− Profissão?
− Escritor.
A mulher, ao lado, resolve agir. Até então não havia dito nada, enquanto ele respondia ao check-in do hotelzinho de beira de estrada:
− Como assim, “escritor”?
− Ué, escritor, aquele que escreve.
− E de onde você tira que é escritor, imprestável?
− Bom, eu escrevo, daí sou escritor.
− Não, eu tô dizendo de quem escreve para valer!
− Mas eu “escrevo para valer”. Já até publiquei livro, fiz lançamento...
− Mas isso vale para quem vive disso, seu burro! Quem ganha dinheiro.
− Filha, a grana para esta viagem tu acha que saiu de onde? Do coelhinho da páscoa?
Sem graça com o desenrolar cotidiano, caseiro, conjugal e caótico à sua frente, o atendente arrisca:
− Desculpe senhor, é que...
− E você, cale-se! – a mulher lançou-lhe o famoso olhar de caninana preparando o bote. Retomou a carga dando as costas para o pobre − Estou falando de dinheiro de verdade, para comprar casa, bancar feira do mês, pagar energia, telefone, mandar os filhos estudarem na Suíça, tirar carro do ano, férias na Europa...
− Uai, mas nós estamos de férias!
− Eu tô falando de férias na Europa, não em Cachimbó do Aterro, energúmeno! Além do que, você “vive de férias” com esse “negócio de livro”...
− Querida, veja bem...
− Veja bem é o escambáu! Não me venha com essa retórica de “comunidade de escritor”! − Apertava-o devagarinho, tal sucuri faminta a bezerro gordo. Suspirou, olhou ao céu, agradeceu a providência divina pela paciência. Se a substituísse pela força, já era.
− Amor da minha vida, não se constrói uma carreira literária do dia para noite. Tudo tem um caminho a ser seguido, entende?
− Eu entendo é que esse parangolé aí não dá camisa.
− Benzinho, tudo tem seu tempo.
− Seu tempo nada! Tinha mais é que arranjar um trabalho de verdade, um emprego de salário-mês e aí sim, usar do tempo livre para fazer essas coisinhas.
− Bom, aí seria um hobby, não uma profissão.
− E quem disse que isso é profissão? Ta maluco? Profissão de verdade é aquela com diploma, certificado. È médico, engenheiro, advogado.
− Meu bem, é um tipo diferente de profissional, mas é uma ocupação válida sim. Não sai das faculdades em “produção de linha” como os outros, mas um escritor, basicamente, se cria. Tem que ler muito, decifrar os códigos, estruturar um estilo, se apoderar das letras e construir mundos. Enquanto se formam milhares de advogados e médicos por ano, dentro dos parâmetros estipulados, um escritor tem que ser lapidado, exercitado, tarimbado, entende? É sim, uma profissão, sendo que até é reconhecida pelo Ministério do Trabalho. Número 2615 do Código Brasileiro de Ocupação (do 05 ao 30): Autor-roteirista, crítico, escritor de ficção, escritor de não ficção, poeta, redator de textos técnicos...
− Isso é desculpa de quem não quer trabalhar. Vai me dizer que você faz isso tudo aí.
− Não, querida. Sou um escritor de ficção, que pode ser contista, cronista de ficção, dramaturgo, ensaísta de ficção, escritor de cordel, de folhetim, estórias em quadrinho, novela de rádio, de televisão, obras educativas de ficção, fabulista, folclorista de ficção, novelista (escritor), prosador, romancista... Bom, isso é quando eu to sóbrio, porque quando tomo umas, cometo uns poemas, prá lá de etílicos.
− To sabendo, isso é desculpa sua para não fazer nada e ainda encher a cara.
− Fazer o quê, se o “desregramento dos sentidos é a melhor via para o desconhecido”, como diria Rimbaud, o doce maldito...
− Quem é esse tal de Rambo? É outro desses imprestáveis que andam contigo nos botecos? Deve ser né, porque até você xinga o cara de “maldito”!
− Bom, é que... De certo modo... Ah, deixa prá lá.
− Ta vendo? Falo sempre que esse negócio de escritor é fachada para ficar de pernas por ar!
− Mas querida, se eu não investir na carreira, dedicar meu tempo, como posso fazer algo que valha à pena? Como posso ser sincero com minhas escritas se não as levo a sério? Se não aplico meus esforços para estruturar minha obra, fazer pesquisas, estudar outras vertentes da escrita, aprimorar minha técnica, enfim, fazer algo que seja ao mesmo tempo instrutivo, literário, divertido, questionador... Em um país como o nosso, que tudo o que se faz pela cultura ainda é pouco, nós, os artistas, temos que ter o triplo de esforços que os outros segmentos. Temos que nos lançar de cabeça, dar a cara à tapa, sofrer privações, escutar provocações, para tentar alcançar um lugarzinho ao sol que seja...
O atendente, não percebendo o momento do discurso, ainda arrisca:
− Senhor, eu preciso que...
− Calma aí, já chego em você. Onde estariam os grandes nomes da música brasileira se, ao primeiro sinal de contratempo tivessem jogado tudo para o ar e desistido? Se o Joaquim Maria não desse voz ao Machado de Assis? Se o Antônio Renato, advogado, não tivesse dado vida ao Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbbo, deixasse o Ceará e ganhasse o mundo? Que fim teria o Angenor não se transvertesse em Cartola? O que seria de Pelé se tivesse desistido da bola?
− Isso não é para você. Não tem o talento necessário – Jurou ter visto a peçonha dela escorrendo no canto da boca. E um guizo simbilando no ar, cortando os ouvidos, lenta e mecanicamente, um momento hitchcockiano de tensão tomando corpo. Ainda tentou devolver um sorriso.
− Talvez você esteja certa. Mas eu tenho ao menos que tentar. Fazer algo de belo, ao invés de só correr atrás do vil metal. Criar, produzir, interagir.
− Isso não dá camisa. E nunca vai mudar.
− “A gente muda o mundo na mudança da mente. E quando a mente muda, a gente anda pra frente, e quando a gente manda ninguém manda na gente.”
− Neste mundo há um mar de pessoas e você é somente uma gota no oceano.
− Pode até ser, mas sou a gota revoltada...
− Você já teve uma ocupação de gente na vida, não?
− Claro...
− Quer saber, por mim pode ir à merda com essa palhaçada de escritor, artista, o que for! Eu é que não vou ficar presa a um sem futuro como você − rodopiou nos calcanhares e serpenteava porta afora quando estacou de repente, decidida a dar um fim tanto no assunto quanto no relacionamento − Se fosse tão esperto quanto parece, deixava esse negócio de lado e voltava a fazer o que fazia antes. Afinal, o que você fazia antes, seu porcaria?
O homem, honrando as calças e as palavras, abaixou-se incontinenti, abriu a mala, sacou algo de lá, apontou para a cara da cara metade e disparou. O verbo e a bala, duas vezes. Ficou olhando para a ficha, enquanto o recepcionista marmóreo do outro lado do balcão pedia aos céus que o chão se abrisse e o levasse para longe dali. O homem tomou da caneta e reformou a ocupação.
− Profissão, matador de aluguel – virou-se para o rapaz, explicativo − Pronto, agora eu quero ver alguém reclama, né? Eu mato a cobra e mostro o 38...
19 junho 2010
08 maio 2010
O Desafio do Galopeiro bêbado da beira do rio cantador
O espécie humana encontrou nas artes um dos catalisadores para exportar suas emoções e fazer florescer algo de tocante e sincero. O nome “Arte” vem do latim Ars, que significa técnica ou habilidade. Pela própria definição do nome percebe-se que não é tão simples quanto parece ser.
Era nisso que pensava eu, vivendo a tarde modorrenta e naquela seca de dar nó em pingo de pinga. Pensei em fazer algo de útil, tipo ajudar a ajeitar as coisas no mundo ou então lutar em prol de algo nobre e valioso. Algo que inspirasse as próximas gerações e fizesse com que a vida neste planeta tivesse verdadeiro sentido, levasse o nome do homem até a vigésima potência estelar ou marcasse a passagem humana na Terra de alguma forma. Mas essa vontade passou rápido e, como de costume, decidi ir para o Bar. “Uma cerveja antes do almoço é muito bom, prá ficar pensando melhor”, mas uma, três ou vinte depois do jantar é melhor ainda. A matemática nunca é uma ciência exata quando se trata de biritar.
Adentrei o BDE de forma irresponsavelmente incauta (é sempre bom estar com as orelhas em pé, vai que ta rolando um barraco ou outro?), quando dei de cara com um enorme ringue, daquele tipo mezzo Caesar´s Palace, mezzo Academia do Maguila. Reconheci alguns dos presentes, mas havia alguns rostos que, apesar de perceber ser a primeira vez que os via ali, tinham um quê estranho de conhecidos de muito tempo.
− Eita ferro. Será que a pancadaria agora vai ser institucionalizada?
− É o “Desafio do Galopeiro bêbado da beira do rio cantador” – Um zumbi de dois metros e meio (talvez três, medir os outros depois de tomar umas e outras não é um dos meus fortes), explicava o que acontecia.
− Mas, o que é isso?
− Bom, desafio porque alguém ta desafiando alguém. Óbvio. Galopeiro porque vai ter que galopar em alguma coisa, nem que seja na mesa. Bêbado porque tem que ir bebendo algo. A beira do rio cantador é que não sei bem para o que serve... Mas deixa o nome mais chique, não?
− É, pode ser.
Ajudou-me a levantar e nem bem estava pronto, me empurrou ringue adentro:
− Vai lá, a coisa é bem simples.
− Mas, mas o que eu faço?
− Sabe decassílabo, sáfico, gaita galega?
− Bom, conheço a Ritinha, que é uma galega das coxas grossas que...
− Então cala a boca e vai de prosa mesmo.
Olhei para o outro corner, o cara fazia uma cara estranha, com um protetor de mandíbula preto, daquele do Ivan Drago no Rocky IV, puro pesadelo, enquanto rosnava umas redondilhas com extrema maestria. Lembrei do que disse o Scliar: “Nunca cometi um poema na vida”. Merda... Eu já cometi alguns. Mas nada assim, metrificado, com swing e pendulo. Como enfrentar esses pesos pesados do verso? Tentei pensar em um dos grandes versadores da língua pátria, tipo faixa preta 50º Dan. Só saiu um e era gringo. Fernando Pessoa: “Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado / Para fora da possibilidade do soco”. Poema em linha reta, diretamente no nariz. Isso vai doer e não vai ser pouco...
Havia outro cabeludo no ringue, de costas. Uma espiada e vi a fuça do fulano. Olha lá, se não era o velho Dickinson:
− E aí, Bruce, que ta fazendo aqui?
− Tomando chá das cinco, palerma. Não vê que sou o juiz dessa porra?
− Mas peraí. Essa parada não é uma disputa poética?
− Sou músico. Poesia e música tem tudo a ver, “bloody bastard”!
O português do gringo me deixou sem palavras. O gongo soou e o aedo do outro lado lançou-se intempestivamente ao ataque.
Versei de leve, tomei um jab. Arrisquei começar um proseado, veio de lá um potente cruzado. Se pega, já era. Pensei em voltar pro rancho, pra não levar um gancho, mas ainda não tinha tomado nem dois goles. Nem três golpes...
Comecei a ganhar tempo, tentando salvar o que sabia de poesia da época da faculdade. Mas o catzo da coisa é que enquanto tava rolando as aulas de escansão e cositas más, aproveitei o tempo no Bar da Tia, praticando Sinuca I e II, além de halterocopismo e arremesso de guimba. É, eu to frito, pensei. Mas me ocorreu uma parada: os primeiros poetas recitavam os feitos de deuses e heróis. Daí que eram estórias contadas de maneira versada, mas estórias, mesmo assim. Isso quer dizer que tinha um quê de prosa. Melhor dar um jeito de enrolar e deixar o relógio para rodar. Começava a fazer o jogo de pernas quando alguém do meu corner gritou:
− Cuidado com o hexâmetro espondaico e o quinto pé espondeu!
Dei uma olhada de soslaio e vi que tinha uns caras tentando me dar umas dicas, cada um com um jeito mais diferente que o outro. Bailei para cá e para lá, escapei de vários tercetos, evitei uns quartetos e por fim o barulho metálico me colocou à salvo do primeiro round. Nem bem assentei e me vi cercado por três caras. O primeiro, mais atirado, foi logo falando, enquanto me passava a toalha:
− “Usted tiene” que tentar acertá-lo. É “su” única chance.
− Aí, tua fuça não me é estranha...
− García Lorca, à “su dispor”. Os outros “son” monsieur Mallarmé e mister T.S. Elliot. − Três bambas, primeira categoria, pensei.
− Mas a parada é que eu não sei versar desse jeito.
− “What a fuck”?
− Traduz, doutor.
− “Oura”, “Aprendemos o que é poesia lendo poesia”!
− Tá, eu concordo, mas é que...
O “boing” fez com que fosse lançado de novo no centro do ringue. E dá-lhe correr de martelos heróicos e da métrica clássica. Esquivar e esquivar, eis a única saída. O tempo, ainda bem, parecia passar bem rápido. Mas quando a luva passa rente ao nariz, tudo tem um aspecto meio câmera lenta. Voei para o corner de novo.
− O que você está fazendo?
− Sobrevivendo, chefia.
− “But this is” um absurdo!
− É que sou alérgico à pancada, doutor.
Outro “boing” e olha eu de volta. Em várias voltas, devo admitir. Não parei um só momento. Aliás, até que parei, quando o vocalista do Iron, quer dizer, o juiz, me deu um puxão de orelha:
− “Yeahhh”, falta combatividade. Menos um ponto.
− Melhor um ponto a menos no placar que dois a mais na cara.
− What?
− Deixa prá lá...
Havia sobrevivido até o oitavo round. Como tudo acabaria no décimo, já estava quase lá.
− Porque você “non” acerta ele?
− Falta de molejo poético, saca?
− Veja, “enfant”. Muita gente já tentou definir poesia. Acredito que “ a poesia se faz com palavras, e não com idéias”.
− “Todas as coisas tem o seu mistério, e a poesia é o mistério que todas as coisas tem”. − Lorca estava extremamente exaltado. Por fim Mallarmé retornou, ofídico:
− Acabe com “la resistance” de seu “adversarie” acertando umas tônicas bem no “fígadô” dele – protestei no ato:
− Queisso rapaz. Sei que é uma luta, mas é na brinca. Sou contra esse negócio de acertar a zona hepática. Como bom biritum, sei o quanto isso dói.
− “Oui”, você é quem sabe, “non”? Mas lembre-se daquele ditado sobre valer tudo no amor e na “guerre”.
Aquilo me deixou bem bolado. Até agora estava no lucro, a sorte do meu lado e os reflexos apurados. Mas as goladas de cerveja que tomava à cada intervalo estavam começando a surtir efeito: meus reflexos com certeza não agüentaria muito mais. Eu seria atingido, uma hora ou outra. Era questão de tempo. Foi o tempo do gongo soar de novo. Parti para o ataque, desta vez. Comecei soltando uma lorotinha básica e emendei um direto:
−Aê, já ouviu falar do “verso catatônico”?
−Cuma?!
O verbo entrou direitinho, passou pela porta e a fresta, entrou como quem acaba com festa, entre a beirada da sobrancelha e o meio da testa. Foi pá e bola. “Ta lá um corpo estendido no chão...” Ia virar só comemoração quando o juiz (sempre ele), gritou:
− Golpe baixo! Utilizou-se de um verso heterométrico! Metrificou, mas com grande variação!
Perdi mais um ponto e nem me importei. O importante é que não tinha levado na fuça. Deram um tempo para o outro se ajeitar, fiquei ali, na expectativa, entre o calor da glória e a frieza da vida.
O gongo soou mais uma vez e lá fomos, os dois, arremessados um contra o outro, a cento e sessenta e quatro sílabas por hora. Choque frontal, colisão de carrilhões, tragédia de trem-bala: o impacto foi sentido à mesas de distância. Vôo solene, aterrissagem forçada.
Mas o que ninguém esperava, aconteceu. Knockout Duplo: quando dois pugilistas golpeiam-se simultaneamente. Contagem aberta para ambos os lados, quem se levantasse seria considerado vencedor. A cabeça ainda balançava muito, mas eu comecei a reerguer-me. Do lado adversário veio o sussurro:
− Se ficar no chão, pago a cervejada no botequim.
− Ok, mas com uma porção de salaminho também?
− Meia porção. Mas pode pedir uma dose de pinga.
− Duas doses. E com limão!
− Negócio fechado.
Estiquei-me lá e fiquei vendo o juiz apontar o fim da contagem, a luta foi considerada nula. Aproveitei para pegar a mesa de sempre, no canto do boteco, ao lado do balcão, meio na penumbra. Os três do corner vieram beber comigo, assim como o adversário ferido. Mas o organizador da parada, o zumbi de dois metros e meio, passou jurando:
− Isso não vai ficar assim. Te pego lá fora... − afastou solene, com domínio dos pés, direito e esquerdo.
− “Usted non tienes” medo?
− Agora não – apontei para a prateleira de bebidas – Enquanto aquilo estiver estocado, não pretendo sair tão cedo.
− E quando acabar tudo?
Puxei minha Remington 12 para o lado e disparei:
− Aí eu dou um jeito...
Era nisso que pensava eu, vivendo a tarde modorrenta e naquela seca de dar nó em pingo de pinga. Pensei em fazer algo de útil, tipo ajudar a ajeitar as coisas no mundo ou então lutar em prol de algo nobre e valioso. Algo que inspirasse as próximas gerações e fizesse com que a vida neste planeta tivesse verdadeiro sentido, levasse o nome do homem até a vigésima potência estelar ou marcasse a passagem humana na Terra de alguma forma. Mas essa vontade passou rápido e, como de costume, decidi ir para o Bar. “Uma cerveja antes do almoço é muito bom, prá ficar pensando melhor”, mas uma, três ou vinte depois do jantar é melhor ainda. A matemática nunca é uma ciência exata quando se trata de biritar.
Adentrei o BDE de forma irresponsavelmente incauta (é sempre bom estar com as orelhas em pé, vai que ta rolando um barraco ou outro?), quando dei de cara com um enorme ringue, daquele tipo mezzo Caesar´s Palace, mezzo Academia do Maguila. Reconheci alguns dos presentes, mas havia alguns rostos que, apesar de perceber ser a primeira vez que os via ali, tinham um quê estranho de conhecidos de muito tempo.
− Eita ferro. Será que a pancadaria agora vai ser institucionalizada?
− É o “Desafio do Galopeiro bêbado da beira do rio cantador” – Um zumbi de dois metros e meio (talvez três, medir os outros depois de tomar umas e outras não é um dos meus fortes), explicava o que acontecia.
− Mas, o que é isso?
− Bom, desafio porque alguém ta desafiando alguém. Óbvio. Galopeiro porque vai ter que galopar em alguma coisa, nem que seja na mesa. Bêbado porque tem que ir bebendo algo. A beira do rio cantador é que não sei bem para o que serve... Mas deixa o nome mais chique, não?
− É, pode ser.
Ajudou-me a levantar e nem bem estava pronto, me empurrou ringue adentro:
− Vai lá, a coisa é bem simples.
− Mas, mas o que eu faço?
− Sabe decassílabo, sáfico, gaita galega?
− Bom, conheço a Ritinha, que é uma galega das coxas grossas que...
− Então cala a boca e vai de prosa mesmo.
Olhei para o outro corner, o cara fazia uma cara estranha, com um protetor de mandíbula preto, daquele do Ivan Drago no Rocky IV, puro pesadelo, enquanto rosnava umas redondilhas com extrema maestria. Lembrei do que disse o Scliar: “Nunca cometi um poema na vida”. Merda... Eu já cometi alguns. Mas nada assim, metrificado, com swing e pendulo. Como enfrentar esses pesos pesados do verso? Tentei pensar em um dos grandes versadores da língua pátria, tipo faixa preta 50º Dan. Só saiu um e era gringo. Fernando Pessoa: “Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado / Para fora da possibilidade do soco”. Poema em linha reta, diretamente no nariz. Isso vai doer e não vai ser pouco...
Havia outro cabeludo no ringue, de costas. Uma espiada e vi a fuça do fulano. Olha lá, se não era o velho Dickinson:
− E aí, Bruce, que ta fazendo aqui?
− Tomando chá das cinco, palerma. Não vê que sou o juiz dessa porra?
− Mas peraí. Essa parada não é uma disputa poética?
− Sou músico. Poesia e música tem tudo a ver, “bloody bastard”!
O português do gringo me deixou sem palavras. O gongo soou e o aedo do outro lado lançou-se intempestivamente ao ataque.
Versei de leve, tomei um jab. Arrisquei começar um proseado, veio de lá um potente cruzado. Se pega, já era. Pensei em voltar pro rancho, pra não levar um gancho, mas ainda não tinha tomado nem dois goles. Nem três golpes...
Comecei a ganhar tempo, tentando salvar o que sabia de poesia da época da faculdade. Mas o catzo da coisa é que enquanto tava rolando as aulas de escansão e cositas más, aproveitei o tempo no Bar da Tia, praticando Sinuca I e II, além de halterocopismo e arremesso de guimba. É, eu to frito, pensei. Mas me ocorreu uma parada: os primeiros poetas recitavam os feitos de deuses e heróis. Daí que eram estórias contadas de maneira versada, mas estórias, mesmo assim. Isso quer dizer que tinha um quê de prosa. Melhor dar um jeito de enrolar e deixar o relógio para rodar. Começava a fazer o jogo de pernas quando alguém do meu corner gritou:
− Cuidado com o hexâmetro espondaico e o quinto pé espondeu!
Dei uma olhada de soslaio e vi que tinha uns caras tentando me dar umas dicas, cada um com um jeito mais diferente que o outro. Bailei para cá e para lá, escapei de vários tercetos, evitei uns quartetos e por fim o barulho metálico me colocou à salvo do primeiro round. Nem bem assentei e me vi cercado por três caras. O primeiro, mais atirado, foi logo falando, enquanto me passava a toalha:
− “Usted tiene” que tentar acertá-lo. É “su” única chance.
− Aí, tua fuça não me é estranha...
− García Lorca, à “su dispor”. Os outros “son” monsieur Mallarmé e mister T.S. Elliot. − Três bambas, primeira categoria, pensei.
− Mas a parada é que eu não sei versar desse jeito.
− “What a fuck”?
− Traduz, doutor.
− “Oura”, “Aprendemos o que é poesia lendo poesia”!
− Tá, eu concordo, mas é que...
O “boing” fez com que fosse lançado de novo no centro do ringue. E dá-lhe correr de martelos heróicos e da métrica clássica. Esquivar e esquivar, eis a única saída. O tempo, ainda bem, parecia passar bem rápido. Mas quando a luva passa rente ao nariz, tudo tem um aspecto meio câmera lenta. Voei para o corner de novo.
− O que você está fazendo?
− Sobrevivendo, chefia.
− “But this is” um absurdo!
− É que sou alérgico à pancada, doutor.
Outro “boing” e olha eu de volta. Em várias voltas, devo admitir. Não parei um só momento. Aliás, até que parei, quando o vocalista do Iron, quer dizer, o juiz, me deu um puxão de orelha:
− “Yeahhh”, falta combatividade. Menos um ponto.
− Melhor um ponto a menos no placar que dois a mais na cara.
− What?
− Deixa prá lá...
Havia sobrevivido até o oitavo round. Como tudo acabaria no décimo, já estava quase lá.
− Porque você “non” acerta ele?
− Falta de molejo poético, saca?
− Veja, “enfant”. Muita gente já tentou definir poesia. Acredito que “ a poesia se faz com palavras, e não com idéias”.
− “Todas as coisas tem o seu mistério, e a poesia é o mistério que todas as coisas tem”. − Lorca estava extremamente exaltado. Por fim Mallarmé retornou, ofídico:
− Acabe com “la resistance” de seu “adversarie” acertando umas tônicas bem no “fígadô” dele – protestei no ato:
− Queisso rapaz. Sei que é uma luta, mas é na brinca. Sou contra esse negócio de acertar a zona hepática. Como bom biritum, sei o quanto isso dói.
− “Oui”, você é quem sabe, “non”? Mas lembre-se daquele ditado sobre valer tudo no amor e na “guerre”.
Aquilo me deixou bem bolado. Até agora estava no lucro, a sorte do meu lado e os reflexos apurados. Mas as goladas de cerveja que tomava à cada intervalo estavam começando a surtir efeito: meus reflexos com certeza não agüentaria muito mais. Eu seria atingido, uma hora ou outra. Era questão de tempo. Foi o tempo do gongo soar de novo. Parti para o ataque, desta vez. Comecei soltando uma lorotinha básica e emendei um direto:
−Aê, já ouviu falar do “verso catatônico”?
−Cuma?!
O verbo entrou direitinho, passou pela porta e a fresta, entrou como quem acaba com festa, entre a beirada da sobrancelha e o meio da testa. Foi pá e bola. “Ta lá um corpo estendido no chão...” Ia virar só comemoração quando o juiz (sempre ele), gritou:
− Golpe baixo! Utilizou-se de um verso heterométrico! Metrificou, mas com grande variação!
Perdi mais um ponto e nem me importei. O importante é que não tinha levado na fuça. Deram um tempo para o outro se ajeitar, fiquei ali, na expectativa, entre o calor da glória e a frieza da vida.
O gongo soou mais uma vez e lá fomos, os dois, arremessados um contra o outro, a cento e sessenta e quatro sílabas por hora. Choque frontal, colisão de carrilhões, tragédia de trem-bala: o impacto foi sentido à mesas de distância. Vôo solene, aterrissagem forçada.
Mas o que ninguém esperava, aconteceu. Knockout Duplo: quando dois pugilistas golpeiam-se simultaneamente. Contagem aberta para ambos os lados, quem se levantasse seria considerado vencedor. A cabeça ainda balançava muito, mas eu comecei a reerguer-me. Do lado adversário veio o sussurro:
− Se ficar no chão, pago a cervejada no botequim.
− Ok, mas com uma porção de salaminho também?
− Meia porção. Mas pode pedir uma dose de pinga.
− Duas doses. E com limão!
− Negócio fechado.
Estiquei-me lá e fiquei vendo o juiz apontar o fim da contagem, a luta foi considerada nula. Aproveitei para pegar a mesa de sempre, no canto do boteco, ao lado do balcão, meio na penumbra. Os três do corner vieram beber comigo, assim como o adversário ferido. Mas o organizador da parada, o zumbi de dois metros e meio, passou jurando:
− Isso não vai ficar assim. Te pego lá fora... − afastou solene, com domínio dos pés, direito e esquerdo.
− “Usted non tienes” medo?
− Agora não – apontei para a prateleira de bebidas – Enquanto aquilo estiver estocado, não pretendo sair tão cedo.
− E quando acabar tudo?
Puxei minha Remington 12 para o lado e disparei:
− Aí eu dou um jeito...
10 abril 2010
Salve Geral
Greve Geral
Planeta: Terra. Cidade: Goiânia. Como em todas as metrópoles deste planeta, Goiânia se acha hoje em desvantagem em sua luta contra um dos maiores inimigos do homem: o pentelho. E, apesar dos esforços das autoridades de todo o mundo, pode chegar um dia em que a terra, o ar e as águas estejam infestadas das mais diversas formas de pentelhos: os panfletários de diversas siglas, os reclamantes do meio ambiente,os entregadores de panfletos, movimentos de diversas formas e modelos ou os chatos que são chatos só pelo prazer que isso lhes causa. Com ou sem uma causa válida. Quem poderá intervir? Spectreman?(1)
Segunda feira, passava da uma da tarde e eu sentado no boteco ao lado do Centro Administrativo. Até aí nada de anormal: tava rebatendo uma ressaca monstra. Ficava ali vendo o rodízio de passeatas reclamando de uma ou outra coisa: primeiro havia vindo os atendentes de cartório, depois os bancários e logo em seguida uma grande passeata de professores da rede estadual; estão sempre entre os mais pendurados. Entre uma greve e outra, aparecia um movimento disto ou daquilo: sem-terra, sem-moradia, sem camisa, sem calça, sem vergonha, sem isso, sem aquilo. Eu devia estar com uma cara pra lá de gozada, pois volta e meia alguém mandava uma frase de ordem para o meu lado:
− Você aí parado, também é explorado!
Errado. Eu aqui parado, tô ficando é chapado, pensei.
− O povo, unido, jamais será vencido!
Ta, diga isso para as grandes corporações e os grupos bancários... − Caminhando e cantando e seguindo a canção...
Sempre tem um mané para tirar a porra dessa música. Será que não cansam?
Foi então que reconheci uma voz no meio da multidão:
− Juliano Werneck, ainda entregue aos prazeres da Baco?
− Poisé, Professor Birowski. Não dizem que a vida é feita de momentos? Os meus são quase todos aqui, no meio das garrafas.
− Junte-se a nós e exerça seu direito de cidadão, proteste!
− Vão abaixar o preço da breja?
− Não que eu saiba; a coisa aqui é mais pela política.
− Entonces, tô fora.
− “O pior de todos os analfabetos é o analfabeto político”.
Ai, meu saco: Brecht(2) debaixo de uma lua dessas é de estourar as bolas...
− E a pior de todas as sedes é a etílica, professor. Deixa a reclamança de lado e vambora chapar o côco!
− Você, como um representante da classe literária tinha que se engajar mais, defender alguma causa, algum movimento.
− Sou do Movimento dos Sem Movimento. Qualquer lugar para encostar e tomar uma é meu reino; toda mesa de bar é meu campo e o balcão é o melhor exemplo da socialização da humanidade: ali estão lado a lado a direita e a esquerda, o rico e o pobre, o empregado e o patrão e por aí vai...
Fechei os olhos por um instante, a tarde estava estupidamente brilhante naquele momento. Clima perfeito para uma pestana, pensei.
Foi o bastante para um grupo de uns quinze ou vinte manifestantes abordarem o botequim:
− Nós somos do Movimento dos Sem Cerveja. Vamos desapropriar toda essa bebida pequeno-burguesa!
Meu apitinho cívico tocou na hora: na gelada ninguém bota a mão! Nada contra dividir o pão, mas daí para bicar da minha garrafa, há uma enorme distância.
− E quem disse que a cerveja é uma bebida de elite? – protestei, mas intimamente meio que concordando com os caras: com o preço que a loirinha ta, mais fácil e barato tomar pinga ou catuaba, as campeãs das biroscas de subúrbio. Mas tinha que defender meu suco de cevada. Aprontei o gogó e comecei a aula de história:
− Tipo uns 10 mil anos, conforme os cervejeiros mais antigos e ainda não afetados pela cirrose, os homens descobriram, meio na cagada, meio na preguiça, que aquela parada de deixar um monte de cereais jogados em um lugar qualquer acabava fermentando e virando uma pasta que dava para fazer uma espécie esquisita de bolo. Vai daí que uns caras de um lugar das antigas chamado Mesopotâmia, inventaram de tomar uns goles da garapa que sobrava desses bolos, estando assim entre os primeiros birituns da história. A parada deu uma luz e os fulanos ficaram com aquela cara de alegres, gente boa, achando tudo uma maravilha. Pronto, tava inventada a cerva, mesmo bem diferente da que a gente toma hoje... - Neste momento, o lugar foi cercado pela tropa de choque, doidinha para valer a lei do cassetete e descer a borracha no lombo dos mais inflamados. Levantei meu caneco com a autoridade que me era cabida, de cachaceiro mais respeitado do boteco e pedi para eles aguardarem o final de meu pronunciamento. E voltei à carga:
− Daí, uns tempos depois (não me pergunte quanto, nem os caras deviam saber: estavam todos chapados), os egípcios chegaram quebrando tudo na rave mesopotâmica e acabaram levando com eles o segredo mágico da fabricação da birita. Depois de muito porre nas pirâmides, a coisa estendeu-se até os romanos darem as caras (e as espadas). Como eles tinham um pezinho em cada canto, acabaram levando o néctar para todos os lados, seja a Britânia (para posterior alegria dos futuros ingleses), Gália (França) e outras paragens. Dizem inclusive, que César, o cara mesmo, era chegado numa caneca da fermentada (na época ainda não deviam cognominá-la de “loira” ou “gelada”). O nome cerveja acabou sendo uma homenagem à deusa Ceres, o que demonstra que os homens quando bebem sempre estão com uma mulher na cabeça...
Quando baixaram as trevas da Idade Média, a fabricação da bebida acabou parando nos conventos, onde os monges, com tempo de sobra para fazer experimentos mil, vide Mendel e suas ervilhas (3), acabaram criando outros tipos da bebida com diferentes técnicas de fabricação. O que veio bem a calhar, pois com o crescimento dos conjuntos habitacionais, o povo precisava de uma atividade para extravasar os estressantes labores medievais, como o jugo e a servidão. Então, dá-lhes cerveja que a galera se acalma. Outra coisa bacana que esses caras fizeram, por terem o quase monopólio da escrita, foi deixar anotadas as técnicas de fabrico.
Daí surgiram os mestres cervejeiros, que antes eram aprendizes na arte de fabricar a bebida com próprios monges. Aderindo a moda dos artesãos dos burgos, começaram a produzir cerveja em estabelecimentos próprios, as tavernas. Tais lugares logo, logo acabaram virando points onde se discutia de tudo, menos religião e futebol: o primeiro porque podia acabar te levando para a fogueira, o segundo por não existir mesmo. Daí os caras falavam bastante, principalmente depois de umas e outras, de política. Isso fez com que as autoridades da época acabassem botando um olho nestes lugares. Foi quando surgiram os alcaguetes modernos, o popular dedo-duro.
Durante a Idade Moderna, quem vocês acham que estava em todas as mesas importantes da Revolução Francesa? Nota zero para quem pensou em champanhe ou brioche: o que pegava bem mesmo, independente se era entre girondinos ou jacobinos, era estar com uma baita caneca na mão. Para molhar a palavra e aqueles discursos intermináveis da liberte, egalité, fraternité (4) . Não existe nada mais fraterno que dividir uma cerveja com um irmão.
Com os adventos científicos da revolução industrial, o ramo cervejeiro não ficou de fora, o que transformou a breja no que ela é hoje, uma bebida de fácil acesso, popular e com milhões de admiradores espalhados pelos quatro cantos do mundo, a conhecida e admirada “loira gelada”. Ideal para todos os tipos de eventos: casamentos, batizados, aniversários e festas afins; churrascos de fim de semana, reuniões com teor político ou não – Pude notar então que o discurso já havia acalmado os ânimos de ambas as partes.
− Daí vos pergunto, meus caros, o que tem a ver o meu goró com o blá-blá-blá de vocês? Há algum dentre vós, seja militante ou polícia, que não tome uma cervejinha?
Os manifestantes entreolharam meio sem, os policiais balançando as cabeças, concordando: havia atingido à todos em um ponto fraco, do lado direito do corpo, entre o baço e o pâncreas: bem no fígado.
A manifestação, que havia parado para ouvir minhas sábias e ébrias palavras, explodiu em palmas. Havia pessoas chorando comovidas e abraços entre diferentes lados políticos: esquerdistas e direitistas de mãos dadas com o pessoal do centro e todos degustando um gole de cerveja.
Os canas gostaram tanto daquilo que me colocaram na chefia deles. Questão de tempo, já tava comandando a cidade. Daí para o governo do estado foi um pulo; a presidência foi um passo natural, dadas as circunstâncias: um brado percorreu o país de norte a sul, de leste a oeste: Manguaceiros, uni-vos! Fui entronado como governante enquanto os estoques de cerveja se mantivessem graúdos. Chamei o pessoal da Embav, da Choça-Cola, Cachincariol, além de todas as outras marcas e modelos de cerveja e firmei um contrato com eles para fornecimento eterno do néctar da cevada para cada cidadão; aqueles que não bebessem podiam repassar sua cota para o sortudo, quero dizer, parente mais próximo. Deste jeito meu governo tornou-se vitalício logo de cara...
Fiz um churrasco e chamei os amigos que tinha e não tinha. No meio da coisa, um dos políticos que lá estavam resolveu reclamar que faltava sal na carne. Fiquei tão puto que mandei prender o safado. Onde já se viu, o mocorongo ir numa boca livre e ficar reclamando do que ta ganhando de mão beijada? Meti o safado na grade. E depois dele foram os seus correligionários. E logo após os adversários. Mas o pior é que eu peguei gosto pela coisa. O tal de mandar prender os outros... Na outra semana já tinha metido em cana quase um terço da população; uns por reclamarem, outros por escutarem as reclamações e outros ainda por torcerem para o time errado: qualquer motivo era motivo para mandar para o xilindró... Os xadrezes acabaram todos lotados. Agora, além de arranjar mais espaço para os que tinham que entrar, teria também que triplicar a produção de cerveja para conter a demanda. Resolvi tudo com uma decisão radical: el paredón, lógico. Mandei juntar logo uma centena de políticos conhecidos, que era para ir quebrando o gelo e não ter reclamação: e lá alguém ia achar ruim de passar o cerol em vagabundo? O comandante começou a contagem e olhou para meu lado:
− Preparar, apontar... Err... Senhor, eu poderia dar uma sugestão?
− É para maximizar a produção de presunto e a desova de safado?
− Sim Senhor!
− Então manda bala. Quer dizer, pode falar.
− É o seguinte; com a quantidade de político ruim que a gente tem, fica uma grana meter uma azeitona em cada um. Daí que o senhor faria a maior economia se usasse um método diferente. E poderia investir a grana economizada na produção de mais cerveja, o que acha?
O cara estava estupidamente certo. Então, diretamente do Louvre, mandei vir uma das guilhotinas remanescentes da Revolução Francesa. Agora os caras iriam ter a honra de colocar seus pescoços em lugares já frequentados por outros mais famosos, como Robespierre, Danton e Marat (5) ... Não, peraí: foi uma dona peituda, ou melhor, com muito peito que jogou o cara para trás. Mas isso é outra estória. Eu só não sabia onde ela ia se encaixar. Aliás, algo ficava me perturbando já tinha um tempo e não sabia exatamente o quê. A não ser que tudo não passasse de...
− Seu Juliano, Seu Juliano! − acordei com o Etelvino, o garçom, sacudindo meu ombro − Vai mais uma cerveja?
Olhei para os lados, tinha cochilado em pleno botequim. Porra, apagar em mesa de boteco é o fim da picada. Consultei o relógio e vi que estava em cima da hora para pegar o banco ainda aberto. Disfarcei com um leve bocejo e mandei ver o resto do copo numa golada só.
− Passa a régua.
− Vai participar da passeata?
Balancei a cabeça devagar em negativa:
− Mexer com esse negócio de política nada; acabei de descobrir que sou um ditador em potencial – ao ver a cara redonda e curiosa do atendente, emendei: − Mas nem sei se isso é tão ruim assim no fim das contas. Vive La Bierre (6) !
E sai gingando com aquele andado de John Wayne(7) bêbado do cerrado.
(1) Adaptado da chamada inicial do seriado japonês Spectreman.
(2) Bertold Brecht ( 1898 – 1956) – dramaturgo e poeta alemão.
(3) Gregor Mendel (1822 – 1884) – Monge agostiniano, botânico e metereologista, considerado o pai da genética por suas experiências com cruzamento de tipos de ervilhas e outras plantas.
(4) Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Foi o lema da Revolução Francesa e também é da maçonaria.
(5) Personagens históricos da Revolução Francesa.
(6) Viva a cerveja.
(7) Fala sério: cê não sabe quem foi o cowboy-ator-cara-durão-da-silva?
Planeta: Terra. Cidade: Goiânia. Como em todas as metrópoles deste planeta, Goiânia se acha hoje em desvantagem em sua luta contra um dos maiores inimigos do homem: o pentelho. E, apesar dos esforços das autoridades de todo o mundo, pode chegar um dia em que a terra, o ar e as águas estejam infestadas das mais diversas formas de pentelhos: os panfletários de diversas siglas, os reclamantes do meio ambiente,os entregadores de panfletos, movimentos de diversas formas e modelos ou os chatos que são chatos só pelo prazer que isso lhes causa. Com ou sem uma causa válida. Quem poderá intervir? Spectreman?(1)
Segunda feira, passava da uma da tarde e eu sentado no boteco ao lado do Centro Administrativo. Até aí nada de anormal: tava rebatendo uma ressaca monstra. Ficava ali vendo o rodízio de passeatas reclamando de uma ou outra coisa: primeiro havia vindo os atendentes de cartório, depois os bancários e logo em seguida uma grande passeata de professores da rede estadual; estão sempre entre os mais pendurados. Entre uma greve e outra, aparecia um movimento disto ou daquilo: sem-terra, sem-moradia, sem camisa, sem calça, sem vergonha, sem isso, sem aquilo. Eu devia estar com uma cara pra lá de gozada, pois volta e meia alguém mandava uma frase de ordem para o meu lado:
− Você aí parado, também é explorado!
Errado. Eu aqui parado, tô ficando é chapado, pensei.
− O povo, unido, jamais será vencido!
Ta, diga isso para as grandes corporações e os grupos bancários... − Caminhando e cantando e seguindo a canção...
Sempre tem um mané para tirar a porra dessa música. Será que não cansam?
Foi então que reconheci uma voz no meio da multidão:
− Juliano Werneck, ainda entregue aos prazeres da Baco?
− Poisé, Professor Birowski. Não dizem que a vida é feita de momentos? Os meus são quase todos aqui, no meio das garrafas.
− Junte-se a nós e exerça seu direito de cidadão, proteste!
− Vão abaixar o preço da breja?
− Não que eu saiba; a coisa aqui é mais pela política.
− Entonces, tô fora.
− “O pior de todos os analfabetos é o analfabeto político”.
Ai, meu saco: Brecht(2) debaixo de uma lua dessas é de estourar as bolas...
− E a pior de todas as sedes é a etílica, professor. Deixa a reclamança de lado e vambora chapar o côco!
− Você, como um representante da classe literária tinha que se engajar mais, defender alguma causa, algum movimento.
− Sou do Movimento dos Sem Movimento. Qualquer lugar para encostar e tomar uma é meu reino; toda mesa de bar é meu campo e o balcão é o melhor exemplo da socialização da humanidade: ali estão lado a lado a direita e a esquerda, o rico e o pobre, o empregado e o patrão e por aí vai...
Fechei os olhos por um instante, a tarde estava estupidamente brilhante naquele momento. Clima perfeito para uma pestana, pensei.
Foi o bastante para um grupo de uns quinze ou vinte manifestantes abordarem o botequim:
− Nós somos do Movimento dos Sem Cerveja. Vamos desapropriar toda essa bebida pequeno-burguesa!
Meu apitinho cívico tocou na hora: na gelada ninguém bota a mão! Nada contra dividir o pão, mas daí para bicar da minha garrafa, há uma enorme distância.
− E quem disse que a cerveja é uma bebida de elite? – protestei, mas intimamente meio que concordando com os caras: com o preço que a loirinha ta, mais fácil e barato tomar pinga ou catuaba, as campeãs das biroscas de subúrbio. Mas tinha que defender meu suco de cevada. Aprontei o gogó e comecei a aula de história:
− Tipo uns 10 mil anos, conforme os cervejeiros mais antigos e ainda não afetados pela cirrose, os homens descobriram, meio na cagada, meio na preguiça, que aquela parada de deixar um monte de cereais jogados em um lugar qualquer acabava fermentando e virando uma pasta que dava para fazer uma espécie esquisita de bolo. Vai daí que uns caras de um lugar das antigas chamado Mesopotâmia, inventaram de tomar uns goles da garapa que sobrava desses bolos, estando assim entre os primeiros birituns da história. A parada deu uma luz e os fulanos ficaram com aquela cara de alegres, gente boa, achando tudo uma maravilha. Pronto, tava inventada a cerva, mesmo bem diferente da que a gente toma hoje... - Neste momento, o lugar foi cercado pela tropa de choque, doidinha para valer a lei do cassetete e descer a borracha no lombo dos mais inflamados. Levantei meu caneco com a autoridade que me era cabida, de cachaceiro mais respeitado do boteco e pedi para eles aguardarem o final de meu pronunciamento. E voltei à carga:
− Daí, uns tempos depois (não me pergunte quanto, nem os caras deviam saber: estavam todos chapados), os egípcios chegaram quebrando tudo na rave mesopotâmica e acabaram levando com eles o segredo mágico da fabricação da birita. Depois de muito porre nas pirâmides, a coisa estendeu-se até os romanos darem as caras (e as espadas). Como eles tinham um pezinho em cada canto, acabaram levando o néctar para todos os lados, seja a Britânia (para posterior alegria dos futuros ingleses), Gália (França) e outras paragens. Dizem inclusive, que César, o cara mesmo, era chegado numa caneca da fermentada (na época ainda não deviam cognominá-la de “loira” ou “gelada”). O nome cerveja acabou sendo uma homenagem à deusa Ceres, o que demonstra que os homens quando bebem sempre estão com uma mulher na cabeça...
Quando baixaram as trevas da Idade Média, a fabricação da bebida acabou parando nos conventos, onde os monges, com tempo de sobra para fazer experimentos mil, vide Mendel e suas ervilhas (3), acabaram criando outros tipos da bebida com diferentes técnicas de fabricação. O que veio bem a calhar, pois com o crescimento dos conjuntos habitacionais, o povo precisava de uma atividade para extravasar os estressantes labores medievais, como o jugo e a servidão. Então, dá-lhes cerveja que a galera se acalma. Outra coisa bacana que esses caras fizeram, por terem o quase monopólio da escrita, foi deixar anotadas as técnicas de fabrico.
Daí surgiram os mestres cervejeiros, que antes eram aprendizes na arte de fabricar a bebida com próprios monges. Aderindo a moda dos artesãos dos burgos, começaram a produzir cerveja em estabelecimentos próprios, as tavernas. Tais lugares logo, logo acabaram virando points onde se discutia de tudo, menos religião e futebol: o primeiro porque podia acabar te levando para a fogueira, o segundo por não existir mesmo. Daí os caras falavam bastante, principalmente depois de umas e outras, de política. Isso fez com que as autoridades da época acabassem botando um olho nestes lugares. Foi quando surgiram os alcaguetes modernos, o popular dedo-duro.
Durante a Idade Moderna, quem vocês acham que estava em todas as mesas importantes da Revolução Francesa? Nota zero para quem pensou em champanhe ou brioche: o que pegava bem mesmo, independente se era entre girondinos ou jacobinos, era estar com uma baita caneca na mão. Para molhar a palavra e aqueles discursos intermináveis da liberte, egalité, fraternité (4) . Não existe nada mais fraterno que dividir uma cerveja com um irmão.
Com os adventos científicos da revolução industrial, o ramo cervejeiro não ficou de fora, o que transformou a breja no que ela é hoje, uma bebida de fácil acesso, popular e com milhões de admiradores espalhados pelos quatro cantos do mundo, a conhecida e admirada “loira gelada”. Ideal para todos os tipos de eventos: casamentos, batizados, aniversários e festas afins; churrascos de fim de semana, reuniões com teor político ou não – Pude notar então que o discurso já havia acalmado os ânimos de ambas as partes.
− Daí vos pergunto, meus caros, o que tem a ver o meu goró com o blá-blá-blá de vocês? Há algum dentre vós, seja militante ou polícia, que não tome uma cervejinha?
Os manifestantes entreolharam meio sem, os policiais balançando as cabeças, concordando: havia atingido à todos em um ponto fraco, do lado direito do corpo, entre o baço e o pâncreas: bem no fígado.
A manifestação, que havia parado para ouvir minhas sábias e ébrias palavras, explodiu em palmas. Havia pessoas chorando comovidas e abraços entre diferentes lados políticos: esquerdistas e direitistas de mãos dadas com o pessoal do centro e todos degustando um gole de cerveja.
Os canas gostaram tanto daquilo que me colocaram na chefia deles. Questão de tempo, já tava comandando a cidade. Daí para o governo do estado foi um pulo; a presidência foi um passo natural, dadas as circunstâncias: um brado percorreu o país de norte a sul, de leste a oeste: Manguaceiros, uni-vos! Fui entronado como governante enquanto os estoques de cerveja se mantivessem graúdos. Chamei o pessoal da Embav, da Choça-Cola, Cachincariol, além de todas as outras marcas e modelos de cerveja e firmei um contrato com eles para fornecimento eterno do néctar da cevada para cada cidadão; aqueles que não bebessem podiam repassar sua cota para o sortudo, quero dizer, parente mais próximo. Deste jeito meu governo tornou-se vitalício logo de cara...
Fiz um churrasco e chamei os amigos que tinha e não tinha. No meio da coisa, um dos políticos que lá estavam resolveu reclamar que faltava sal na carne. Fiquei tão puto que mandei prender o safado. Onde já se viu, o mocorongo ir numa boca livre e ficar reclamando do que ta ganhando de mão beijada? Meti o safado na grade. E depois dele foram os seus correligionários. E logo após os adversários. Mas o pior é que eu peguei gosto pela coisa. O tal de mandar prender os outros... Na outra semana já tinha metido em cana quase um terço da população; uns por reclamarem, outros por escutarem as reclamações e outros ainda por torcerem para o time errado: qualquer motivo era motivo para mandar para o xilindró... Os xadrezes acabaram todos lotados. Agora, além de arranjar mais espaço para os que tinham que entrar, teria também que triplicar a produção de cerveja para conter a demanda. Resolvi tudo com uma decisão radical: el paredón, lógico. Mandei juntar logo uma centena de políticos conhecidos, que era para ir quebrando o gelo e não ter reclamação: e lá alguém ia achar ruim de passar o cerol em vagabundo? O comandante começou a contagem e olhou para meu lado:
− Preparar, apontar... Err... Senhor, eu poderia dar uma sugestão?
− É para maximizar a produção de presunto e a desova de safado?
− Sim Senhor!
− Então manda bala. Quer dizer, pode falar.
− É o seguinte; com a quantidade de político ruim que a gente tem, fica uma grana meter uma azeitona em cada um. Daí que o senhor faria a maior economia se usasse um método diferente. E poderia investir a grana economizada na produção de mais cerveja, o que acha?
O cara estava estupidamente certo. Então, diretamente do Louvre, mandei vir uma das guilhotinas remanescentes da Revolução Francesa. Agora os caras iriam ter a honra de colocar seus pescoços em lugares já frequentados por outros mais famosos, como Robespierre, Danton e Marat (5) ... Não, peraí: foi uma dona peituda, ou melhor, com muito peito que jogou o cara para trás. Mas isso é outra estória. Eu só não sabia onde ela ia se encaixar. Aliás, algo ficava me perturbando já tinha um tempo e não sabia exatamente o quê. A não ser que tudo não passasse de...
− Seu Juliano, Seu Juliano! − acordei com o Etelvino, o garçom, sacudindo meu ombro − Vai mais uma cerveja?
Olhei para os lados, tinha cochilado em pleno botequim. Porra, apagar em mesa de boteco é o fim da picada. Consultei o relógio e vi que estava em cima da hora para pegar o banco ainda aberto. Disfarcei com um leve bocejo e mandei ver o resto do copo numa golada só.
− Passa a régua.
− Vai participar da passeata?
Balancei a cabeça devagar em negativa:
− Mexer com esse negócio de política nada; acabei de descobrir que sou um ditador em potencial – ao ver a cara redonda e curiosa do atendente, emendei: − Mas nem sei se isso é tão ruim assim no fim das contas. Vive La Bierre (6) !
E sai gingando com aquele andado de John Wayne(7) bêbado do cerrado.
(1) Adaptado da chamada inicial do seriado japonês Spectreman.
(2) Bertold Brecht ( 1898 – 1956) – dramaturgo e poeta alemão.
(3) Gregor Mendel (1822 – 1884) – Monge agostiniano, botânico e metereologista, considerado o pai da genética por suas experiências com cruzamento de tipos de ervilhas e outras plantas.
(4) Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Foi o lema da Revolução Francesa e também é da maçonaria.
(5) Personagens históricos da Revolução Francesa.
(6) Viva a cerveja.
(7) Fala sério: cê não sabe quem foi o cowboy-ator-cara-durão-da-silva?
11 março 2010
Lançamento do livro "Jantar às 11"
Poisé, eis aí a arte do lançamento, marcado para o dia 18 de março, coincidentemente, o dia em que também estarei lançando, com mais de 70 autores, pela Prefeitura de Goiânia, a coleção Verso e Prosa. Mas isso é uma outra estória, como também é outro livro. Corri tanto para fazer um lançamento que vai acabar de ter que fazer dois na mesma noite. Mas "c´est la vie" como dizem nos cafés...
A entrada é franca e tô convidado de norte a sul para o evento.
Tendo um tempinho, aparece por lá.
08 fevereiro 2010
O "Jantar" está servido...(Pré venda interativa)

Este é meu primeiro trabalho, primeiro a ser premiado e também publicado. São 17 contos espalhados em 112 páginas, gentilmente prefaciado pelo poeta e escritor Delermando Vieira, com comentários das escritoras Betty Vidigal (a Liz do BDE) e Augusta Faro, que foram de uma cortesia tamanha, que me faltam as palavras exatas para mensurar a gratidão que lhes devo.
A pré-venda será feita pela internet, pelo e-mail cmpneto@bol.com.br, onde responderei os pedidos do livro para qualquer canto do país (ou quiçá, fora dele). Quanto aos lançamenos físicos espero em breve estar promovendo e posteriormente noticiando os mesmos em diversas cidades, a começar pela minha querida e aconchegante Goiânia.
29 novembro 2009
Modelos de Capa para "Jantar às 11"
04 junho 2009
Gripe Literária
Acordar gripado é terrível. Com a garganta inflamada e torcicolo então, aí é pesadelo. A constipação da gripe afeta o cérebro e o pensar, a inflamação das cordas vocais te deixa afônico e sem condições de se expressar corretamente e o pescoço imóvel, apontado sempre na mesma direção ilustra muito bem aqueles que não movem o seu pensamento, que não veem outros horizontes e são habituados só com uma visão de mundo.
Junte à isso estar editorando um livro, fazendo uma monografia e estudando para provas finais. Punk, né? C´est la vie.
Aproveito que ainda é manhã madrugada e vou pagar contas na lotérica. A fila da manhã é melhor do que a da tarde e o danado do ar-condicionado não está ligado. Corria o risco de despertar a sinusite e aí é que a coisa teria tudo para desandar.
Cubro-me igual a um explorador antártico (São Shakleton, rogai por nós), com tudo a que tenho direito: blusas em dobro, gorro, um cachecol do tempo de criança, calças de moleton e pantufas. Não, melhor deixar esse negócio de pantufas só para dentro de casa. Vou de coturno. Por educação ao meu semelhante, caio na besteira de usar uma máscara clínica, daquelas de médico. Sou o último de uma fila de tamanho médio, recheada de velhinhos e aposentados. A senhora à minha frente fica me olhando meio de esgueira, meio assustada. Meu andar frankesteiniano e o tom apocalíptico dos telejornais podem ter alguma coisa com isso, deduzo. Tentando fazer uma brincadeira para animar o ambiente e diminuir seus receios, solto a máxima:
− Rigidez cadavérica post mortem.
O resto da fila se abre em bandas dignas do Mar Vermelho. Sem graça com a graça que não deu certo, pago minhas obrigações e ainda faço uma fezinha. Vai que hoje é o dia?
Retorno ao meu espaço virtual, obstinado. No caminho pela cozinha, faço todas as receitas de chá que a família recolheu nos últimos trezentos anos. Enquanto as chaleiras apitam e o microondas solta faíscas, adentro o ciberespaço. Vou aproveitar que estou infectado para espalhar isso aos quatro cantos. Quero inocular este vírus em todos, lançar uma pandemia (que bem podia se iniciar aqui, em tupiquimlândia), atingir você do MSN, do Skype, do Orkut, do Facebook, dos três tipos de e-mail, dos sites e blogs afins, você que navega porque é preciso.
I have a dream! Na verdade, mais de um, mas é que a citação cai bem. Um deles é disseminar a novíssima (ok, nem tão nova assim) gripe literária. Aquela que não se trata com comprimidos ou drágeas, chazinhos da vovó ou infusões; mas com escritos reais, virtuais, ideias (com ou sem acento), incutir nos outros a vontade de ler, se informar, tornar-se crítico diante dos fatos que o cercam, que o fascinam, que o afligem.
Eu quero um País com “p” maiúsculo e que leia bastante, seja criterioso o suficiente, cidadão em suma, antenado com o mundo e cumpridor daquela velha promessa que citava o futuro.
E para isso precisamos de você. E de mim, das velhinhas das lotéricas, dos adolescentes irados, dos cidadãos desiludidos e daqueles sonhadores que ainda não jogaram a toalha, dos jogadores de futebol e das personalidades da tevê; das empregadas, dos varredores de rua, mecânicos e professores, independente da fé que professem, das...
Agora vou tomar um chá com oito mil comprimidos que minha mãe mandou avisar que estou tendo alucinações... Ou será que estou mais sóbrio que nunca?
P.S – Se alguém souber como arrumar textos em .pdf, a ajuda seria bem vinda...
Junte à isso estar editorando um livro, fazendo uma monografia e estudando para provas finais. Punk, né? C´est la vie.
Aproveito que ainda é manhã madrugada e vou pagar contas na lotérica. A fila da manhã é melhor do que a da tarde e o danado do ar-condicionado não está ligado. Corria o risco de despertar a sinusite e aí é que a coisa teria tudo para desandar.
Cubro-me igual a um explorador antártico (São Shakleton, rogai por nós), com tudo a que tenho direito: blusas em dobro, gorro, um cachecol do tempo de criança, calças de moleton e pantufas. Não, melhor deixar esse negócio de pantufas só para dentro de casa. Vou de coturno. Por educação ao meu semelhante, caio na besteira de usar uma máscara clínica, daquelas de médico. Sou o último de uma fila de tamanho médio, recheada de velhinhos e aposentados. A senhora à minha frente fica me olhando meio de esgueira, meio assustada. Meu andar frankesteiniano e o tom apocalíptico dos telejornais podem ter alguma coisa com isso, deduzo. Tentando fazer uma brincadeira para animar o ambiente e diminuir seus receios, solto a máxima:
− Rigidez cadavérica post mortem.
O resto da fila se abre em bandas dignas do Mar Vermelho. Sem graça com a graça que não deu certo, pago minhas obrigações e ainda faço uma fezinha. Vai que hoje é o dia?
Retorno ao meu espaço virtual, obstinado. No caminho pela cozinha, faço todas as receitas de chá que a família recolheu nos últimos trezentos anos. Enquanto as chaleiras apitam e o microondas solta faíscas, adentro o ciberespaço. Vou aproveitar que estou infectado para espalhar isso aos quatro cantos. Quero inocular este vírus em todos, lançar uma pandemia (que bem podia se iniciar aqui, em tupiquimlândia), atingir você do MSN, do Skype, do Orkut, do Facebook, dos três tipos de e-mail, dos sites e blogs afins, você que navega porque é preciso.
I have a dream! Na verdade, mais de um, mas é que a citação cai bem. Um deles é disseminar a novíssima (ok, nem tão nova assim) gripe literária. Aquela que não se trata com comprimidos ou drágeas, chazinhos da vovó ou infusões; mas com escritos reais, virtuais, ideias (com ou sem acento), incutir nos outros a vontade de ler, se informar, tornar-se crítico diante dos fatos que o cercam, que o fascinam, que o afligem.
Eu quero um País com “p” maiúsculo e que leia bastante, seja criterioso o suficiente, cidadão em suma, antenado com o mundo e cumpridor daquela velha promessa que citava o futuro.
E para isso precisamos de você. E de mim, das velhinhas das lotéricas, dos adolescentes irados, dos cidadãos desiludidos e daqueles sonhadores que ainda não jogaram a toalha, dos jogadores de futebol e das personalidades da tevê; das empregadas, dos varredores de rua, mecânicos e professores, independente da fé que professem, das...
Agora vou tomar um chá com oito mil comprimidos que minha mãe mandou avisar que estou tendo alucinações... Ou será que estou mais sóbrio que nunca?
P.S – Se alguém souber como arrumar textos em .pdf, a ajuda seria bem vinda...
06 maio 2009
A horrível sensação de ser vice
Domingo, 03 de Maio de 2009.
Estava na Bienal do Livro de Goiás, atuando no corpo-a-corpo, vendendo a Antologia do Bar do Escritor de forma guerrilheira, abordando as pessoas, oferecendo literatura, praticando a arte de escrever de forma física, full contact. Como era o último dia da feira, muita gente estava aproveitando a queda dos preços e as vendas prometiam. Os corredores cheios de visitantes, expositores fazendo contatos, leitores conferindo estantes, editores sondando escritores; estava empolgado com a possibilidade de fazer bons negócios, mas também estava com a cabeça quilômetros dali. Mais exatamente no Maracanã, onde rolava Flamengo e Botafogo. Mas como deixar a primeira participação em uma feira?
Conversei a respeito do assunto com o Jurandir Araguaia, o escritor que havia cedido o espaço para que pudesse expor meu trabalho e dos companheiros do BDE e chegamos à conclusão que a coisa mais profissional a fazer era continuar com o stand aberto, pois o evento ainda se estenderia até as 18:00 h, acabando no mesmo horário que gritos de “É campeão” estivesse nas gargantas de diferentes torcidas em diferentes estados.
Mesmo sabendo que a era a coisa certa a se fazer, ainda assim ficava com o pensamento longe, imaginando a quantas estaria a coisa. Conversava com as pessoas, apresentava os livros, mostrava diversos títulos, falava sobre os autores, enumerava a origem de cada um, mas todo momento a imagem de uma bola cruzando o espaço das traves, indo morrer gloriosamente nas redes ficava rondando a mente. Vendi cinco livros enquanto rolava o primeiro tempo e em quase todos dei uma vacilada na hora de autografar: caneta que fura página, erro de data, até o ápice que foi a troca de nome em uma dedicatória. Tenho uma habilidade natural em ser desastrado, mas assim já é demais.
Um amigo ligou durante o intervalo, tomando todas, estava alguns coqueiros pra lá de Marrakesh, mas no ritmo dos 2 x 0 do Flamengo ele atravessaria a África toda rapidinho. Imaginava isso enquanto comentava o mercado editorial para um jornalista que buscava respostas sobre o futuro da literatura contemporânea no século das comunicações instantâneas. Bom, era isso ou qualquer coisa que tivesse um título extremamente grande e que se mostrasse aparentemente culta.
Alguém de um stand próximo conseguiu descolar uma televisão e “o pobre entretenimento das massas invadiu o sagrado solo da literatura,” segundo as palavras de um poeta performático que estava presente. Aproveitei para espichar o olho e ver se conseguia alguma informação relativa ao duelo no Maraca. Em rápida sucessão, um uniforme alvinegro corria para o lado do campo, várias pessoas pulando na arquibancada. Sinal de gol. A tensão começou a se apossar do resto de pensamento que ainda tinha.
Como a imagem estava um tanto truncada, um dos presentes resolveu agir mudar a configuração da coisa. Acabou derrubando a tevê; um baque surdo no chão, algumas fagulhas no ar e dezenas de torcedores imaginando milhares de formas dar fim ao infeliz.
Voltei então para a literatura novamente. Recebi a visita do escritor e jornalista Valdivino Braz, que propôs um negócio para lá de generoso: dois por um. Minha pequena biblioteca particular saiu no lucro. O papo anarquista e amistoso me devolveu a serenidade para dar tempo ao tempo e saber do resultado mais tarde. Na verdade, cheguei até a esquecer a partida. Acontece que o velho guerreiro das letras teve que puxar o carro. Até os bárbaros vão para casa uma hora.
A ansiedade voltou para ficar, assim como o Roberto disse um dia. Perguntei a uns dois ou três passantes e nada de notícia. Foi quando vi um sujeito com um radinho de pilhas colado ao ouvido, daqueles que a gente nem acredita que exista mais. Vinheta de programa de esportes derramando-se para fora das minúsculas caixas, batata: o cara com certeza saberia do resultado. Adiantei-me com fome de informação, coração aos pulos e os ouvidos apurados para não ter que perguntar mais de uma vez (tem gente que não gosta de responder mais de uma vez, vai que fosse o caso). O elemento me olhou profundamente no fundo dos olhos e, como eu não portava nenhum adereço que demonstrasse minha filiação futebolística, arriscou: Botafogo 3x2, de virada. E saiu andando com jeito de quem estava em uma feira de livro. Na Alemanha.
A espera havia acabado, afinal. Mas a feira do livro ainda continuava, e como em um passe de mágica várias pessoas adentraram o stand ao mesmo tempo, minha atenção teve que ser toda dedicada a estes. Mesmo naquele estado bagunçado da mente ainda consegui fazer as mesmas apresentações sem demonstrar qualquer alteração no humor; um inglês em frente à rainha não teria feito melhor.
Finalmente a feira acabou, começando assim o desmonte. Juntei livros, decorações, cartões, contatos; ainda havia muita coisa a fazer, mas o corpo apresentava um cansaço descomunal. E nem mesmo o convite de um amigo botafoguense (que também estava na feira, ajudando no stand), para tomar umas cervejas às suas expensas me animava. Estava esgotado, física e mentalmente. Decidi ir direto para casa. A noite caiu rápido, e enquanto tirava as coisas do Centro de Convenções os buzinaços dos vencedores saíram das ruas principais, indo para outras paragens. Peguei aquele trânsito de domingo-tarde-da-noite, inóspito, silencioso e calmo. Menos pelos gritos do meu carona, animado com a conquista.
Mas alguma coisa ainda me encucava e não sabia o porquê. Parecia que algo não estava exatamente no lugar em que deveria estar. Foi quando parei isoladamente em um semáforo que descobri. Ao meu lado, parou uma moto, com um casal jovem. Ambos vestidos com as cores da Gávea e com uma estranha animação no rosto, que pude perceber mesmo por entre a viseira do capacete. Não resisti e disparei a pergunta para a moça que ocupava a garupa:
- Aí, quanto ficou mesmo o jogo?
- Você não viu? – o rosto dela irradiava alegria – Um jogão! 2x2 no tempo normal, pênaltis e o Mengão levou! Soltei o berro preso na garganta enquanto que no banco do carona a felicidade tomou asas. Ia começar a tirar o sarro mais pesado do planeta, cantar todas as marchinhas que sabia e as que ainda iria inventar, quando ao ver a expressão de perplexidade na face do outro (até então tão enganado com o resultado como eu), vi ali a mesma apatia que havia me corroído por mais de duas horas. A horrível sensação de ser vice. Meio sem saber o que fazer, só me ocorreu na hora de citar os versos de Djavan: “Ainda bem que sou Flamengo”.
Estava na Bienal do Livro de Goiás, atuando no corpo-a-corpo, vendendo a Antologia do Bar do Escritor de forma guerrilheira, abordando as pessoas, oferecendo literatura, praticando a arte de escrever de forma física, full contact. Como era o último dia da feira, muita gente estava aproveitando a queda dos preços e as vendas prometiam. Os corredores cheios de visitantes, expositores fazendo contatos, leitores conferindo estantes, editores sondando escritores; estava empolgado com a possibilidade de fazer bons negócios, mas também estava com a cabeça quilômetros dali. Mais exatamente no Maracanã, onde rolava Flamengo e Botafogo. Mas como deixar a primeira participação em uma feira?
Conversei a respeito do assunto com o Jurandir Araguaia, o escritor que havia cedido o espaço para que pudesse expor meu trabalho e dos companheiros do BDE e chegamos à conclusão que a coisa mais profissional a fazer era continuar com o stand aberto, pois o evento ainda se estenderia até as 18:00 h, acabando no mesmo horário que gritos de “É campeão” estivesse nas gargantas de diferentes torcidas em diferentes estados.
Mesmo sabendo que a era a coisa certa a se fazer, ainda assim ficava com o pensamento longe, imaginando a quantas estaria a coisa. Conversava com as pessoas, apresentava os livros, mostrava diversos títulos, falava sobre os autores, enumerava a origem de cada um, mas todo momento a imagem de uma bola cruzando o espaço das traves, indo morrer gloriosamente nas redes ficava rondando a mente. Vendi cinco livros enquanto rolava o primeiro tempo e em quase todos dei uma vacilada na hora de autografar: caneta que fura página, erro de data, até o ápice que foi a troca de nome em uma dedicatória. Tenho uma habilidade natural em ser desastrado, mas assim já é demais.
Um amigo ligou durante o intervalo, tomando todas, estava alguns coqueiros pra lá de Marrakesh, mas no ritmo dos 2 x 0 do Flamengo ele atravessaria a África toda rapidinho. Imaginava isso enquanto comentava o mercado editorial para um jornalista que buscava respostas sobre o futuro da literatura contemporânea no século das comunicações instantâneas. Bom, era isso ou qualquer coisa que tivesse um título extremamente grande e que se mostrasse aparentemente culta.
Alguém de um stand próximo conseguiu descolar uma televisão e “o pobre entretenimento das massas invadiu o sagrado solo da literatura,” segundo as palavras de um poeta performático que estava presente. Aproveitei para espichar o olho e ver se conseguia alguma informação relativa ao duelo no Maraca. Em rápida sucessão, um uniforme alvinegro corria para o lado do campo, várias pessoas pulando na arquibancada. Sinal de gol. A tensão começou a se apossar do resto de pensamento que ainda tinha.
Como a imagem estava um tanto truncada, um dos presentes resolveu agir mudar a configuração da coisa. Acabou derrubando a tevê; um baque surdo no chão, algumas fagulhas no ar e dezenas de torcedores imaginando milhares de formas dar fim ao infeliz.
Voltei então para a literatura novamente. Recebi a visita do escritor e jornalista Valdivino Braz, que propôs um negócio para lá de generoso: dois por um. Minha pequena biblioteca particular saiu no lucro. O papo anarquista e amistoso me devolveu a serenidade para dar tempo ao tempo e saber do resultado mais tarde. Na verdade, cheguei até a esquecer a partida. Acontece que o velho guerreiro das letras teve que puxar o carro. Até os bárbaros vão para casa uma hora.
A ansiedade voltou para ficar, assim como o Roberto disse um dia. Perguntei a uns dois ou três passantes e nada de notícia. Foi quando vi um sujeito com um radinho de pilhas colado ao ouvido, daqueles que a gente nem acredita que exista mais. Vinheta de programa de esportes derramando-se para fora das minúsculas caixas, batata: o cara com certeza saberia do resultado. Adiantei-me com fome de informação, coração aos pulos e os ouvidos apurados para não ter que perguntar mais de uma vez (tem gente que não gosta de responder mais de uma vez, vai que fosse o caso). O elemento me olhou profundamente no fundo dos olhos e, como eu não portava nenhum adereço que demonstrasse minha filiação futebolística, arriscou: Botafogo 3x2, de virada. E saiu andando com jeito de quem estava em uma feira de livro. Na Alemanha.
A espera havia acabado, afinal. Mas a feira do livro ainda continuava, e como em um passe de mágica várias pessoas adentraram o stand ao mesmo tempo, minha atenção teve que ser toda dedicada a estes. Mesmo naquele estado bagunçado da mente ainda consegui fazer as mesmas apresentações sem demonstrar qualquer alteração no humor; um inglês em frente à rainha não teria feito melhor.
Finalmente a feira acabou, começando assim o desmonte. Juntei livros, decorações, cartões, contatos; ainda havia muita coisa a fazer, mas o corpo apresentava um cansaço descomunal. E nem mesmo o convite de um amigo botafoguense (que também estava na feira, ajudando no stand), para tomar umas cervejas às suas expensas me animava. Estava esgotado, física e mentalmente. Decidi ir direto para casa. A noite caiu rápido, e enquanto tirava as coisas do Centro de Convenções os buzinaços dos vencedores saíram das ruas principais, indo para outras paragens. Peguei aquele trânsito de domingo-tarde-da-noite, inóspito, silencioso e calmo. Menos pelos gritos do meu carona, animado com a conquista.
Mas alguma coisa ainda me encucava e não sabia o porquê. Parecia que algo não estava exatamente no lugar em que deveria estar. Foi quando parei isoladamente em um semáforo que descobri. Ao meu lado, parou uma moto, com um casal jovem. Ambos vestidos com as cores da Gávea e com uma estranha animação no rosto, que pude perceber mesmo por entre a viseira do capacete. Não resisti e disparei a pergunta para a moça que ocupava a garupa:
- Aí, quanto ficou mesmo o jogo?
- Você não viu? – o rosto dela irradiava alegria – Um jogão! 2x2 no tempo normal, pênaltis e o Mengão levou! Soltei o berro preso na garganta enquanto que no banco do carona a felicidade tomou asas. Ia começar a tirar o sarro mais pesado do planeta, cantar todas as marchinhas que sabia e as que ainda iria inventar, quando ao ver a expressão de perplexidade na face do outro (até então tão enganado com o resultado como eu), vi ali a mesma apatia que havia me corroído por mais de duas horas. A horrível sensação de ser vice. Meio sem saber o que fazer, só me ocorreu na hora de citar os versos de Djavan: “Ainda bem que sou Flamengo”.
01 maio 2009
Bienal do Livro, dia 2
Autografando
E continua autografando
Movimentação da feira
Cidade das luzes
O stand agora com o banner da Antologia do BDE. E segue o segundo dia da Bienal. Pessoas por todos os lados, vários estudantes visitando, o público mais avisado por conta das reportagens feitas no local, os expositores um tanto mais à vontade e milhares de páginas sendo lidas por minuto. É este o intuito, a leitura.
E dentro de algumas horas, o lançamento da Antologia do BDE.
Que a Força esteja por ali, dando umas voltas e ajudando sempre que possível.
30 abril 2009
Bienal do Livro de Goiás - 2009
Antologia "Bar do Escritor" dividindo espaço com "O homem que não bebia cerveja" de Jurandir Araguaia. Literatura, teu nome é incongruência...
Banner descolado no patrocínio
O espaço.
Começou ontem, 29/04, a 2ª Bienal do Livro de Goiás, onde, graças aos companheiros escritores Roberto Klotz (que indicou) e Jurandir Araguaia (que cedeu o espaço no stand), estou podendo expor a Antologia do Bar do Escritor e onde farei amanhã 01/05, o pré-lançamento desta obra, com as presenças de outros autores, como Giovani Ieminni e Larissa Marques que virão de Brasília para participar e prestigiar o evento, além de tomarmos um provável porre.
Afinal, Bar do Escritor rima com birita, não?
Acima fotos da abertura e do banner patrocinado pelo Laboratório São Pedro (merchandising mode on).
13 abril 2009
Antologia do Bar do Escritor

Esta é a capa da Antologia Bar do Escritor "Anarquia Brasileira das Letras", composta por 38 autores provindos da comunidade. São eles: Alan Nery, Anderson H, Angela Gomes, Angela Oiticica, Carlos Cruz, Cristiano Deveras, Elô Barreto, Emerson Wiskow, Filipe Celeti, Flá Perez, Giovani Iemini, Glauber Vieira Ferreira, Ivo Venarusso, Ükma, Larissa Marques, Lena Casas Novas, Leonardo Spoke, Lilly Falcão, Magmah, Maria Ligia Ueno, Matheus Costa, Me Morte, Muryel de Zoppa, Pablo Treuffar, Paulinho de Andrade, Renato Saldanha Lima, Rita Medusa, RM. Sant´Ana, Roberto Hefler, Rodrigo Domit, Ruy Villani, Sabrina Costa, Sandra Santos, Vinicius Paioli, Wilson Roberto C. Almeida e Zulmar Lopes.
A programação é de que se façam lançamentos simultâneos em várias partes do País, uma vez que há escritores do Oiapoque ao Chuí (passando pelos vários botecos espalhados no território nacional).
Em breve, novas informações sobre o lançamento.
fiquemnapaz
05 janeiro 2009
Lembranças tardias de meu último duelo
Como posso começar explicando o fim? Mesmo sendo algo que todo ser vivo saiba, cógnito ou intuitivamente, o fim não é algo com o que nos preocupamos com a devida atenção. Evitamos pensar que somos suscetíveis à falha, ao passar do tempo, ao fim de nossos dias naturais. Mas um dia, pode ser agora ou daqui a cinqüenta anos, tudo acaba. Como deveria mesmo acabar.
Sinto já que não tenho tanto sangue quanto gostaria. Os vários e repetidos golpes foram minando não somente minha resistência, como também diminuíram essa rubra reserva de vida. Isso tornou-me lento e vulnerável à ainda mais golpes. A coisa piora a cada segundo que passa, sem que possa ver uma solução, uma saída para a situação em que me encontro. Não que já não tenha me visto em uma posição inferior em outras ocasiões, mas naqueles tempos tinha não só a fé na vitória como também uma habilidade muito maior que meu oponente, o que me dava a calma necessária para aplicar-lhe um maior número de revides, salvando-me infinitas vezes da derrota.
Eu não conheço a derrota. Ainda não.
Talvez seja por isso que ela me amedronte tanto, mesmo eu não admitindo, apesar de vê-la gargalhando no fundo castanho do olhar de meu adversário, implacável e incapaz de demonstrar uma clemência que eu não suplicaria, ainda que continue posando de invulnerável, ao vê-la desfilar na conhecida voz daquele a quem combato:
- Vou vencer, até que enfim eu vou vencer!
Se ele soubesse o quão certa esta sentença está, acabaria comigo de uma só vez. Mas ainda me resta senão a força, ao menos o respeito que granjeei com meus anos de prática. Mesmo que tenha perdido meu escudo e tenha despedaçado minha espada, ainda assim já venci outras batalhas com minhas mãos nuas. Minha força e experiência, extraordinárias no passado, aos olhos de meu adversário ficam menores à cada dia que passa. Ele sabe tanto disso quanto eu.
Recuo. Ganho um tempo para respirar, mas este mesmo tempo se esgota rapidamente. Tenho que retomar a carga, retornar à luta ou estarei vencido de qualquer forma. Melhor cair em combate, que ser vencido pelo tempo. Preparo meu melhor golpe, forte o bastante para virar a maré da batalha. O único senão é que ele é muito lento e me deixa praticamente indefeso por alguns segundos. Enquanto giro minhas ensangüentadas mãos pelo ar, ele se atira para frente em uma velocidade espantosa, fruto de um golpe novo que eu desconhecia. Incrível como a mocidade aprende rápido.
Sou golpeado várias e repetidas vezes em meu flanco exposto e em uma semi-explosão do choque de corpos sou lançado ao ar em câmera lenta, enquanto minha contagem de vida rapidamente despenca para o nada. Impiedoso frente à minha sorte, indiferente ao meu destino e feliz com sua conquista, meu adversário põem-se a pular imediatamente, lançando ao ar sua comemoração pela vitória, a primeira em sua vida; minha primeira derrota... Continuo estático, olhando para meu corpo sem vida, quando ele coloca sua mão infantil em meu ombro:
- E aí Tio, vamos jogar mais uma?
Dou uma risada para meu sobrinho Daniel, nove anos, meu mais novo arqui-inimigo no vídeo-game:
- Bora, Zé-ruela. Mas agora não vou te dar mais canja não...
Reenergizado pelo poder curador do reset, tenho novamente meu poder e força para encarar o combate. Aquela primeira derrota me ensinou muita coisa. Uma delas é que não posso mais dar mole para o moleque...
12 dezembro 2008
Parênteses
Início dos parenteses perdidos entre os mundos: o real e o imaginário.
"Ressaca é a vingança dos deuses por havermos tentando chegar ao nível deles". Quem disse isso foi um ex-colega do curso de filosofia, um cara que vivia poesia em um tempo que havia desistido das letras e me prendia com gravatas caras e ternos bem cortados. Ele se vangloriava da poesia que tinha e eu me envergonhava dela: "poesia não é coisa de gente séria", um patrão havia me dito uma certa vez. Afoguei então as letras, cortei rente o cabelo, fiz a barba e não ouvi mais rock n´roll pesado nem protagonizei homéricos porres nas madrugadas com pouca lua; buscando ser o executivo do ano, me fixei aos moldes que antes havia detestado. E me moldei aos poucos, aprendi a assistir mais de três filmes alugados por fim de semana, trazendo a seriedade no rosto e me tornando o antipático fumante de três carteiras de Malboro que era bom naquilo que fazia. Antipaticamente bom, excelente, diriam alguns.
Então, do nada,
um dia acordei de pá virada
e executei o executivo:pum!
não foi um tiro
foi a rolha da garrafa de champanhe
que quebrei para batizar meu bar:
teu nome é encrenca!
Deixei de lado os bons modos
deixei de ser bom moço e casar
O lobo estava à solta novamente.
Fechem as janelas, crianças...
Fecha parênteses.
10 dezembro 2008
Hemoglobina
- Porque você não vai dormir? - Devo estar ficando biruta, pensei. Olhei em volta em não havia ninguém, o botequim estava às moscas. Por ali só eu, meu copo, alguns lexotans que um ciclista insone havia deixado cair na mesa e um pedaço de papel escrito por muitas mãos. - Tô falando contigo, ô bebum! Olhei novamente. Das duas uma. Ou estava ficando míope ou estava muito bêbado. Lógico que era a segunda opção; já era madrugada de domingo, sendo que estava bebendo desde a sexta, depois do sarau... Mas isso é outra história. Foi então que fixei meu olhar perto do cutuvelo e vi uma das minhas pulgas de estimação, que às vezes tira uma de consciência. Alguns têm grilos que falam, já eu tenho pulgas fofoqueiras.
- Cê tá ruim, hein? Vou repetir: porque não vai dormir?
- Tô muito chumbado para isso. Fico com medo de acordar igual ao Hendrix.
- Quem?
- Deixa prá lá. Nãs bastava ser um inseto, tinha que ser desinformada...
- Ah, qualé. Cê tá querendo é beber mais.
- Claro, Sherlock. Decobriu isso quando entrei no botequim ou quando levei o copo à boca?
- Você tá muito razinza.
- Tô nada, boba. Se tivesse, já tinha mordido um ou dois poemas do pedaço. Alguns merecem até mais que isso.
- Tá botando muita banca. Aposto que posso fazer tudo melhor que você.
- Acho que pode sim. Quase tudo, na verdade.
- E o que seria isso? Beber, por acaso?
- Olha, não sou de ficar me gabando sobre isso, mas já derrubei muita gente boa de copo. O Barmen de candango city (mas não foi uma disputa justa; ele tava com uns cigarros vencidos, que fediam muito), Ossípedes, o ébrio, lá nos idos da flipct-flact-zoom... A propósito, vejo que tá com um dedal na mão. Tá bebendo o quê?
- Sangue, ué!
- E eu poderia saber de quem?
- E de quem deveria de ser? É claro que é o seu!
- 3...2...1. - A pulga caiu de cara na mesa. Ajeitei a coitada no canto, peguei os lexotans esquecidos e me levantei para ir no banheiro: - Etanol na veia, filha. E-TA-NOL!
03 dezembro 2008
Confissão
- Ok, ok... Deixem-me sentar no canto que já digo tudo. O que vou dizer pode chocar a alguns, dar nojo a outros, quem sabe até garanta a pena ou o desprezo da maioria, mas sinceramente, foi algo que me aconteceu sem que tivesse a menor chance de mudar o rumo das coisas, de fazer com fosse de outra forma ou que tivesse outra conduta. E o que me faz ficar assim, corado perante vocês é saber que não poderei ao menos levantar a voz em minha defesa, pois eu mesmo tenho muita vergonha de tudo...
- Você está dizendo sobre o que lhe aconteceu todo este mês?
- Na verdade, não. Eu tinha vergonha mesmo era do que eu era. Você pode não acreditar, muitas vezes me pego tentando mentir para mim sobre isso, mas a verdade é irrefutável. Eu era o ser mais desprezível da natureza...
- Não! Então vo-você era um... um...
- Sim. Eu já fui um ser humano. Um vil caixeiro viajante de nome Gregor – e disparou a chorar. As outras baratas, em círculo, meneavam a cabeça com pena do que havia passado seu (agora) semelhante...
04 novembro 2008
On the road ou uma pequena prece para Kerouak
Era novamente eu e a estrada. A vastidão do nada à frente e a mesmice do que ficou para trás, os horizontes que atravessavam as janelas do veículo, celerados, assustados e velozes. Não, acho que era eu quem corria demais. O pé direito afundado no acelerador me dava uma vaga suspeita disso. Tentei me lembrar de pouco a pouco o que havia me levado ali: a) um ano dedicado aos estudos e um concurso que no fim das contas, não deu em nada; o que leva invariavelmente a um b), estar tão deslocado no seu próprio eixo, devido ao isolamento para estudo e às profundas meditações transcendentais e sem sentido, que a melhor forma de se recolocar é sair por um tempo e depois voltar, acertadamente ao seu lugar, ou fingindo metodicamente estar.
Então, meu irmão fechou animadamente um negócio com um primo meio trambiqueiro, que mora no extremo norte do estado. Era para trazer um carro para minha mãe, um Honda Civic 2007, com todos os apetrechos que um carro deste porte deve ter. O transportador seria eu, que iria de ônibus e voltaria guiando. Não me perderei nestes detalhes. Até porque não me lembro muito bem de nada depois disso. Fui colocado ou direcionado ao meu assento no banco do ônibus por algum funcionário da viação; como houve um senhor atraso no embarque, passei meu tempo ocioso na lanchonete mais próxima do embarcadouro, cervejas e whiskys falsificados me fazendo companhia. Podem não ser as melhores companhias do mundo, mas te ajudam a passar o tempo. Daí que a ida foi um sono contínuo, uniforme e vomitado. Acredito que ganhei alguma antipatia dos outros passageiros. Talvez tenha tido isso do motorista também, a contar pelo jeito que me empurrou porta afora, quando chegamos na cidade do meu destino. – E que destino! – exclamei. Sob um calor que no mínimo cento e cinqüenta graus, a rua principal esturricava abandonada. Olhei quase no fim dela e vi a garagem de meu primo, ao lado de um agradável botequim, um oásis de calma e beleza rodeado de palmeiras - Melhor pegar o tal carro e me arrancar daqui, ou corria o risco de ganhar raízes profundas.
Cheguei com cara da ressaca encarnada, ainda não havia comido nada, depois de uma noite de solavancos e sonhos entrecortados. Carlos, o parente vendedor de veículos, me deu um abraço mais falso que uma moeda de dois reais:
- Grande Juliano! Como é que tá o cara mais famoso da família Werneck?
- Até que vou bem, mas não sou o mais famoso: o primo Alceu é quem tá bombando nas manchetes agora, depois daquele caso de desvio de dinheiro público.
- Ah, mas isso é ficha. Em pouco tempo o povo esquece disso, vai por mim. Mas no teu caso, você é um artista, um escritor, daí que não dá para esquecer.
- Isso se você escrever. Como não ando escrevendo, dane-se. É este o carro?
Ele fez um sim desconfiado, como uma raposa na porta do galinheiro. Deixei que o desdém do meu olhar demonstrasse que não me animei nada com o escolhido. Olhei em volta e todos os outros automóveis tinham o mesmo ranço estético; vários outros sedans alinhados, juntamente com alguns hatchs econômicos e algumas pick-ups monstruosas. Nenhum conversível, nenhuma motocicleta endiabrada, nenhum escape de duas ou quatro rodas. Foi então que o vi. Parado no canto, me chamando, quase ordenando que o ligasse. Era um carro de sonho. Na verdade, uma lenda. Deixei o escolhido de lado.
- Roda?
- O quê, aquele ali? Você deve estar brincando, não é para sua mãe?
- É, mas a gente divide o carro. Daí que acho que ele é perfeito. Pega a chave.
Girei o segredo no tambor e sentir o motor explodir: aquilo sim, é que era o som verdadeiro de uma engrenagem em movimento, o bom e velho carburador, não aquela coisa insossa da injeção eletrônica. O barulho do motor me impedia de ouvir o que meu primo teimava em gritar ao lado do carro. Ele apontava alguma coisa para dentro do veículo e eu somente acenava a cabeça, sorrindo maqueavelicamente como se entendesse tudo. Por fim, ele se aproximou e consegui distinguir:
- ... fora isso, tá tudo beleza. Fiz o motor, o câmbio e a suspensão, o bicho tá tinindo! Mas ainda acho melhor você colocá-lo em uma cegonha ou levá-lo sobre um caminhão.
- E perder o melhor da festa? Nem na bala.
Acertei a papelada com Carlos, comi alguma coisa que pedimos diretamente do botequim e comecei o meu retorno para casa. Não via a hora de cortar o espaço com aquela máquina. Atravessei a cidade com controlada ansiedade, louco para chegar na rodovia e começar verdadeiramente a rodar. Quando as rodas de liga leve começaram a desfilar na estrada, via o brilho do olhar dos fãs de motores chegando a corroer as fortes latarias. Meu ser começou a se integrar com o veículo logo após os oitenta por hora. Senti o volante se tornar uma extensão de minhas mãos e os pedais grudarem-se aos meus pés, o coração correndo em uníssono com o motor e minha força sendo transmitida pela transmissão daquele carro dos sonhos.Era novamente eu e a estrada. Foi quando percebi o que meu primo tentara desesperadamente me mostrar. O painel de instrumentos, vez por outra perdia o contato, ficando estático, sem fornecer informação nenhuma. Isto me fez gostar ainda mais daquele carro, pois suas falhas em muito se assemelhavam às minhas: sem marcador de RPM, nem ele nem eu sabemos a própria força ou potência; isto geralmente atrapalha muito coisa, seja em um aclive acentuado ou em um relacionamento conturbado; sem o controle do combustível, nunca sabemos até onde teremos gás para podermos ir, seja na estrada ou na vida, mas dane-se, quem perde tempo com isso? Um dia tudo acaba mesmo. A falta do velocímetro me impede de saber a que velocidade estou indo, mas algo dentro de mim me assegura que estou indo no tempo certo, no momento exato, e que em mais ou menos tempo chegarei em algum lugar; já a falta do marcador de temperatura é grave, pois assim como o motor pode fundir devido ao excesso de calor, sua falta na vida nos deixa sem saber se nossas relações estão próximas da ebulição ou em total e completo congelamento.
Todas estas conjecturas ajudam a despertar mais uma companheira de viagem que me acompanha desde muito. Minha velha e conhecida sinusite. A dor que se espalha pela cabeça se assemelha a mil pequena e pontiagudas facas distribuídas pelo crânio, com uma raiz profunda que desce por detrás do olho direito e se esgueira pela orelha, chegando a sussurrar coisas obscenas em meu ouvido; não tomo analgésicos pois eles causam dependência e a pior coisa do mundo é estar dependente (de algo ou de alguém). Por esta razão me apeguei a esta dor como um náufrago a uma tábua.
Mas acho que me enganei. A pior coisa do mundo não é a dependência, mas sim viver frustrado. É pior que morrer duas vezes; uma porque sabe que ainda vai morrer, outra, porque realmente todo o sentido da vida se esvai com aquela imagem de quem você deveria ter sido. Neste exato momento vejo um eu bem sucedido sentado no banco detrás, rindo amigavelmente para mim, tentando me passar alguma confiança. Foda-se.
Enquanto devoro quilômetros rodas abaixo, com o pensamento solto e livre, tentando decifrar o código secreto da vida, ao lado sempre aparece um ou outro apressadinho tentando apostar corrida comigo; ao adentrar um carro poderoso (ou se destacar de qualquer outra maneira) você sempre verá as pessoas (pelo menos as pessoas mais idiotas) te chamarem para um racha, uma aposta ou uma desafio qualquer. Ao não aceitar, estarão todos te avaliando por questões de valentia ou medo, mas ninguém (salvo raras exceções) perceberão que não procedeu daquela forma justamente para não fazer aquilo que as pessoas esperem que você faça.
Acredito que exatamente por isso que trouxe este maravilhoso Maverick V8, e não o tal Honda... Apesar de meu irmão quase ter enfartado, fico sempre tocado ao saber que minha mãe é, aos quase sessenta anos de idade, a feliz proprietária de um autêntico muscle car. E me sinto como um pequeno garotinho, toda vez que Mamãe, dirigindo seu V-oitão pelas ruas, vai me buscar em algum um sarau de poesia, enquanto vou bebericando meu Jack Daniel´s madrugada afora... A lei seca pode ter me privado de um dos meus passatempos prediletos (direção ébria pós encontro literário), mas ao menos serviu para melhorar meu relacionamento familiar.
06 junho 2008
A Travessia
Matem-me amanhã
e serei novamente um cadáver agradecido
com um sorriso nos lábios
e a tranqüila serenidade
daqueles que não souberam que partiram,
dos que se foram sem se despedir
(lançados ao espaço por desproporcionais choques de massas)
enquanto o corpo descrevia uma parábola descendente
parando no meio do asfalto,
meio morto(morte de cachorro louco, dia frio, na beira de um meio-fio)
Nós,
os que sempre se vão na hora errada
não queremos mais mundos obscuros
onde as lágrimas não podem passear pelos rostos
e as dores não podem ser acariciadas
à luz do dia
Todos os dias
Por conta dessa noite de virgens loucas
a poesia nada mais é que um momento trágico e mágico
eternizado por uma pena perdida
(no fel da loucura embebida)
servida em cálices altos
aos que se embebedavam
no festim da vida
E por conta de toda esta embriaguez
é que viramos a cidade de pernas pro ar,
somente para encontrar
um par de pernas
cruzadas
Os que vierem depois disso quase nada entenderão
(farão falsos discursos em monocórdios maquinados)
mas o mundo muda de repente (à revelia)
e a travessia pode se dar à qualquer hora
confirmando assim a única certeza da vida
Meu presente para o futuro é um passado sem glórias
Ainda agarro a felicidade pelos cabelos
e a beijo sem volúpia e sem vontade
apenas para ter o prazer de lhe cravar os beiços
e serei novamente um cadáver agradecido
com um sorriso nos lábios
e a tranqüila serenidade
daqueles que não souberam que partiram,
dos que se foram sem se despedir
(lançados ao espaço por desproporcionais choques de massas)
enquanto o corpo descrevia uma parábola descendente
parando no meio do asfalto,
meio morto(morte de cachorro louco, dia frio, na beira de um meio-fio)
Nós,
os que sempre se vão na hora errada
não queremos mais mundos obscuros
onde as lágrimas não podem passear pelos rostos
e as dores não podem ser acariciadas
à luz do dia
Todos os dias
Por conta dessa noite de virgens loucas
a poesia nada mais é que um momento trágico e mágico
eternizado por uma pena perdida
(no fel da loucura embebida)
servida em cálices altos
aos que se embebedavam
no festim da vida
E por conta de toda esta embriaguez
é que viramos a cidade de pernas pro ar,
somente para encontrar
um par de pernas
cruzadas
Os que vierem depois disso quase nada entenderão
(farão falsos discursos em monocórdios maquinados)
mas o mundo muda de repente (à revelia)
e a travessia pode se dar à qualquer hora
confirmando assim a única certeza da vida
Meu presente para o futuro é um passado sem glórias
Ainda agarro a felicidade pelos cabelos
e a beijo sem volúpia e sem vontade
apenas para ter o prazer de lhe cravar os beiços
21 maio 2008
Dos perdões nunca pedidos
“I know someday you'll have a beautiful life
I know you'll be a star
In somebody else's sky,
but why, why, why
Can't it be, can't it be mine”[1]
Black - Pearl Jam
Eu só queria pedir perdão. Por haver cometido com minhas novas ações, velhos erros, falhas grotescas que sempre juro não mais fazer, mas que acabo sempre repetindo, nessa rotina de desconfianças infundadas e ciúmes estúpidos.
"Eu te amo". E havia vindo lhe dizer isso, que não era da boca para fora, que era verdadeiro e pulsante. Mas desconfio que comecei a te perder no dia em que te disse isto e agora você já não me ouve mais. Sua frieza e seu aspecto marmóreo me dão a certeza que não terei a redenção que vim buscar. Não atendes nem aos meus gritos que ecoam pela noite, soltos como corvos, fazendo revoadas sobre minha casa, nossa um dia...
Então isso é um adeus.
Parto em pedaços, enquanto me vou, mas parto com uma parte tua, levo teu olhar e teu coração comigo, pois é onde sempre deveriam estar. Vou tratá-los com o amor e carinho que merecem, os mesmos que sempre devotei a ti.
E se houver uma eternidade depois desta vida, espero te encontrar lá por acaso, em um desses dias claros, num céu de brigadeiro, sem nuvens...
- É isso, doutor. O cara nem assinou...
- Tem certeza que era o ex mesmo?
- Absoluta, o porteiro do prédio em frente o reconheceu. Veio de madrugada, encontrou a mulher com o novo namorado, meteu três tiros em cada um deles, depois escreveu isso aí na parede, com o sangue das vítimas.
- Vinte anos na polícia e nunca tinha visto algo igual.
- Pois é doutor, nem eu. O meliante ainda levou o coração e os olhos da moça!
- Já sabem alguma coisa do safado?
- Pelo que levantamos até agora, ele era metido a escritor, poeta, algo assim...
- Por isso é que eu nunca gostei desses tipinhos.
- Nem eu doutor. Fulano que fica com a fuça muito tempo enfiada em livro um dia endoida... E faz uma merda dessas.
- Indivíduos perigosos, perigosíssimos! Nunca fiquei tão enojado na vida... Agora vá na padaria do lado e me compra dois sanduíches. Final de plantão sempre me dá uma fome do cão.
[1]Eu sei que um dia você terá uma vida maravilhosa
Eu sei que você será como uma estrela
No céu de um outro alguém
Mas por que? Por quê?
Por que não poderia?
Por que não poderia ser no meu?
05 abril 2008
Silepse do tempo perdido ou
mais uma noite que se tornou dia
Hoje acordei na hora de dormir;
ontem virou hoje
por volta das dez da manhã
de uma noite chuvosa que bebia gotas
sem fim
um trago para o alto
um gole bem dado
um pouquinho para o santo
o mergulho no asfalto:
braçadas para o rumo do nada
vitaminadas pela fé cega
dos lisérgicos
que correm em cascatas dentro de mim
descobri todos os sentidos da vida
que nunca havia tentando achar
pois
minhas filosofias estão todas mortas
e as paixões, essas velhas carpideiras
choram copiosas
detestáveis e maliciosas
o futuro sem fim do amor assassinado:
ou troco todas as minhas receitas
ou passo a beber descafeínado
Existem noites que não morrem:
são engolidas vivas, pelo dia.
mais uma noite que se tornou dia
Hoje acordei na hora de dormir;
ontem virou hoje
por volta das dez da manhã
de uma noite chuvosa que bebia gotas
sem fim
um trago para o alto
um gole bem dado
um pouquinho para o santo
o mergulho no asfalto:
braçadas para o rumo do nada
vitaminadas pela fé cega
dos lisérgicos
que correm em cascatas dentro de mim
descobri todos os sentidos da vida
que nunca havia tentando achar
pois
minhas filosofias estão todas mortas
e as paixões, essas velhas carpideiras
choram copiosas
detestáveis e maliciosas
o futuro sem fim do amor assassinado:
ou troco todas as minhas receitas
ou passo a beber descafeínado
Existem noites que não morrem:
são engolidas vivas, pelo dia.
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