilantes: “Lindo”, “Maravilhoso”, “Belíssimo”, fora os “Bravos” e “Bis”. O pobre sabia estar nu e todos aplaudiam. Austregésilo tremia e tremia e tremia... Sabia estar infectado com o vírus do elogio gratuito.
            Foi salvo por um ornitorrinco resmungão, que aplicou-lhe vocabulária vacina:
            − Tu não escreveu nada! Não disse alhos com bugalhos e ainda quer palmas?
O pobre quedou ali sem entender, mas sentindo os tremores cederem, enquanto o Ornithorhynchus anatinus saiu gingando no melhor estilo Bogart e ao som dos maiores sambas da velha guarda barnasiana.
− Sincerol 500 miligramas, direto na veia. O melhor remédio para o nhe-nhe-nhem...
           

Austregésilo, de súbito atingido por inclemente chuva de tomates podres, sentiu que se não estava curado, ia no caminho da cura. E pôs-se a reescrever tudo aquilo que já havia dito um dia, sem dramas, nem dracmas, nem choro, nem lágrimas...  

** En homenagem aos 10 anos do BdE.

28 dezembro 2014

O Retorno dos Jedis


Foi dia desses, meio por acaso, acho. Recebi um bilhete escrito aparentemente em klingon (com aquela caligrafia desgraçada, vai saber), dando conta que “Se vocês construírem, eles virão...”. Incrivelmente impressionado com aquilo, tomei mais um gole e joguei o papel fora.
 No meio da terceira cerveja quando chegou outra papeleta: “Se vocês construírem, eles virão” Catzo, mas não falava construir o quê, nem onde, e pior, nem quem viria... Chamei o garçom e pedi que tomasse uma providência, afinal, a última cerveja não estava no ponto. E que viesse logo aquela dose de J.D. para acompanhar. Tem coisas que são inaceitáveis na vida. Uma delas é não estar bem aparamentado. Tinha uma investigação para fazer e sem meu combustível, nada feito.
Nem bem havia provado da nova garrafa, quando aparece outro recadinho. Desta vez, mais esclarecedor: “O Bar do Escritor vai voltar ou quá, cacete!?”
Ah, então era disso que se tratava. Reunir novamente aquela corja maldita de espancadores de palavras. Lembrei que Treuffar-san, o pequeno gafanhoto, estava com esta missão há algum tempo e tinha notícias esperançosas quanto ao seu desfecho.
Pedi uma long-necks para viagem, reabasteci minha garrafinha da sorte nº 02 e parti em busca de pistas. Tinha que saber o que estava acontecendo exatamente. Nem bem virei a esquina e percebi que era fodão mesmo nesse lance de procurar coisas. Se fosse esperto de verdade, fazia um desses cursos de detetive via correspondência e metia as caras a trabalhar nisso. Mas trabalhar não é lá um de meus fortes e tirar onda de artista é mais chique. Não dá grana, mas ajuda a levar umas incautas no bico.
A parada é que achei o novo BdE. Bom, pelo menos, o lugar onde parecia ser. Adentrei as acomodações com cuidado, é sempre salutar verificar exatamente o que está acontecendo por aqui. Lembrei de umas lutas do passado, uns barracos tragicômicos e outras viagens astrais e intergalácticas, acontecidas no espaço.
O lugar recendia a tinta nova, tudo aparentemente no lugar e incrivelmente limpo. Ponto para Pablito, o menino de ouro do Posto 08. Ou seria do 09? Vai saber... Então, dei uma geral no lugar, observando tudo tintim por tintim, parecia estar funcionando perfeitamente. Percebi que havia alguns vultos na penumbra, mas não reconhecia ainda nenhum deles. Uma ação enérgica devia ser tomada exatamente agora. Peguei a garrafinha da sorte, dei uma golada sinistra e sentei na primeira mesa, para acompanhar o que rolava na parada.
Comecei a ouvir uma espécie de cantiga, tipo “In the Hall of Mountain King”, do Krieg. Era praticamente um prenúncio da “Marcha Imperial”. Putz, será que Tio Vader iria dar as caras por ali?
Ao invés de ver o cara de preto eis que aparecem umas figuras vestidas totalmente de branco. A turma era encabeçada por uma mulher completamente vestida em uma espécie de burca branca, do rés do chão do topo da cachola tudo escondido, sobrando somente os olhos para for a; em seguida, um senhor sinistramente bem apessoado, envergando um legítimo Stuart Hughes Suit, o terno dos super-bilionários; ao lado um intelectual que carregava dois imensos livros que pareciam a primeira vista serem dicionários pesadíssimos, no porte e no conteúdo; por fim uma garota com traços orientais, a única do grupo de não possuía um aspecto totalmente aterrador.  
Apesar de estarem digamos, diferentes, reconheci a tropa. Tentei levar na boa:─ Me Morte, Véio China, Wilson R e Mali! Que bacana reencontrar vocês!
─ Alto lá – a voz do Wilson soava estranhamente diferente ─ Estes foram nossos nomes no passado, quando fazíamos coisas absolutamente desprezíveis. Agora somos pessoas evoluídas. Me Vida é hoje uma freira da ordem das balzaquianas, a primeira, inclusive; Mister China é um mega empresário de sucesso; eu, Wilson Roberto de Parará e Parará, como podes ver, sou um dos alcaides da nova língua, um neodefensor da reforma ortográfica.
Ao notar que ele havia dito o nome completo vi que tinha coisa errada─ E a Mali? ─ arrisquei.
─ Maria Ligia é agora advogada da Boifri, o maior conglomerado de carnes do Hemisfério Sul.
─ Mas vocês estão...
─ Exatamente.
Aquilo me gelou imediatamente a espinha. Estavam todos assustadoramente sóbrios.
Eu disse sóbrios, não sombrios.
─ Mas, mas como isso aconteceu?
─ Descobrimos os malefícios dos vícios e os banimos de nossa existência.
─ Isso não é possível, como vamos manter o Bar do Escritor assim?
─ Quem disse que aqui é um bar? Somos um dos centros de reabilitação do A.A.
─ Argh! Alcóolicos Anônimos?
─ Não, Associação Anti-Álcool. Ao vermos que vós, infiéis, não procuram a cura, trazemos ela para vocês.
─ E se eu não quiser?
Foi daí que doce, meiga e sempre super bem intencionada ex-Mali, sacou de um baita trabuco que mal lhe coube nas mãos e apontou para minha fuça:
─ E quem disse que você tem escolha?
Foi a senha para que eu literalmente virasse a mesa (não sei porque, isso me lembrou de Don Perrone; desejei que ele estivesse ali, com seus bastões de porradaria e seu Krav Magá. Seria de muita ajuda naquele momento); joguei o móvel nos três enquanto me dirigia para a saída em corrida desabalada. Nem bala de 38 me pegava.
Não contava é que a porta subitamente se fechasse, obrigando-me a tomar outro caminho. Saltei por um monte de mesas, derrubando coisas aqui e ali, tentando me esquivar dos pipocos que a ex-defensora dos animais mandava para o meu lado. Sorte que no lugar tinham outros cômodos e consegui despistar meus perseguidores.
Consegui um esconderijo que achei perfeito: o estoque. E já não era sem tempo, pois estava ficando na seca. Como tinha deixado as long necks ao lado da mesa, nessa hora não me valiam de nada. Olhei para minha garrafinha da sorte: abaixo da metade. Ainda bem que tinham muitas garrafas por ali. Sem nem olhar para o rótulo direito, passei a mão em uma delas e já ia mandar um golaço acalmador quando um tapão me fez derrubá-la. Já ia meter a mão no atrevido quando reconheci a barba volumosa.
─ Siebiger?
─ Jarbas, cara... Me chama de Jarbas. E essa parada aí é a que eles usam para deixar os outros sóbrios, sacou?
O hálito de conhaque me deu certeza que ele não tinha sido transformado.
─ Cara, que bom te encontrar!
Saquei que ele não estava sozinho na penumbra. E havia um outro cheiro no ar, algo diferente... Aproximei-me um tanto para ver quem era e dei um pulo para trás.
─ Calma, xará! É só o Zulmar. Nosso amigo...
─ Sei lá, o cara é abstêmio. Vai que tá com os outros?
─ Fica frio, parceiro ─ Z boy deu um passo à frente e me mostrou uma latinha ─ Verdade que não bebo, mas em vista dos acontecimentos recentes e de minha notória e antiga rebeldia, decidi ir contra o sistema, mais uma vez!
─ Pô, cara, mas cheirar cola?
─ Era o que tinha à mão, quando eles chegaram para me pegar.
Jarbas retornou, prático como sempre:
─ Temos que dar um jeito de sair daqui, avisar o mundo o que anda acontecendo ou tudo acabará em um mundo de sóbrios.
Para dar uma arrejada nas ideias, saquei a garrafinha de novo.
─ Maravilha! Você ainda tem um pouco de álcool. Podemos usá-lo para sair daqui!
─ Mas como?
─ Abra a garrafa e jogue-a no outro lado do salão. Enquanto eles estiverem distraídos destruindo-a, nós escapamos.
─ Cara, não sei não, essa é minha garrafinha da sorte...
─ Então, a melhor forma de usá-la é para salvar nossa pele.
Meio a contra gosto aceitei, afinal, isso era o certo a se fazer. Não o melhor... Preparei meu melhor lançamento e vaticinei:
─ “Se for vencedor, terei muitas, se for vencido, não precisarei dela”
─ Cara, que legal essa frase ─ a cola fazia um efeito legal no Zulmarmen.
─ Poisé, copiei de Spartacus.
─ Ande logo com isso, jogue a garrafa!
Dei um olhar de despedida para minha companheira de tantos porres  e atirei-a com toda a força: o baque do choque na parede oposta, juntamente com o odor de Jack Daniel´s que tomou conta do recinto fez com que todos os cooptados fosse para aquele lado. Aproveitando a deixa eu e meus companheiros logo corremos para a saída. Aproveitei para saber se sabiam o que realmente havia acontecido.
─ Pra falar a verdade, me disseram umas coisas que não acreditei. Tipo uma paradas de...
A fala foi interrompida no momento de nossa saída: topamos com uma multidão de sóbrios subindo a rua. Para falar a verdade, eles pareciam estar em todos os lugares. O mundo havia sido tomado. Mas o mais impressionante era que abrindo alas para o batalhão que vinha em nosso encontro estavam nada mais nada menos que Giovani e Treuffar, comandando a massa.
─ Era o que eu dizia – continuou Zulmar - Umas paradas tipo zumbi, saca? Parece que numa discussão sobre o destino da alma o Iemini acabou mordido por um televangelista, o Malamala, daí teve uma forte febre e quando despertou dela era isso aí, um pastor.
─ E o Treuffar?
─ Foi sua primeira vítima. Acabou virando seu diácono e juntos fundaram a Igreja Espacial do Reino dos Pigmeus. Daí a corrigir o mundo foi um pulo.
Os sóbrios nos cercaram entoando seus mantras. Jarbas, em guarda, indagou:
─ E agora, o que fazemos?
─ Bom, já que tá tudo na merda mesmo, acho que vou fazer o que faço de melhor.
─ O quê?
─ Tocar um bom e velho foda-se. Z, passa a lata de cola.
Utilizando então de meus mais profundos conhecimentos e lembrando de todos os episódios de MacGyver, juntanto a lata de cola, dois clips, um chiclete velho e um pouco de cuspe, montei uma bomba de hidrogênio.
─ É isso, galera, apertando este botão aqui vai tudo para o beleléu.
Momento tenso, os dois me olharam com decisão. Suspirei fundo e mandei ver. Quando premia o tal, senti um chute potente na base das costelas...

─ Levanta daí, ô maltrapilho.
Olhei para os lados espantado, estava dentro do Bar novamente.
─ Sr. Leonardo Quintela?
─ Tá doido, meu filho? É Spoke, Sapoke ou algo que o valha.
Vi com alegria que estivera sonhado bêbado de novo. Ou melhor, tendo um baita pesadelo. Nas mesas ao lado, toda a bebumzada mandava ver nos copos, tudo se encaminhando para o normal, se é que podemos nos achar normais.
Chamei o Sapoke para sentar e pedir o garçom para trazer logo duas, pois estava com sede, muita sede e precisava comemorar.
─ Comemorar o que cara-pálida?
─ Estar em casa, Sapolino, não há lugar melhor que o lar...



04 outubro 2014

Aquecimento...


Sabadão modorrento, poucas coisas na agenda, ainda sem tomar o goró sagrado do fim de semana. O que explicaria isso? As demandas necessárias para empreender, mais uma vez, uma viagem ao Velho Mundo, onde tentaremos novamente levar um pouquinho de nossas letras. 

Tendo como companhia  o comparsa barnasiano Wilson R., vamos lá meter as caras na maior have literária do planeta, o quintal dos alemães (já que vieram aqui e levantaram uma taça, porque não podemos fazer o mesmo por lá?). De quebra, apresentar para meio mundo o barato que é esse povo doido do Bar do Escritor. 

Tentaremos mandar notícias e escrever algo sobre o que rola por aquelas bandas.  


É isso, se não estivermos em algum boteco...



Fiquemnapaz, cambada.

04 setembro 2014

Das novas fronteiras e outros desafios

Das novas fronteiras e outros desafios


Os pintores, quando trabalhando em uma obra, tem um expediente bacana para avaliarem se o trabalho aplicado na tela está seguindo o projeto inicial: dão um ou mais passos atrás, para avaliar com ajuda da distância (a tal da proporção), se tudo está dentro de um contento. Uma pincelada aqui, outra acolá e voilá, o trabalho está pronto.  Às vezes temos que fazer o mesmo em outras ocasiões e para fins diversos.
No meu caso, aproveitei a ida para a Bienal Internacional do Livro de São Paulo, para avaliar longe do calor de Goiás se nossa proporcionalidade literária está no caminho certo, bem como as atividades do coletivo Bar do Escritor. Claro que iria aproveitar para conhecer a parte paulistana do BdE, além de reencontrar uns comparsas do local.
Então, foi munido de pouca coisa (a maioria da bagagem, os livros, já haviam ido via transportadora, graças à logística da R&F Editora / Izaura Franco), que peguei um voo doméstico para a capital da garoa. Isso por si só já destoava da maioria de minhas empreitadas, uma vez que geralmente me desloco com o valente Golzão 1.0 abarrotado de coisas (como os 2.600 km ida e volta para Paraty, na Flip. Mas isso é outra estória...).



            Como perdi o primeiro final de semana, não acompanhei o que o pessoal do stand nominou como a “grande-avalanche-humana-que-congestionava-todo-o-evento”. Mas chegar na segunda feira tem lá seu charme... O que não quer dizer que fiquei de papo pro ar, vendo a caravela passar; foi chegar e meter as caras, dando início ao exercício da literatura-corpo-a-corpo, aquela em que o autor tem que tomar a frente do stand e ir chamando o pessoal, como em feira livre. Uma feira livre cultural, por assim dizer.

            Vida de independente tem disso, meus caros.
            Uma ou duas Heinekens depois da entrada no certame, apossei da entrada do espaço e já de livros em mãos, parti para o trabalho. Devo salientar que a decoração feita pelos colegas que já estavam por lá ajudava e muito atrair a atenção do pessoal, pois as atrações eram muitas. Sim, com tantos stands e uma infinidade de título e autores, o lugar era um pedaço do paraíso tanto para quem pratica o santo hábito da leitura quanto para os viciados em escrever.
           


             

O contato com o público, poder demonstrar seu trabalho para o público alvo, fazer novas conexões e outros aspectos deste tipo de aventura é sempre prolífico, mas vem acompanhado uns bônus, que podemos usar depois para capitalizar a ação.









           
Reencontrar os amigos barnasianos, Roberto Klotz, Bárbara Leite, Wilson R (parceiro sempre), César Veneziani e Tamara, Márcio Takenaka, o senhor da noite, é sempre um prazer a ajuda a colocar a birita em dia.

Em matéria de boas iniciativas, destaco o trabalho do stand comunitário do governo do Rio Grande do Sul (como bem destaca a matéria da Larissa Mundim, melhor escrita que esta http://www.negalilu.com.br/2014/08/procura-se-antidoto-para-invisibilidade.html), que trouxe para São Paulo um grande mix de editoras do sul, além do stand da Imprensa Oficial de São Paulo, que traz para Bienal algo mais que só os ditames mercadológicos e as listas dos mais vendidos: buscam proporcionar com que o público tenha acesso mais fácil a obras que as grandes editoras e / ou livrarias não dão a devida importância.



Fica a dica para a Imprensa Oficial aqui do estado; um outro canal para difusão da cultura goiana.

É claro que o mercado é quem dita mais ou menos o roteiro da Bienal, com as rotineiras filas para os best sellers, a presença dos badalados do momento, a histeria coletiva por alguns autores, etc... Mas o mais legal mesmo é ver tanta gente reunida pelo singelo ato da leitura. E perceber que o público mais ativo era justamente o infanto-juvenil, dá aquela sensação boa que a próxima geração será ainda mais leitora que esta.
 
Foto devidamente surrupiada de Larissa Mundim


Alguns me perguntam o saldo de tudo isso. Fazendo todas as contas e levando em consideração que foi um dos lugares onde mais vendemos livros e camisetas, fiquei no elevado saldo de R$ 40,00, (devidamente gastos em um boteco perto de casa)... Mas o verdadeiro saldo está na divulgação do próprio trabalho, do exercício literário em conjunto com os parceiros que lá estavam como a Izaura Franco, Maria Cândida, Breno Leite, Larissa Mundim, Niara, Wilson R e Wilsinho (o Wilson 2). Divulgar o coletivo do Bar do Escritor e a satisfação em levar as letras de Goiás à frente e não ficar pensando só no monte de verdinhas. Até porque, se fosse fazer as coisas pensando somente no retorno financeiro, deixava a literatura e voltava para o mercado de seguros...


É isso. Nem bem a Bienal de São Paulo terminou e já começamos os planos para a do Rio de Janeiro. Mas antes disso, uma passadinha na Feira de Frankfurt mês que vem (se o cartão de crédito aceitar) e mais algumas aventuras literárias por este Brasilzão-véio-e-sem- portêra... 

Nos vemos por aí, em um stand qualquer da vida. 

04 maio 2014

Das coisas que aprendo em festas literárias


Poucas atividades na vida nos dão a dupla vantagem de crescer enquanto se faz o que gosta. De poder sentir-se realizado, mesmo naquela ralação de não ter tempo para mais nada que a operação a que se destina. Aquele tipo de aventura que te deixa todo ralado, estropiado e feliz. Sim, feliz, porque não mediu esforços para fazer aquilo que ama e o resultado será sempre satisfatório. O mesmo vale para quem gosta de trilhas, rafting, longas viagens de moto e afins.  
Assim sendo, de 30 de abril até ontem, 03 de Maio, estive na Flipiri – Festa Literária de Pirenópolis, a sexta edição deste evento que traz para esta bucólica cidade o mundo mágico das letras. Autores nacionais e internacionais, oficinas, palestras, shows e tudo o mais que se tem direito em um festival destes. A resposta do público foi imediata e o que vi nos dias que lá estive foi um sinal inequívoco que, quando a arte se mostra acessível, as pessoas comparecem em peso.  


Então, por conta da saída atrasada, cheguei em Piri somente à noite, mas no tempo certo para pegar a show de lançamento, da parceira Isabella Rovo e a Camerata Caipira. A mistura perfeita de sons para começar uma festa que começa a se tornar tradicional, em uma das mais tradicionais cidades de Goiás.

Como não tinha mais como montar o stand de noite, decidi ficar por ali e apreciar tudo com o tempo livre que raramente tenho nestas ocasiões. Foi quando aproveitei a presença de Ignácio de Loyola Brandão para aquela tietagem básica, pois não é todo dia que se topa com alguém com toda essa bagagem literária (havia o encontrado na Feira De Frankfurt de 2013, mas foi uma situação muito corrida). E a partir daí, comecei uma aprendizagem em série, pois o ensinamento está nos olhos de quem o vê.
Por conta do volume do som e da minha propensão a falar enrolado, levei-o a entender que meu nome era “Luciano” (isso acontece frequentemente, a única variação é quando entendem “Juliano”). Informado do nome certo, Ignácio, não titubeou: meteu uma errata e arremeteu que era um autógrafo único, dono de uma retificação que aumentava-lhe o crédito.
Achei aquilo tão natural e simples, que aumentou-me a admiração pelo trabalho. Em tempo, ainda não terminei de ler o livro, mas é excelente.

Meu próximo estágio de crescimento nesta viagem foi a forma como fui recebido e tratado por meus anfitriões, Marcos Lotufo e Edith. Marcão, como é mais conhecido, é um guerreiro das artes, o baluarte da Officina Cultural Gepetto, que, junto com sua esposa Edith, a europeia mais goiana que conheço, formam um dos casais mais agradáveis para um bate papo, seja cultural, político (algo raro hoje em dia) ou sobre amenidades da vida. Pessoas que te deixam à vontade com um simples bom dia, que traduzem tranquilidade só pelo linguajar pausado e a forma de demonstrar o carinho mútuo e respeito ao próximo.
Do tipo de abnegados que conseguiram transferir aos filhos (que já repassam aos netos) a ideia que na vida o importante são os valores pessoais e não os materiais; que o crescimento vem de dentro e deve ser compartilhado, seja ajudando a carregar uma simples sacola de supermercado, ou hospedando de surpresa três marmanjos de procedências diversas  quanto Goiânia, Brasília ou Moçambique. Ótimo foi poder acompanhar as trocas de experiências entre eles e Mahiriri Ossuka, de quem trato mais à frente.

O casal Lotufo e seus convidados

Outra parte importante nestas aventuras literárias é encontrar colegas autores, reconhecidos ou não, amigos barnasianos, como Gláuber Vieira ou Sonnos, o sumido, agora residente em Piri, podendo desta forma mostrar nosso trabalho em conjunto, as antologias onde traduzimos o mundo em poemas, contos, crônicas e afins... E junto poder levar as palavras de outros parceiros.

Giovani, eu e Nicholas Behr



Com o stand aberto pudemos perceber a receptividade do público ao trabalho feito por estes construtores de mundos imaginários, prosadores que subvertem a realidade vigente ou poetas que brincam com as significâncias ou significados, reafirmando a verdade que teimam em esconder, que o Brasil é sim, um país de leitores, assim como uma nação de autores, por mais que o mercado volte sempre sua face para os produtos de filmes, jogos de vídeo games ou postulantes das listas dos “dez mais”. 



Outra parte recompensadora fora a das palestras e oficinas que ministramos durante a festa. Nelas, além de podermos repassar nossa experiência com o Bar do Escritor e os percalços deste caminho literário, no mundo real ou virtual, ainda conhecemos vários exemplos e projetos desenvolvidos pelo publico participante

Descontraídas, eram verdadeiros bate papos onde relatamos o que passamos e aprendemos muito quando estávamos lá para ensinar, algo extremamente gratificante, que corrobora as palavras de Cora, de que “Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”, tudo isso em parceria com autores como Alexandre Lobão e o mais recente barnasiano, Mahiriri Ossuka.. O show de declamação do poeta moçambicano foi algo que me deixou maravilhado. 
Giovani, Mahiriri Ossuka e Alexandre Lobão

Adriano Siri e Cristiano Deveras

Por falar no Ossuka, deixei-o para o final por um motivo básico: conversando com ele, tive aquela nítida impressão que às vezes reclamo demais dos percalços pelos quais passo nesta jornada. Afinal, não tenho que encomendar impressão de livros a aproximadamente 2.300 km da minha cidade; sou circundado por gráficas e editoras, algumas em meu próprio bairro e, por mais que às vezes reclame dos preços dos livros em algumas estantes ou livrarias, a acessibilidade a eles é relativamente fácil para mim.
Ainda lembro-me do brilho em seus olhos, enquanto arrumava a pilha de livros recebidos de diversos autores presentes ao evento (todos cativados por seu jeito espontâneo e o leve sotaque aparentado com o lusitano), um tanto preocupado com o transporte dos volumes, enquanto dizia, quase que para si:
─ Estes irão ajudar-nos muito com os miúdos...
Espero que aquelas páginas transitem inúmeras vezes por infantis mãos africanas, enquanto o mesmo processo multiplica-se aqui no Brasil.
É isso, ano que tem mais Flipiri. Espero estar lá, de um lado ou do outro do balcão.


P.S. dia 15 de Maio começa aqui em Goiânia a Galhofada Cultural, capitaneada pelo Almirante Lotufo. Estaremos lá, com a mesma dedicação e livros. Muitos livros...