03 dezembro 2008

Confissão

- Ok, ok... Deixem-me sentar no canto que já digo tudo. O que vou dizer pode chocar a alguns, dar nojo a outros, quem sabe até garanta a pena ou o desprezo da maioria, mas sinceramente, foi algo que me aconteceu sem que tivesse a menor chance de mudar o rumo das coisas, de fazer com fosse de outra forma ou que tivesse outra conduta. E o que me faz ficar assim, corado perante vocês é saber que não poderei ao menos levantar a voz em minha defesa, pois eu mesmo tenho muita vergonha de tudo...
- Você está dizendo sobre o que lhe aconteceu todo este mês?
- Na verdade, não. Eu tinha vergonha mesmo era do que eu era. Você pode não acreditar, muitas vezes me pego tentando mentir para mim sobre isso, mas a verdade é irrefutável. Eu era o ser mais desprezível da natureza...
- Não! Então vo-você era um... um...
- Sim. Eu já fui um ser humano. Um vil caixeiro viajante de nome Gregor – e disparou a chorar. As outras baratas, em círculo, meneavam a cabeça com pena do que havia passado seu (agora) semelhante...

04 novembro 2008

On the road ou uma pequena prece para Kerouak

Era novamente eu e a estrada. A vastidão do nada à frente e a mesmice do que ficou para trás, os horizontes que atravessavam as janelas do veículo, celerados, assustados e velozes. Não, acho que era eu quem corria demais. O pé direito afundado no acelerador me dava uma vaga suspeita disso. Tentei me lembrar de pouco a pouco o que havia me levado ali: a) um ano dedicado aos estudos e um concurso que no fim das contas, não deu em nada; o que leva invariavelmente a um b), estar tão deslocado no seu próprio eixo, devido ao isolamento para estudo e às profundas meditações transcendentais e sem sentido, que a melhor forma de se recolocar é sair por um tempo e depois voltar, acertadamente ao seu lugar, ou fingindo metodicamente estar.
Então, meu irmão fechou animadamente um negócio com um primo meio trambiqueiro, que mora no extremo norte do estado. Era para trazer um carro para minha mãe, um Honda Civic 2007, com todos os apetrechos que um carro deste porte deve ter. O transportador seria eu, que iria de ônibus e voltaria guiando. Não me perderei nestes detalhes. Até porque não me lembro muito bem de nada depois disso. Fui colocado ou direcionado ao meu assento no banco do ônibus por algum funcionário da viação; como houve um senhor atraso no embarque, passei meu tempo ocioso na lanchonete mais próxima do embarcadouro, cervejas e whiskys falsificados me fazendo companhia. Podem não ser as melhores companhias do mundo, mas te ajudam a passar o tempo. Daí que a ida foi um sono contínuo, uniforme e vomitado. Acredito que ganhei alguma antipatia dos outros passageiros. Talvez tenha tido isso do motorista também, a contar pelo jeito que me empurrou porta afora, quando chegamos na cidade do meu destino. – E que destino! – exclamei. Sob um calor que no mínimo cento e cinqüenta graus, a rua principal esturricava abandonada. Olhei quase no fim dela e vi a garagem de meu primo, ao lado de um agradável botequim, um oásis de calma e beleza rodeado de palmeiras - Melhor pegar o tal carro e me arrancar daqui, ou corria o risco de ganhar raízes profundas.
Cheguei com cara da ressaca encarnada, ainda não havia comido nada, depois de uma noite de solavancos e sonhos entrecortados. Carlos, o parente vendedor de veículos, me deu um abraço mais falso que uma moeda de dois reais:
- Grande Juliano! Como é que tá o cara mais famoso da família Werneck?
- Até que vou bem, mas não sou o mais famoso: o primo Alceu é quem tá bombando nas manchetes agora, depois daquele caso de desvio de dinheiro público.
- Ah, mas isso é ficha. Em pouco tempo o povo esquece disso, vai por mim. Mas no teu caso, você é um artista, um escritor, daí que não dá para esquecer.
- Isso se você escrever. Como não ando escrevendo, dane-se. É este o carro?
Ele fez um sim desconfiado, como uma raposa na porta do galinheiro. Deixei que o desdém do meu olhar demonstrasse que não me animei nada com o escolhido. Olhei em volta e todos os outros automóveis tinham o mesmo ranço estético; vários outros sedans alinhados, juntamente com alguns hatchs econômicos e algumas pick-ups monstruosas. Nenhum conversível, nenhuma motocicleta endiabrada, nenhum escape de duas ou quatro rodas. Foi então que o vi. Parado no canto, me chamando, quase ordenando que o ligasse. Era um carro de sonho. Na verdade, uma lenda. Deixei o escolhido de lado.
- Roda?
- O quê, aquele ali? Você deve estar brincando, não é para sua mãe?
- É, mas a gente divide o carro. Daí que acho que ele é perfeito. Pega a chave.
Girei o segredo no tambor e sentir o motor explodir: aquilo sim, é que era o som verdadeiro de uma engrenagem em movimento, o bom e velho carburador, não aquela coisa insossa da injeção eletrônica. O barulho do motor me impedia de ouvir o que meu primo teimava em gritar ao lado do carro. Ele apontava alguma coisa para dentro do veículo e eu somente acenava a cabeça, sorrindo maqueavelicamente como se entendesse tudo. Por fim, ele se aproximou e consegui distinguir:
- ... fora isso, tá tudo beleza. Fiz o motor, o câmbio e a suspensão, o bicho tá tinindo! Mas ainda acho melhor você colocá-lo em uma cegonha ou levá-lo sobre um caminhão.
- E perder o melhor da festa? Nem na bala.
Acertei a papelada com Carlos, comi alguma coisa que pedimos diretamente do botequim e comecei o meu retorno para casa. Não via a hora de cortar o espaço com aquela máquina. Atravessei a cidade com controlada ansiedade, louco para chegar na rodovia e começar verdadeiramente a rodar. Quando as rodas de liga leve começaram a desfilar na estrada, via o brilho do olhar dos fãs de motores chegando a corroer as fortes latarias. Meu ser começou a se integrar com o veículo logo após os oitenta por hora. Senti o volante se tornar uma extensão de minhas mãos e os pedais grudarem-se aos meus pés, o coração correndo em uníssono com o motor e minha força sendo transmitida pela transmissão daquele carro dos sonhos.Era novamente eu e a estrada. Foi quando percebi o que meu primo tentara desesperadamente me mostrar. O painel de instrumentos, vez por outra perdia o contato, ficando estático, sem fornecer informação nenhuma. Isto me fez gostar ainda mais daquele carro, pois suas falhas em muito se assemelhavam às minhas: sem marcador de RPM, nem ele nem eu sabemos a própria força ou potência; isto geralmente atrapalha muito coisa, seja em um aclive acentuado ou em um relacionamento conturbado; sem o controle do combustível, nunca sabemos até onde teremos gás para podermos ir, seja na estrada ou na vida, mas dane-se, quem perde tempo com isso? Um dia tudo acaba mesmo. A falta do velocímetro me impede de saber a que velocidade estou indo, mas algo dentro de mim me assegura que estou indo no tempo certo, no momento exato, e que em mais ou menos tempo chegarei em algum lugar; já a falta do marcador de temperatura é grave, pois assim como o motor pode fundir devido ao excesso de calor, sua falta na vida nos deixa sem saber se nossas relações estão próximas da ebulição ou em total e completo congelamento.
Todas estas conjecturas ajudam a despertar mais uma companheira de viagem que me acompanha desde muito. Minha velha e conhecida sinusite. A dor que se espalha pela cabeça se assemelha a mil pequena e pontiagudas facas distribuídas pelo crânio, com uma raiz profunda que desce por detrás do olho direito e se esgueira pela orelha, chegando a sussurrar coisas obscenas em meu ouvido; não tomo analgésicos pois eles causam dependência e a pior coisa do mundo é estar dependente (de algo ou de alguém). Por esta razão me apeguei a esta dor como um náufrago a uma tábua.
Mas acho que me enganei. A pior coisa do mundo não é a dependência, mas sim viver frustrado. É pior que morrer duas vezes; uma porque sabe que ainda vai morrer, outra, porque realmente todo o sentido da vida se esvai com aquela imagem de quem você deveria ter sido. Neste exato momento vejo um eu bem sucedido sentado no banco detrás, rindo amigavelmente para mim, tentando me passar alguma confiança. Foda-se.
Enquanto devoro quilômetros rodas abaixo, com o pensamento solto e livre, tentando decifrar o código secreto da vida, ao lado sempre aparece um ou outro apressadinho tentando apostar corrida comigo; ao adentrar um carro poderoso (ou se destacar de qualquer outra maneira) você sempre verá as pessoas (pelo menos as pessoas mais idiotas) te chamarem para um racha, uma aposta ou uma desafio qualquer. Ao não aceitar, estarão todos te avaliando por questões de valentia ou medo, mas ninguém (salvo raras exceções) perceberão que não procedeu daquela forma justamente para não fazer aquilo que as pessoas esperem que você faça.
Acredito que exatamente por isso que trouxe este maravilhoso Maverick V8, e não o tal Honda... Apesar de meu irmão quase ter enfartado, fico sempre tocado ao saber que minha mãe é, aos quase sessenta anos de idade, a feliz proprietária de um autêntico muscle car. E me sinto como um pequeno garotinho, toda vez que Mamãe, dirigindo seu V-oitão pelas ruas, vai me buscar em algum um sarau de poesia, enquanto vou bebericando meu Jack Daniel´s madrugada afora... A lei seca pode ter me privado de um dos meus passatempos prediletos (direção ébria pós encontro literário), mas ao menos serviu para melhorar meu relacionamento familiar.

06 junho 2008

A Travessia

Matem-me amanhã
e serei novamente um cadáver agradecido
com um sorriso nos lábios
e a tranqüila serenidade
daqueles que não souberam que partiram,
dos que se foram sem se despedir
(lançados ao espaço por desproporcionais choques de massas)
enquanto o corpo descrevia uma parábola descendente
parando no meio do asfalto,
meio morto(morte de cachorro louco, dia frio, na beira de um meio-fio)

Nós,
os que sempre se vão na hora errada
não queremos mais mundos obscuros
onde as lágrimas não podem passear pelos rostos
e as dores não podem ser acariciadas
à luz do dia

Todos os dias

Por conta dessa noite de virgens loucas
a poesia nada mais é que um momento trágico e mágico
eternizado por uma pena perdida
(no fel da loucura embebida)
servida em cálices altos
aos que se embebedavam
no festim da vida

E por conta de toda esta embriaguez
é que viramos a cidade de pernas pro ar,
somente para encontrar
um par de pernas
cruzadas

Os que vierem depois disso quase nada entenderão
(farão falsos discursos em monocórdios maquinados)
mas o mundo muda de repente (à revelia)
e a travessia pode se dar à qualquer hora
confirmando assim a única certeza da vida

Meu presente para o futuro é um passado sem glórias

Ainda agarro a felicidade pelos cabelos
e a beijo sem volúpia e sem vontade
apenas para ter o prazer de lhe cravar os beiços

21 maio 2008

Dos perdões nunca pedidos


“I know someday you'll have a beautiful life
I know you'll be a star
In somebody else's sky,
but why, why, why
Can't it be, can't it be mine”[1]
Black - Pearl Jam

Eu só queria pedir perdão. Por haver cometido com minhas novas ações, velhos erros, falhas grotescas que sempre juro não mais fazer, mas que acabo sempre repetindo, nessa rotina de desconfianças infundadas e ciúmes estúpidos.

"Eu te amo". E havia vindo lhe dizer isso, que não era da boca para fora, que era verdadeiro e pulsante. Mas desconfio que comecei a te perder no dia em que te disse isto e agora você já não me ouve mais. Sua frieza e seu aspecto marmóreo me dão a certeza que não terei a redenção que vim buscar. Não atendes nem aos meus gritos que ecoam pela noite, soltos como corvos, fazendo revoadas sobre minha casa, nossa um dia...

Então isso é um adeus.

Parto em pedaços, enquanto me vou, mas parto com uma parte tua, levo teu olhar e teu coração comigo, pois é onde sempre deveriam estar. Vou tratá-los com o amor e carinho que merecem, os mesmos que sempre devotei a ti.

E se houver uma eternidade depois desta vida, espero te encontrar lá por acaso, em um desses dias claros, num céu de brigadeiro, sem nuvens...

- É isso, doutor. O cara nem assinou...
- Tem certeza que era o ex mesmo?
- Absoluta, o porteiro do prédio em frente o reconheceu. Veio de madrugada, encontrou a mulher com o novo namorado, meteu três tiros em cada um deles, depois escreveu isso aí na parede, com o sangue das vítimas.
- Vinte anos na polícia e nunca tinha visto algo igual.
- Pois é doutor, nem eu. O meliante ainda levou o coração e os olhos da moça!
- Já sabem alguma coisa do safado?
- Pelo que levantamos até agora, ele era metido a escritor, poeta, algo assim...
- Por isso é que eu nunca gostei desses tipinhos.
- Nem eu doutor. Fulano que fica com a fuça muito tempo enfiada em livro um dia endoida... E faz uma merda dessas.
- Indivíduos perigosos, perigosíssimos! Nunca fiquei tão enojado na vida... Agora vá na padaria do lado e me compra dois sanduíches. Final de plantão sempre me dá uma fome do cão.
[1]Eu sei que um dia você terá uma vida maravilhosa
Eu sei que você será como uma estrela
No céu de um outro alguém
Mas por que? Por quê?
Por que não poderia?
Por que não poderia ser no meu?

05 abril 2008

Silepse do tempo perdido ou
mais uma noite que se tornou dia


Hoje acordei na hora de dormir;
ontem virou hoje
por volta das dez da manhã
de uma noite chuvosa que bebia gotas
sem fim
um trago para o alto
um gole bem dado
um pouquinho para o santo
o mergulho no asfalto:
braçadas para o rumo do nada
vitaminadas pela fé cega
dos lisérgicos
que correm em cascatas dentro de mim
descobri todos os sentidos da vida
que nunca havia tentando achar
pois
minhas filosofias estão todas mortas
e as paixões, essas velhas carpideiras
choram copiosas
detestáveis e maliciosas
o futuro sem fim do amor assassinado:
ou troco todas as minhas receitas
ou passo a beber descafeínado

Existem noites que não morrem:
são engolidas vivas, pelo dia.

22 fevereiro 2008

Condoreira

Sou romântico
desde 1836
se suspiro, Suspiros Poéticos
se sofro, sofro de vez

Nunca fui tão nacionalista
quanto o soldado que carrega o pendão
minha mente voa a perder de vista
não finquei pé em nenhuma geração
minha condoreira é sentimentalista
busca abolir toda escravidão:

de que vale bater um coração no peito
se por outra pessoa bate em vão?

22 janeiro 2008

Constatação

.
Armazeno palavras
no oco oposto da minha cabeça
e as despejo destratadas
de maneira tosca e infiel
entre as bordas brancas
de um pedaço de papel,
sem orgulho ou presunção
sem plano ou meta,
escrevo palavras ao léu:
sou pobre, não poeta.

17 novembro 2007

DOS DIAS DEPOIS DO FIM

Veja,
o céu está novamente chorando.

A Beleza de luto,
caminha cabisbaixa
vestida de preto

Desfila de mãos dadas com a Dor:
é a festa da descrença
o banquete da revolta
o festim d´amargura
o velório do amor...

Vede, o sol não mais sorri
e as flores fogem fadigadas,
as crianças choram amedrontadas
com a chegada da noite eterna
que tomou o mundo inteiro
(noite da sentida ausência)

Madrugada do desespero

Não há mais amanhecer
chegada do dia
alvorecer
pois o mundo acabou ontem
e os que não tiveram a sorte de perecer
vagam com os olhos vazados
no meio dos escombros fumegantes
de seus arrasados lares

Tateiam o vácuo em vão
tentando encontrar uma face conhecida
mas só alcançam a máscara da miséria
(feita com a própria pele derretida)

Ragem os dentes e gritam
(os amaldiçoados riscados do Livro):
- Dor, ó dor, porque nos abandonastes
...............................................porque nos deixastes
................................................................................vivos?

12 novembro 2007

UM NOVO EU

Eu, que não sofria
de falta de ares
de arroubos e suspiros
de amores

Eu, duro como um prego
no madeiro
altaneiro
hoje cabisbaixo
sinto fraquejar as forças
mas ainda mantenho as poses

Quisera eu
como um pensamento
cruzar instantâneo
toda a extensão do firmamento
à fera que me rouba
os pensamentos

Monstro triste e trágico
batizo-o saudade
quisera eu...
quimera eu...

04 novembro 2007

Projeto de Samba

Projeto de Samba

Meu samba é pobre
Mas é limpinho
É cantado em desafino
É desalinho

Nasceu no asfalto
Mas subiu o morro
No cangote da morena
Que canta alto
Suspiro e sopro
Sufoco

Canta a morena
Cantinela
Ela canta o samba
O samba é dela

27 outubro 2007

ÚLTIMA MORADA

.
Meu esquife
é negro como a pata da noite
rasga a terra
como abre a pele das costas
o açoite
onde jorra o rubro vivo
da vida que se esvai
desce à última morada
casa funda que agora é cova
endereço fixo
enfim
do qual não irei me mudar
ali finalmente repousarei
mas ainda não sei
qual paz irei achar

Ao menos terei as flores
que não tive em vida.

26 outubro 2007

Convidado: Wilson R.

Quem somos?

Quem é você?
Quem é você, que desperta paixões tão violentas?
Quem é você, amada e odiada com tanta intensidade?
Quem é você que, com sua maravilhosa presença,
humilha aos seus pés as frágeis belezas da Terra?

Você é:

Perigoso objeto de desejo para corações incautos.
Delicadeza violenta para almas despreparadas
Dolorosa lembrança, viva em corações impiedosamente despedaçados.

Quem sou eu?

Quem sou eu, capaz de lutar mesmo quando
a batalha parece estar perdida, e ainda ter a certeza da vitória?
Quem sou eu, que desejo tanto que meu desejo contamina?
Quem sou eu, incapaz de lhe fazer outra coisa além de amor?

Eu sou:

Ferocidade tranqüila no encalço dos desejos
Ganância abençoada, que quer corpo, coração e alma.
Romântico descuidado, que não sabe nem pretende esconder sentimentos.

Você é a mulher que eu amo.
Eu sou o homem da sua vida.

Wilson R. é uma alma apaixonada que circula pelo BDE (Bar do Escritor). Autor de várias obras; esta pequena jóia encontra-se em S.O.S. Redação e Expressão Vol. 5
Agradeço a gentileza do mesmo em autorizar a postagem.

25 outubro 2007

Das eras, das feras e dos monstros interiores

Entre milênios espremidos em minutos
eras que se passaram em horas
no espaço imutável de um segundo
guardei aquele olhar dentro do meu
aprisionei-o e o trouxe comigo;
às vezes minha cruz mais pesada
em outras meu único abrigo
das acusações que me faço
sem me defender;
não peço nunca clemência
nem estou disposto a oferecer.

Último voluntário da pátria
sigo esbarrando nos ombros
dos que não me vêem
que não sabem onde guardo
meus tesouros e escombros

Dou de beber aos filhotes
da minha loucura
crias gordas e sadias
rainhas, cadelas, vadias
percussoras da minha crucificação
diária
último pária
seguindo sozinho em busca do horizonte
bebo o fel da fonte
do amargo lembrar
do rememorar
auroras de perdidas cores
de vários festins
e difusos amores

Aos séculos e seus sagrados segredos
respondo que ainda persisto
e apesar das derrotas e dos meus medos
não acenderei a candeia que eliminará a escuridão
no meio das sombras danço
mas o coração não acalento:
eu o picotei em pequenos pedaços
e o cozinho em fogo lento.

24 outubro 2007

Força e Fraqueza ou poema 61

61

Deixem-me
passem a fila adiante
e sigam sem olhar para trás
ou sal se tornarão

Olho ao lado
todos de mãos dadas, pares
como não tenho ninguém a quem dar as mãos
ponho-as no bolso; tem lá o seu charme

Deixem-me
deixem-me ser omisso
ao menos uma vez
deixem-me ser fraco

Pois já estou cansado de ser forte
e num supremo momento de fraqueza
em que se precisa ser forte
nunca mais sofrerei de novo

P.S. Este é o poema nº 61 do livro ainda não publicado "99 poems to die"...

22 outubro 2007

Cancioneiro do meu vôo

Ela puxô meu coração pela goela
pegô nas mão e bejô
ele triste, mirrado e sozinho
desenganado de gostá
se esperançô

Ela ergueu ele pro ar
e assim lhe ordenô:
Volta agora, a voar!
criando asas com presteza
para o céu ele avuô

É tão bão voar de novo
depois de ter quedado do alto
se partido e morrido
de tê tanto sofrido
por amô...

Mais vale a esperança de um amô perdido
que a certeza de num sê querido
e por medo de tê o orguio ferido
fazê cara de ofendido
quando lhe perguntam se tá mal...

Bate asa e voa
que cair faz parte da vida...

16 outubro 2007

Fim de semana amoroso ou da efemeridade do eterno


Ela vivia entre cifras e números. Trainee de uma multinacional, MBA quase concluído, ótimas notas, curriculum perfeito; ele, entre palavras e estrofes. Poeta semi-profissional, escritor por opção, ex-executivo, ex-empresário, extenuado pela busca da carreira correta, alguns contos reconhecidos, alguns rabiscos elogiados.
Se conheceram em uma sexta-feira. ela animada com o começo do final de semana; ele, buscando beber de graça no coquetel da empresa dela. Alguns passos para o mesmo lado, a escolha da mesma bebida (sem gelo, por favor!), um olhar correspondido e uma avassaladora paixão nascendo; conversas até a madrugada sobre tudo o que cerca os antenados... Uma despedida na manhã, dois telefones trocados e um beijo para ser lembrado.
Saíram no sábado, conforme o combinado na sexta, ela mostrou a ele o prédio da Bolsa (ainda vou trabalhar ali!), ele profetizou que ainda lançaria alguma coisa no prédio do Masp (nem que fosse o próprio corpo, lá do alto...). Os beijos se tornaram mais ardentes e os olhares mais profundos; a lua na madrugada os encontrou se amando por entre sussurros e desejos, as primeiras promessas brotando.
No domingo acordaram abraçados, beijando-se sem se escovar, rindo-se das mesmas coisas, bebendo do mesmo copo, trocando apelidos e segredos, constatando na pele as marcas físicas de uma noite de amores... Constatação essa que reiniciou todo o fogo, todos os movimentos. No auge do calor, a bomba: prometeram-se mutuamente amor infinito por todos os séculos que ainda restassem, juraram que seus sentimentos estavam em sintonia para todo o sempre...
Na segunda ela saiu para trabalhar cedo, ele ficou deitado de cuecas... Ela ligou de tarde dizendo que estava tudo acabado: iria se transferir para Nova York com um dos filhos do presidente da empresa; ele suspirou aliviado: a mulher e os quatro filhos deveriam estar putos da vida com seu desaparecimento... Esvaziou o barzinho dela e se escafedeu para o subúrbio.

09 outubro 2007

Revertérium

Brinco de controlar
meus desencontros cotidianos
minha rotina é inédita
meu dia a dia é estréia
o viver é uma aventura
avant premiére diária
amanheço amando
almoço desenganos
deito e durmo desiludido

Amanhã é outro dia bem diferente
minha sina é reviravolta
não comando meu destino
coadjuvante no filme da própria vida
sigo de carona com o desconhecido

Amanhã é outro dia
outra vez

08 outubro 2007

O cão chupando manga


O que é estar bem? É olhar um pôr-do-sol de mãos dadas ou com elas nos bolsos caminhar pelo calçadão? É comprar um carro novo ou morrer de amores por aquele seu velho automóvel com muitas estórias? É sentir-se bem quisto, visto ou amado, ou então, suportar como ninguém mais a afasia e o descompasso do mundo ocidental, moderno, frio, descontrolado e desesperançado?

É ter coragem para enfrentar uma execução ou ser o carrasco ?

É ver o pálido setembro ruir ou o surgir de um outubro rubro e sem rumo?

O que é estar bem? O que é estar mal? O que é ser bom, ou ser mau? A verdade que machuca ou a mentira inofensiva?

Um brinde não alcóolico feito ao que há de real e sincero no mundo. A crença cega em algo que não mais se materializa. O choque dos cascos dos cavalos do destino golpeando febrilmente o corpo inerte que se estende na calçada de um bar de esquina, a morte e vida severina, não precisa de sertão. Já há mormaço demais, calores demais.

Tudo depende de qual lado da arma você está... Há a queda, a busca pelos motivos do tombo e a constatação que agora o mercúrio cromo de nada servirá como curativo, nem que algum esparadrapo possa conter o fluxo de vida que lentamente se esvai...

Apesar de tudo isso, as noites sempre se vão e sempre há de amanhecer. Talvez não com a mesma magia, mas amanhecerá com certeza. Mesmo que o dia seja chuvoso e frio.

Pensamentos esparsos de um dos meus personagens mais contraditórios

08 agosto 2007

DÉCADA

“Você pode enjaular um tigre ,mas jamais terá certeza que ele está domado.
Com os homens a coisa é mais fácil.”
C. Bukowski

Dez anos. Cento e vinte meses. Mais ou menos 3650 dias, pois o ano bissexto atrapalha esta conta e as próximas. Oitenta e seis mil e quatrocentas horas, trezentos e onze bilhões e quarenta mil segundos. Este era o tempo aproximado que havia ficado separado da minha vida anterior. De quem eu era e quem sou agora...
Shopping em dia de semana é para quem têm muito para gastar ou para quem trabalha para ganhar. Caminho no meio das lojas com minha mochila nas costas, cheia de livros, despenteado, deixo o cabelo livre cair no rosto, sem me importar com o efeito ou com o olhar preocupado de uns seguranças, interessado de algumas vendedoras. Vou para a praça de alimentação.
Comprei uma cerveja em lata para rebater a ressaca lazarenta que toma conta do corpo. Segunda à tarde e eu com ressaca. Nada de anormal nisso. Havia recebido o telefone de manhã, mas só comecei a ficar mal da ausência de álcool depois do almoço. Levei meus sobrinhos no colégio e pus-me a andar daqui para lá, resolvendo uma coisinha aqui e outra lá: depósito em banco, orçamento de editora, um taxa na prefeitura e depois vim parar aqui. Enquanto bebericava a latinha, saquei um livro de um velho safado* e o lia para ajudar a passar o tempo. Embora o tivesse lido várias vezes, ainda assim conseguia me tirar algumas risadas. Uma garota de cabelo roxo, sentada em uma mesa próxima, parece que gostou da cena; sentado com um latinha do lado, ria sozinho lendo o livro de bolso. Em duas oportunidades que retirei rapidamente os olhos das páginas, pude ver que ele acompanhava meus movimentos com interesse. Em outra oportunidade talvez rendesse frutos.
Ela chega como quem não quer nada, vai logo dizendo que apesar do cabelo comprido, me reconheceu de longe: era o único que estava bebendo e lendo ao mesmo tempo. Os cabelos dela também estão bem grandes, alisados e mais claros que antigamente; a pele clara e o nariz naturalmente empinado não mudaram, mas o que sempre chama a atenção, o que me chamou a atenção de início foram aqueles olhos. O azul profundo e por vezes avassalador daquele olhar ficou retratado na minha mente em várias oportunidades: no dia em que a conheci, dez anos atrás, eram claros e esperançosos, notava-se a vontade de acreditar no que eu dizia; quando caí de moto, tempos depois e fiquei uns dias de cama, aquele azul nublado demonstrava o quanto a preocupação dominava suas ações; quando disse que a amava pela primeira vez, explodiram em um anil celeste, digno de um céu de brigadeiro e por fim, o nublado quase cinzento quando de cabeça baixa, tentando escapar das perguntas dirigidas pelos olhos dela, disse que estava tudo terminado.
Quase cinco anos de relacionamento, e cheguei do nada e disse que havia terminado. Do nada é modo de dizer: havia me apaixonado por outros olhos, negros como a asa da graúna e incrustado em um rosto leonino de uma outra beleza exótica. Fiz a troca de quatro anos por uns meses... Intensos e eternos enquanto duraram, mas mesmo assim, alguns meses.
Após os usuais ois e como vais, as perguntas por amigos e parentes, nos transferimos para um local mais adequado para uma conversação daquelas. Em frente ao lago Vaca Brava (nome estúpido para um lugar tão belo), em um restaurante da moda nos acomodamos e continuamos a conversação. Respondia as perguntas dela, mas me esquivava das indagações daquele olhar azul de tempos antigos... Olho para os preços no cardápio e me lembro que quando começamos, eu sempre fazia as escolhas olhando para o lado esquerdo do menu. Os preços não eram problema, naquela época. Hoje meus olhos correm desesperados pela fileira da direita, enquanto a mente faz as somas para saber se o bolso consegue equilibrar a balança entre receita e despesa.
Era mais magro, mas não tão atlético, meu guarda roupa era infestado de ternos e gravatas, sapatos pretos e o corte escovinha me fazia parecer um milico envergando um Armani. Hoje, camiseta branca e calça jeans constitui em suma meu acervo. Mais alguns milímetros e poderei amarrar a cabeleira. Ela continuou com aquele olhar penetrante. Tentou me devassar e falei um pouco mais do que deveria. O pior foi lembrar de detalhes que ela já desconhecia. Irônico, para um cara que destruiu parte do setor de memória. Politraumatismo craniano, história antiga.
Formada e com pós em alguma coisa que não entendi; eu reativando Letras, depois de ter jogado fora dois anos de filosofia pela janela. Trabalha agora na maior capital do país, em uma grande indústria de produtos de saúde; egresso do mercado de trabalho, apliquei esse anos em vários tipos de negócios, de dia ou noite, colecionei estórias e experiências. O dinheiro, similar ao que foi feito por um jogador de futebol, investi em mulheres e muitas farras, o restante simplesmente eu gastei.
- Trabalho com marketing agora. E você?
Tentei inventar algo sobre uns projetos importantes. A toalha voou rápido.
- Escritor cola?
A conversa tomou outros rumos, afinal a literatura não paga minhas contas, entretanto aquele olhar continuava me avaliando, não só o exterior, mas também tentava desencavar algo de dentro de mim. Para minha sorte e perdição, sempre consegui disfarçar muito bem o turbilhão de coisas que se passa dentro de uma alma atormentada. Se houvesse Oscar para isso, era meu com certeza. Em mais de uma oportunidade, diga-se de passagem. Um silêncio inconveniente foi quebrado graças a “Loosing my religion” e a voz rasgante e deslocada no tempo de Michael Stipe atiça o braseiro de lembranças. Jurei mentalmente que se fosse seguida de “Refrão de Bolero”, me jogaria embaixo de uma carreta de dezoito rodas.
Matamos um pouco do tempo conversando sobre as pessoas que passaram em nossas vidas, neste espaço de tempo e sobre essa solterice que nos acompanha: a quase totalidade dos nossos amigos em comum está casada ou em vias disso. Lembrei que seu olhar sempre brilhava ao ouvir a palavra “casamento”, mas sempre desconversava e dizia que tinha que se formar e fazer um mestrado antes. Agora já fez tudo isso.
Tirou um envelope de dentro bolsa e o balançou lentamente no ar. Então era a respeito disso que se tratava este encontro. Pagou a conta no cartão, levantou-se e me deu um longo beijo, daqueles bem antigos, de durar música inteira. Depois ajeitou a maquiagem rapidamente, deu uma retocada no batom. Na saída, atirou-me o convite de casamento na cara:
- Você nunca vai crescer mesmo.
Aquilo me desmontou. Dei o sorriso mais sacana que pude e não entreguei os pontos. Agora era ela quem desabava. O olhar, aquele olhar, o mesmo de dez anos atrás, havia me dito tudo, havia entregue todos os planos e desilusões em um átimo de segundo, em um vislumbre poético de uma alma feminina, tão forte na dor quanto no parto. Invejei aquilo. Por fora era a mesma rocha de sempre, mas meu interior estava mais liquefeito que mingau. Sorri de novo. Um sorriso dado na hora certa sempre quebra o clima. Virou-se e saiu, altiva e nobre.
Enquanto ela entrava no importado que havia alugado, fiquei me cobrando uma atitude, qualquer coisa. Lembrei que ainda tinha um dinheiro no bolso e que ela havia pago todo o consumo. Assoviei para o garçom e pedi que reabrisse a conta.
- Têm Jack Daniel´s ? Traz um duplo. E sem gelo, por que gelo no J.D. é pecado grave.

04 agosto 2007

O "FINJA"


O recado do assistente fez com que Adalberto percebesse que estava em sérios apuros. Não fora pego em flagrante, mas ele afirmara com plena certeza que sua mulher dispunha de provas suficientes que ele tinha um caso com Dona Soraya, a secretária bilíngüe, loira de 1,78, farta de frente e de fundos... Imaginava já o olhar colérico da esposa e a faca que ela empunharia, dizendo coisas assombrosas a respeito do destino de suas zonas baixas... Agora entendia o distanciamento dela e a falta de interesse. Havia sido descoberto, isso era claro. Mas naquele momento, precisava salvar seu casamento, não que morresse de amores pela mulher, mas pela herança que ela representava, os negócios não iam bem e voltar a ser um zé ningém não era algo que estava em seus planos. Teria que usar de algo que aprendera em um passado remoto, em anos de intenso treinamento e que jurara há tempos que nunca mais usaria. Teria que usar todos os seus poderes de kaoísta. Parado em frente sua casa, sentiu as lembranças desaguarem em sua mente...
As serras eternas do estado de Goiás, cobertas pela vegetação baixa, as pequenas e retorcidas árvores, características do cerrado, o cheiro de frutas silvestres (mangaba, pitanga, jenipapo) permeavam o ar e indicavam que estavam na estação das chuvas. Seis meses aguados, seguidos de seis secos. Todo ano era assim. Era nisso que Adalberto, cabeça raspada e metido em um macacão jeans, pensava até ser despertado por um peteleco:
- Outra vez perdido nos pensamentos?
- Sim Mestre, desculpe isso eu... – outro peteleco forte estalou na sua orelha.
- Você se entrega muito fácil, Pequeno Quati*! E ainda pediu desculpas? Treze abdominais repetindo os lemas sagrados!
- “Negue... Negue até as últimas conseqüências, mas negue!”
- E o segundo?
- “O verdadeiro kaoísta nunca fica sem palavras... Elas criam vida em sua boca e o ajudam a quebrar qualquer galho”!
- Hummm... Mais convicção, o próximo!
- “Um kaô dito com convicção é mais forte que uma verdade tremida”
- Por quê?
- “Quem não deve, não treme!”
- Coloque isto na cabeça, Pequeno Quati... O mundo lá fora é uma selva e se seu kaoísmo for fraco, você será fraco! Ele te engolirá, está me entendo?
- Sim Mestre!
- Já evoluiu muito desde que veio aqui para o Mosteiro do Kaô, mas ainda há muito para você aprender.
- Mestre, é verdade que teremos um desafio contra os “Monges do Agá”?
- Sim... E temos que manter a hegemonia de dez anos sem perder para eles.
- Mas eles treinavam com o senhor, Mestre?
- Isso foi há muito tempo, pequeno carnívoro...
- Então eles conhecem todos os seus golpes.
- Há uma regra secreta entre os mestres kaoístas: nunca ensine todos os seus truques e desenvolva secretamente outros que ninguém saiba... Agora troque de roupa que os monges chegarão a qualquer momento.
- Mestre, por que eles foram expulsos?
- Levaram o kaô para o lado negativo... Deram a se meter com pessoas muito suspeitas, indivíduos metidos em ternos caros, carros importados, siglas esquisitas, falas enroladas e desculpas esfarrapadas, que queriam utilizar o kaô para seus funestos fins...
- E o que estes seres utilizam agora?
- O Agá, que é uma forma desvirtuada do kaô... Veja bem, o kaô é utilizado para diversos fins, tipo atraso na entrada do trabalho, uma escapadela no fim de semana, um caso passageiro com a secretária ou algo neste sentido, nada que vá prejudicar seriamente alguém, ou dar algum prejuízo... O kaoísta experiente têm condições de enfrentar o “encosto gastador” (aquele que te encarna e o faz gastar toda a grana numa noitada só), assim como o “encosto pegador” (o que leva a encarar qualquer dragão depois da segunda dose)... Já os praticantes do agá não se preocupam com suas ações, usam seus poderes para ludibriar os outros, posando de bons moços até quando suas ações suspeitas são comentadas; sabem muito bem os golpes da dissimulação e da desinformação... Enfim, são o lado negro do kaô. Agora vá e se apronte.
- Sim, Mestre!

Naquela noite encontraram-se todos reunidos no grande salão, kaoístas de um lado, monges do agá do outro... Via-se que os monges estavam mais determinados do que nunca; cansados de tantos anos de humilhação, os monges haviam feito uma preparação especial, “lá pros lados da Esplanada”, em um palácio pomposo com duas torres flanqueadas por duas enormes “bacias”, cada uma delas voltada em uma direção, acima ou abaixo. Os gestos largos, mãos pelo ar, as falas que iam em um crescendo, criadas especialmente para palanques, mas que tinha um rendimento espetacular nos tatames, estavam já surtindo efeito: percebia-se nos rostos dos aprendizes kaoístas um certo desconforto, que poderia denunciar o medo do combate. Sodi Mahis, o monge supremo dos seguidores do agá sorria confiante, esperando o começo da luta.
- Pois bem, Mestre Eoh Tao, o reinado do kaoísmo termina hoje...
- Não tenha tanta certeza, Mestre Mahis... Sinto que algo paira neste ambiente.
- Eu também sinto. É a covardia e o medo de seus alunos que empesteia o lugar.
- É algo bem maior que isso... – E enigmaticamente, sacou um colar de fitas coloridas e ficou em pose de meditação.
Quando estava para soar o grande sino, enquanto todos os contendores se preparavam, um berro ecoa paralisando tudo:
- Parem tudo! Sinto a presença de um “Finja” entre nós!!!
Um óóóó ecoou de praticamente todas as bocas
- Um Finja! - a maioria repetia estupefata
- O que acontecerá conosco agora?
- Ó céus, um Finja entre nós...

Até que alguém teve a coragem de dizer:
- Peraí, o que é um Finja, caraio?
Os dois mestres postaram-se no meio do círculo formado pelos lutadores:
- O “Finja” é um praticante do “Finjitsu”, a milenar arte marci-labial do fingimento, utilizada somente pelos maiores mestres. Precisam ser destros tanto no kaoísmo quanto nas artes do Agá para serem considerados um verdadeiro Finja... E é o único que pode derrotar os dois estilos sem fazer muita força.
O terror se apossou dos jovens corações de todos os alunos. Um vento forte, com um silvo amedrontador começou a percorrer, gelando espinhas e espíritos. De súbito, o mestre kaoísta começa uma cantinela solitário:
- Urueuauau, urueuauau, urueuauau...
As luzes se apagam e tudo cai em uma escuridão total, golpes secos são ouvidos no breu e o som de corpos sendo lançados de um lado para outro, violentamente. É tudo muito rápido. Em questão de minutos, as luzes voltam mostrando um quadro desolador: no meio de vários alunos caídos, o único que permanece de pé é Adalberto, o Pequeno Quati. Todos olham para ele com um misto de raiva e medo:
- Maldito Finja! Estava entre nós o tempo todo!
- Expulsem o indesejado... Mercenário, crápula!
- Peraí, eu nem...
- Basta – diz o mestre kaoísta, se levantando lentamente. Caminhou até a porta e ficou parado de costas, fitando o horizonte – O torneio não será realizado. Peço aos monges que se retirem agora, para que possamos tomar conta do pária.
Apesar dos protestos de Sodi Mahis e seus monges, ao simples olhar do Pequeno Quati, agora alçado ao posto de ameaça Finja, abaixaram as cabeças e saíram todos em um só bloco. Os kaoístas aprendizes os seguiram, não menos preocupados.

- Mestre, eu...
- Não precisa tentar se defender. Quando alguém é marcado como um Finja, nunca mais perde o estigma. Pode ser que você não seja o indivíduo, e tenho cá algo que me diz que você não é, mas não posso colocar o mosteiro em perigo. Arrume suas coisas. Sua permanência entre nós acabou.

Voltando ao presente, Adalberto, ex-Pequeno Quati, sabia agora o que teria que fazer. Qual a melhor defesa em caso de desconfiança? O ataque, lógico. Entraria enfurecido em casa, batendo portas e gritando, “cadê o salafrário” “eu mato!” “hoje eu como um cuzinho!” e coisas do gênero. A mulher ficaria tão assustada que nem se lembraria que ela é quem tava com a razão. E foi o que fez. Arrebentou a porta da frente, subiu as escadas gritando como um possesso. Segurava o riso quando arreganhou a porta do próprio quarto e viu a cena: Elise, sua esposa, em vestes de eva, de quatro sobre a cama, tendo atrás de si ninguém menos que Eoh Tao, seu antigo mestre no kaoísmo. Que nem enrubescido ficou, o sacana:
- Então, está usando a velha técnica da “defesa-atacante”, Pequeno Quati!
- Bom, eu... Peraí! Você tá comendo a minha mulher! Ah, mas eu te mato, fiodumaégua!
Adalberto voou no pescoço do outro quando começou a ouvir uma cantinela:
- Urueuauau, urueuauau, urueuauau... – O vento aumentou e as luzes se apagaram de repente...

*Quati: O quati ou coati (do tupi "nariz pontudo") é um mamífero da ordem Carnivora, família Procyonidae e género Nasua. O grupo está distribuído desde o Arizona ao norte da Argentina.A coloração, em geral, é cinzento-amarelada, porém muito variável, havendo indivíduos quase pretos e outros bastante avermelhados, focinho e pés pretos, cauda com 55 cm, com sete a oito anéis pretos. Mede de corpo 70 cm. Vive em bandos de oito a 10, é praticamente onívoro, e se adapta bem ao cativeiro. São animais diurnos e não aceitam muito bem a traição.
Kaoísmo: Fomar milenar e zen-bundista de aplicação do kaô. O verdadeiro kaoísta é o que consegue transformar a realidade com palavras (ou seja, leva todo mundo no gogó, que é um dos mais fortes golpes dessa arte marci-labial). Um mestre kaoísta nunca fica sem palavras, elas criam vida em sua boca e o ajudam a quebrar qualquer galho.