03 junho 2013

DAS ARTES DO AMOR OU DE QUANDO SENTI A PRESENÇA DE YEDA SCHMALTZ

            Entre os dias 16 e 19 de maio, tive a felicidade de participar da 10ª Galhofada Cultural, aqui em Goiânia. Um evento que por algumas de suas particularidades já seria bastante sui generis, afinal, uma mostra de teatro feita no meio da rua e da comunidade já é por si só algo inusitado, mas que por conta de outros fatores torna-se ainda mais envolvente e impactante.
            Destaque-se que é praticamente uma operação de guerra, com um batalhão de pessoas envolvidas com o intuito único de levar, como diria a música, “diversão e arte” de forma gratuita e sincera para a população. É bom lembrar que os artistas participantes doaram seu tempo e esforço para que o evento acontecesse. Sem cachê, sem patrocínio, sem jabaculê. E sem qualquer apoio governamental ou de alguma lei de incentivo, ato raro em um país rico em cultura, mas pobre em investimentos na área (pelo menos aqueles onde não se vê uma lei de incentivo por perto).
            Entre os que carregam a bandeira do evento, estão a Oficina Cultural Gepetto, o Teatro Zabriske, Grupo de teatro NuEscuro, Cia de Teatro Poesia que Gira, Teatro que Roda, além de vários outros grupos  e abnegados como Marcos Lotufo, que insistem em levar adiante tal empreendimento em nome de algo que está  cada dia mais raro de se encontrar por aí. Estes malucos do bem fazem o que fazem em nome do amor.
            Amor... Pela Arte.
            

Foi lindo ver palhaços, mágicos, atores e atrizes, equilibristas, músicos, artistas das mais variadas gamas dando o melhor de si em atuações de delicado fervor, acompanhados de perto por um público que era composto desde a população das redondezas, gente que comumente não tem acesso a nenhuma forma de arte ou evento cultural, até grandes apreciadores das artes, que ali estiveram para conferir o que acontecia no evento. Bonito de ver também foi o apreço que as pessoas deram à nossa banquinha de troca de livros; crianças, adultos, idosos ou adolescentes, era nítido o olhar reluzente que transmitiam, toda vez que topavam com um título conhecido ou algum exemplar há muito desejado. O exercício da literatura também é isso, aproximar o público dos livros.

            Amor... Pelos colegas de profissão.



Uma das coisas que ficaram impregnadas na memória foi observar de perto a união do pessoal do teatro / circo. De empréstimo de figurino a ajuda para compor público, ali se viu de tudo que um artista pode fazer em favor do outro. Uma camaradagem genuína, daquele tipo que não se vê todos os dias. Arrisco a dizer que, se na literatura local tivesse semelhante movimento, as coisas seriam bem melhores para nossos escritos...
Amor... Pelo próximo.

Além de todo o contingente de artistas que dedicaram tempo e esforço para tal empreendimento, houve também todo um aparato de apoio por trás da lona: cenógrafos, iluminadores, operadores de áudio, até uma cozinha inteira, que alimentou não só o exército de voluntários, como também uma parte de público, que teve a oportunidade de saborear deliciosos pratos no meio daqueles que apresentavam-se por ali. Lembro que, quando desarmava diariamente minha barraquinha de livros, juntamente com a parceira Izaura Franco, quando tinha que carregar algum dos mais variados itens que acabamos levando para estes eventos, geralmente aparecia, assim quase do nada, algum integrante de grupo teatral ou pessoal do apoio e punha-se a ajudar na hora, espontaneamente, como devem ser feitas todas as boas ações. Fica a lição de civilidade e companheirismo, mesmo daqueles que nem cheguei a conhecer devidamente. Registre-se também que, mesmo nos dias de sua máxima lotação, não vislumbrei um único ato de vandalismo ou confusão no local; parece que a aula de cidadania dada pelo evento conseguiu ludibriar até dona violência, que agradecidamente não deu as caras por lá.

 Amor... No ar. Entre o público, entre as crianças, entre os espectadores e as apresentações, entre os músicos, artistas, nos palcos, nas ruas, no cortejo e na Ilha da Galhofa, na Feirinha de Pulgas, debaixo da lona ou no meio do picadeiro, o que se via ali era um exercício de amor. Pela arte, pelo companheiro, pelo próximo.  
            O amor, sempre ele. Até quando apresentou-se em sua singela forma fraternal. Veio por conta do bate-papo descontraído com um dos leitores presentes no estande, Júlio Cesar, que teve a felicidade de partilhar da intimidade de uma grande poetisa como Yeda Schmaltz. Fez ele um emocionado relato daqueles anos que dividiu com sua amiga de tal modo que pode-se sentir como se ela estivesse ali, conosco naquela barraca de livros, trocando impressões sobre o movimento de pessoas e artistas no local, da felicidade que é poder participar de um evento genuinamente artístico, de amor pela arte e pelo outro... A voz, por vezes embargada, fez um retrato fiel do relacionamento ─ conturbado em alguns momentos, como deve ser toda amizade sincera ─ mas, que no fundo deixava entrever o amor que ali existiu até depois do final.
             Exatamente o mesmo tipo de amor que parecia emanar da Ilha da Galhofa, naqueles quatro dias de efervescência cultural.

2 comentários:

Glauber Vieira disse...

Legal, cara, não sabia da existência desse evento. Quando acontecer outro, avisa o pessoal aqui de Brasília.

Jéssica Santana disse...

Muito legal esse evento, também não sabia da existência. Deve ser muito fantástico participar!