Programa para sexta, lançamento de livros em conjunto, coquetel incluso. É isso...
fiquemnapaz
17 abril 2013
14 abril 2013
FLIDF 2013 – Balanço do evento ou Quando encontrei uma música do Renato Russo em carne e osso
É... Tem uma cara que não posto nada por aqui, mas isso tem uma
explicação bem simples: estou finalizando a nova cria, “O Etéreo ser de carbono”,
um trabalho de parto de 5 anos, entre idas, vindas e alguns prêmios. Mas isso é
outra estória, que vem em breve.
Fui sexta passada para “Behrsília” (rebatizei a Capital Federal
assim no dia que tomei umas pingas com o M.P. Haikel na Feira do Livro de 2011,
quando tomamos um porre e falamos da poesia do Nicholas; outra estória para
outra hora), pois o comparsa Giovani Iemini estava desde o dia 08 de maio com
um stand do Bar do Escritor na Feira do Livro do Distrito Federal, incrustada
no Taguatinga Shopping.
Aterrissei por lá no começo da tarde (aproveitei a chegada para
passar na casa de minha madrinha, a incrível “Di”, onde filei uma boia e botei
os assuntos familiares em dia, aproveitando o carinho e hospitalidade de costume) encontrando um atônito Giovani atordoado com minha chegada
desavisada, de supetão e já caindo matando. Em cinco minutos, já de livro nas
mãos, soltei a coleira da língua e vendi o primeiro exemplar: literatura
corpo-a-corpo, falando diretamente ao futuro leitor, exemplificando pormenores
do livro, mandando um desconto por conta da casa e um autógrafo incluso no
pacote, que feira de livro é para isso mesmo.
Após o espanto inicial, o guru do BDE mandou a letra de como estava
indo a parada até aquele momento: o pessoal presente reclamava um pouco da
divulgação, mas a estrutura encontrada era compatível com outros eventos
correlacionados. Mas independente de tudo, o público deu as caras no fim de
semana, lotando os corredores do lugar e proporcionando uma interação bem
legal.
Fico sempre elétrico quando vejo o interesse das pessoas pelos
livros: aquilo atiça a vontade dividir as experiências literárias e foi com
prazer que troquei ideias com novos autores, pessoas que estavam ali de livro
nas mãos, ainda tentando se jogar no espaço livre do mundo das letras, além de
vários amantes da letras, leitores esporádicos, uma pá de concurseiros (quer
prestar concurso, vá estudar em Brasília) e outros seres multidimensionais.
Acredito que, por ter sido a
primeira (de outras possíveis), a FLIDF tem tudo para entrar no roteiro da cidade
(ou do próprio shopping, se rolar interesse). Daí, com a sequência o evento
engata de vez.
O que carregar dessa nova aventura literária? Em primeiro lugar,
como em todas as viagens, conhecer pessoas legais, um dos grandes baratos da existência.
Destaco algumas, na impossibilidade de lembrar todas: Alaélio, o Cachorrão: um
mecânico de motos-quase-macgyver-perito-na-arte-de-curtir; vizinho de stand,
passamos o tempo todo atendendo clientes e contando hilariantes histórias dessa
porralouquice que chamamos de vida; Márcia, da Best Whishes, um projeto de
livros infantis muito interessante, mais uma parceira para a família BDE; Bicudo,
uma figura pra lá de divertida, que apareceu no stand com uns desenhos muito
punks e estórias idem.
Claro que fico muito agradecido a aqueles que adquiriram nossos livros
e espero de coração que curtam bastante, bem como a todos que de uma forma ou
outra ajudaram nestes dias de feira. Outro fator legal foi reencontrar o Heron,
membro da Academia de Letras de Taguatinga e prova viva que quem quer,
consegue. Do Giovani nem vou falar mais: o figura já sabe que “tamos” aí.
Foi difícil deixar a feira em plena tarde de domingo, quando ela
apontava um público crescente no último dia, mas a estrada clamava a volta,
pois na segunda o bicho pega em Goiânia. E foi a overdose de café e energético
que tomei nas duas horas de estrada de volta que acabou lançando-me aqui,
pilhado no começo da madrugada, já em casa, tomando uma esquecida cerveja e
ouvindo John Frusciante mandar “Before the beginning”... É isso. Missão dada,
missão cumprida.
P.S.
Ah, é... Tava esquecendo de explicar a segunda parte do título. Lá
em cima, saca? Então, tava lá eu, no meio da feira, autografando um livro para
um casal novo, ambos muito solícitos e simpáticos. Daí vem a pergunta de praxe
(a falta que uma assistente não faz, tivesse uma, já vinha um post-it do lado,
com nome e grafias corretas... mas vá lá, vida de escritor-punk-rock é assim
mesmo):
─ Em nome de quem?
─
Mônica - disse a moça
─ Eduardo- emendou o rapaz.
Para Eduardo e Mô... Minha memória adolescente deu um tranco:
─
Peraí, “Eduardo e Mônica”? Igual à música? – falei animado.
─
É... – disseram os dois meio acanhados. Saquei na hora que
deviam ouvir uma pá de piadinhas por conta da coincidência e que quase fui levado
a fazer mais uma piada para o hall de encheção de saco. Tava até com uma na
ponta da língua, mas acabei segurando. Só tinha uma coisa a fazer naquela
situação: dei meia volta, agarrei outro volume do Bar do Escritor (Brand, o da
capa “Jack Daniel´s”).
─ Tó, vão levar esse aqui por conta da casa – ao ver a cara meio de
espanto, meio de desconfiança pela parada que os dois faziam, emendei:
─
É que nunca encontrei nenhuma lenda da música assim tão de
perto.
Encontrar Eduardo e Mônica em Brasília, numa feira de livro? Merecia
prêmio, claro...
P.S 2
Se conseguir, depois posto fotos da parada. Fico devendo, mas quase
nunca cumpro...
Fiquemnapaz
04 fevereiro 2013
Aritmética Noturna
Dois
copos
um
cinzeiro
várias
idéias
nenhum
rumo
Seis
cervejas, dois whiskys
mililitros
alcoólicos
dez
da noite
noves
fora
páginas
rabiscadas
péssima
caligrafia
sem
enxergar direito
tentando
escrever poesia:
completamente
bêbados
não
fizemos porra nenhuma
só o
de sempre.
29 junho 2012
FICA - Quarto Dia
O caldeirão cultural de Goiás começa a ferver. Ontem o dia começou com uma homenagem ao escritor Bariani Ortêncio no pátio da Igreja do Rosário, à qual cheguei no fim porque estava montando o ponto de leitura; pobre é assim mesmo, mora longe e chega atrasado. Mas a compensação foi juntar-me aos bons e bater um rango junto com a galera das grandes letras no Restaurante Ipê. De quebra, umas cervejinhas pós-almoço e um bate papo descontraídaço com o repórter Fábio Marinho e esposa, um pessoal cheio de história para contar.
A tarde no ponto de leitura também foi bem animada com a reunião dos autores conversando com o público e uma contação de causos expontânea e divertida. Falando nisso, aproveito aqui para agradecer ao apoio da galera da recepção do Quartel do XX, Luíza, Jorge e cia ltda, além de expressar minha admiração pelo gesto da turma que está trabalhando com uma fita de luto em memória de Jurema, que junto com eles havia trabalhado em todas as outras edições do FICA. Lá de cima ela deve estar curtindo tudo...
Mas antes de cair o pano, percorri as ladeiras de Goiás na pele do Anonimo da Literatura, acompanhando o multitalentoso duo Taise e Lucas, da Companhia Poesia que Gira do grupo de Artes Cênicas da UFG. Os dois cantam uma barbaridade. Fizemos um roteiro pelo centro, com declamações e músicas diversas, além de algumas mágicas para a criançada, que ficava louca com a máscara. Por fim o improviso que fizemos de "O bêbado e a equilibrista" (para mim foi canja fazer o bêbado; tenho tempo de estrada e copo o bastante para fazer isso "à capela") parou a pizzaria onde fomos jantar; o povo se encantou tanto com a perfomance que rolaram algumas cervejas e pizzas na faixa... É, a arte também enche o bucho, rapaziada.
Pena não ter registrado o momento, poque o fera aqui esqueceu o memory card da máquina de fotografias. Mas vou pedir a alguns amigos que conseguiram umas chapas e depois posto por aqui.
É isso, a maré tá virando o quebra-mar e o FICA bombando.
ficanapaz
28 junho 2012
FICA Terceiro dia
Ontem tivemos o acréscimo da Biblioteca Pio Vargas, bem como a presença de Bariani Ortêncio, do alto de seus mais de cinquenta anos de estrada literária, somando forças no ponto de leitura Paulo Bertan. O lugar transformou-se em uma animada discussão literária, junto com os outros escritores já presentes desde o dia anterior. E ainda rolaram dois bônus: entrei em contato com Benjamim e Pedro Ivo, vindos da Barra, onde inacreditavelmente são parceiros de meu amigo das antigas, Éden. De quebra ainda conheciam o Ivo Venarusso, participante da 1a. Antologia do Bar do Escritor. Esse mundo, mais que o futebol, é mesmo uma caixinha de surpresas...
Registro do Anônimo da Literatura capturado pelo Paulo Torres, da Secult.
No começo da noite, animado com a presença e coragem de uma galerinha maneira do curso de Artes Cênicas da UFG (que ainda disseram que irão descambar para a FLIP, pira? Acabei chamando a geral para o barraco do BDE, agora é ver se cabem mais quatro cabeças na fita), resolvi colocar o Anônimo para roletar rapidamente pelo centro de Goiás, espalhando uns livrinhos e fazendo uma brincadeira legal com os transeuntes. Hoje à noite deve ter mais, muito mais...
É isso, a maré tá enchendo e o FICA cada vez mais bombado. "Tomar banho de canal quando a maré encher!"
ficanapaz
27 junho 2012
FICA - Segundo Dia
http://fica.art.br/noticias/projeto-literario-bar-de-escritor-expoe-obras-no-fica-2012/
O tempo vai passando em Goiás e fincamos raízes. Mais fácil ainda quando se está hospedado ao lado da casa de Cora (no Hotel da Ponte, pira?), vai-se dormir e acordar poeticamente. Mas antes disso muita água passou sob a ponte: no espaço de leitura dentro do Quartel do XX, pude trocar uma ideias com várias pessoas maneiras, como Aidenor Aires, Brasigóis Felício, Clara Dawn e uma zaga de escritores do bem. Para fechar a noite, abertura oficial do FICA, show de Sabah Moraes cantando Edith Piaf e ainda por cima dividi uma cerveja (uma mesmo, nem eu acredito que tomei tão pouco; ter acordado às cinco da matina deve ter contribuído um tanto para isso) com o neto de um de meu heróis de infância; o gente fina João Luiz Prestes, da Secult, descendente do Cavaleiro da Esperança, Luiz Carlos Prestes. Foi um bate papo maneiro, a respeito da infância ao lado de alguém que entrou com o pé direito na História, essa mesma, com H maiúsculo...
O FICA segue seu caminho e a gente vai indo, na maré...
ficanapaz
26 junho 2012
FICA 2012
Primeiro dia de FICA, com o Bar do Escritor no Quartel do XX, em Goiás. Ainda nos "aclimatando" e fazendo os últimos acertos no stand. O festival está apenas começando...
23 janeiro 2012
Camisetas da Terceira Antologia do BdE

Poisé, como das outras vezes, estou fazendo camisetas da nova antologia do Bar do Escritor. Graças ao excelente trabalho feito pelo Carlos Henrique Neri, esta ficará um primor de camiseta.
Disponível nas cores branca e preta, tamanhos P,M,G e GG. Quem estiver interessado pode enviar um e-mail para mim cmpneto@bol.com.br. O preço é somente 30 reais (menos a GG que é 35 reais) e, com mais R$ 15,00, pode levar junto o novo livro (lembrando que o lançamento nacional do mesmo, conforme o anúncio abaixo, é dia 03 de março de 2012. Um pouquinho antes do fim do mundo... Então, vamos encarar o fim dos tempos vestindo algo legal?
ficanapaz
Terceira Antologia do Bar do Escritor

O Bar do Escritor (www.bardoescritor.net) é uma comunidade de escritores, poetas e artistas brasileiros que age coletivamente em busca da promoção da literatura e da difusão do pensamento crítico e liberário.
O BdE surgiu no Orkut (www.orkut.com), uma rede social, em agosto de 2005, como um espaço para discutir literatura. Hoje possui 3766 membros cadastrados. Nesse tempo, produziu um ezine (eletronic-fanzine) com 50 rodadas desde 2007, um blog coletivo (www.blog.bardoescritor.net) com 27 colunistas diários e 03 convidados mensais (já foram publicados quase 100 escritores) e dezenas de blogs literários parceiros. Em 2007 o BdE publicou pela primeira vez em papel, com o Zine Bar do Escritor. Nos anos seguintes, três antologias: 2009 com Anarquia Brasileira de Letras, 2010 com Brandt e 2011 com Terceira Dose, além de incontáveis citações e elogios em obras dos escritores participantes.
É esta terceira antologia que será lançada em 03/03/2012, em dúzias de cidades brasileiras, todas conectadas com vídeo no mesmo blog de lançamento. Os 37 autores reservarão espaço em bares, cafés ou auditórios em suas cidades para promoverem o lançamento. No dia e hora combinados, todos conectarão seus laptops com câmera ao site Ustream (www.ustream.tv) e produzirão imagens para o blog do lançamento (www.bardoescritor-terceiradose.blogspot.com). Numa hora combinada, todos os presentes nos lançamentos, simultaneamente, nas várias cidades participantes, conectarão no site as imagens dos outros participantes e será promovido um brinde, que citará a história do BdE, uma homenagem à terceira antologia, a participação no movimento Occupy with Art e a celebração à liberdade, à vida, ao amor e à felicidade, mostrando que é a união e a participação coletiva e ordenada que promovem bons resultados.
16 novembro 2011
Feira do Livro de Brasília 2011
Depois de um começo meio morno (em movimentação, pois o tempo estava quentíssimo) a 30ª Feira do Livro de Brasília está bombando. Pelo menos foi o que percebi nos dias em que estive lá (de 6ª passada até ontem, dia 15). Um tanto bom pode ser creditado ao feriadão, que fez com que a cidade ficasse bem vazia. Mas isso não impediu que eu e o brother Marco Polo Haikel nos lancássemos na prática da "literatura corpo-a-corpo": aquela em que o escritor vai atrás do leitor oferecendo o livro, olho-no-olho, fazendo com que as letras girem e atinjam ainda mais gente. O maneiro da coisa é que você acaba tendo contato com pessoas muito legais, altas idéias e coisas mais (tá, tem um chato que vez ou outra que te ignora, mas aí você ignora ele também e toca a vida. E as vendas).
Vale até se fantasiar: no meu caso, desde a Flip que utilizo-me dos serviços do "Anônimo da Literatura". Uma forma a mais de chamar a atenção para o livro. Isso até o leitor abrir a capa, pois daí, a missão passa a ser do texto. Se mandei bem, ele tem que segurar a onda sozinho.
Outra parada legal é manter contato com outros autores, para troca de impressões ou mesmo para dialogar sobre projetos, livros e demais coisas. Na foto ao lado, estão dois que merecem destaque (e para fazer um mea culpa, esqueci o nome do parceiro de chapéu). O Nicholas Behr nem é preciso apresentar, por conta da cabeleira prateada e a pinta de durão (mas o cara é gente fina pacas). Poeta das antigas, dos tempos do mimeógrafo, ensinou e ainda ensina muita coisa para a galera que percorre essa via crucis (embora muitas vezes ducis) do underground literário. Figuraça. Já o Heron Luiz merece um parágrafo à parte. O cara é um exemplo de vida: por ter disfunção motora, aparentemente parece estar em desvantagem perante os outros. Ledo engano: é um entusiasmado poeta que luta incansavelmente pelo que acredita (no caso, seus livros) e corre atrás, fazendo mais que muito fulano que se se diz "normal". Exemplo de vida.
É isso, o feriadão foi de muita ralação literária, mas agora a vida de Clark Kent me chama de volta. Mas vejamos se sexta que vem a gente não volta para Behrsília (depois que falei isso bêbado para o M.P. não esqueci mais, parece que definiu a cidade), para um bis.
ficanapaz
13 agosto 2011
Deveras no Programa Raízes
Amanhã, 14/08 irá ao ar a entrevista que dei ao Programa Raízes, do amigo Doracino Naves, com participação do escritor e companheiro de letras Edival Lourenço.
O link do programa é www.programaraizes.net
E la nave va...
04 julho 2011
Confissão
no riso,
explico:
é porque já beberiquei
da felicidade alheia
de vossas seivas
de suas sereias,
herdei a devassidão.
20 junho 2011
Em dias de pré-Flip, vai-se de Fica.
Enquanto a contagem regressiva não se esgota para Paraty, decidi em um estalo daqueles assim, do nada, dar um pulo na cidade de Goiás durante o Festival Internacional de Cinema Ambiental - FICA, e fazer um experimento com a venda de livros de maneira itinerante e puramente mambembe.
Contei com a ajuda sempre disposta da Izaura Franco e sua R&F Editora, para aumentar o conjunto de títulos. Alguns trabalhos do Nejar, Maria Luisa Ribeiro, da própria Izaura, dentre outros, vieram fazer companhia aos meus “Jantar às 11” e “Tá na rede”, além das duas antologias do Bar do Escritor. Uma coleção bonita de se ver...
Misturando uma vontade de experimentar a venda de livros daquele jeito atuando no corpo-a-corpo, vendendo livros de forma guerrilheira, abordando as pessoas, oferecendo literatura, praticando a arte de escrever de forma física, full contact; respirar os ares do Fica e tomar umas em Goiás, foi que cheguei no sábado, dia 18.
Acompanhavam-me minha namorada, Jenny, e o Giuliano, parceiro de trampo na Agecom. Os dois, é claro, mais preocupados com a festa. Eu, com a festa, mas também com um pezinho no trampo.
Depois de perambular por várias ruas do centro histórico procurando um local para “montar-barraca-mas-sem-ter-uma”, arranjei um local no meio da feirinha ao lado do coreto e dali busquei meu lugar ao sol. E que sol...
O projeto de venda, em si, ficou devendo. Mais por conta do aviso que ficava rondando toda hora, que a fiscalização poderia recolher os livros a qualquer minuto, daí decidi manter em exposição somente meus livros e alguns do BDE: se fossem grampeados, ia pedir que ao menos os doassem para alguma escola do município. Um preju cultural, por assim dizer. O que não dava era fazer graça com livros dos outros.
Mas os contatos que fiz ali, do pessoal que passou por lá e outros como o Mozart Fialho, da Trama do Cerrado, camisetas e outros trampos muito visu, que estava com uma banca ao lado e foi de uma simpatia sem limites, dando inclusive as dicas de como estava o local e o que poderia rolar no caso de fiscal baixar, maneiríssimo.
Depois da feira, o lance foi curtir mesmo. Já que tava na roda, o jeito foi sambar. E rolou muito samba, muita passeata e alguma cachaça. Ou seria muita cachaça e alguma passeata? Bom, a verdade é que achei meio forçado “Marcha das Vadias” por lá. Mas cada um com seu cada um.
Porém, o que matou a pau mesmo foi o show do Manu Chao. Sonzeira duca, a roupagem, digamos, mais new-heavy-punk-pós-dark-moderno pegou bem para fazer o pessoal pular sem parar naquela madruga friaca na beira do Rio Vermelho. E dá-lhe “Hasta la siempre, Goiás!” O cara não arredava pé do palco e o povo não saía da frente dele. Foram uns bons 40 minutos de “tchaus”, "Gracias por la oportunidad", “Até logos” e “Adiós”. Particularmente curti demais.
Gostaria inclusive de agradecer à alma abençoada que jogou uma garrafa de Passport na faixa. E foi-se o frio...
Ficou na cuca a vontade de repetir a dose durante o feriadão que se aproxima, buscar outros ares, como os de Piri, talvez e tentar novamente a sorte. Vai que cola?
Então vamos passear no parque, enquanto a Flip não vem...
P.S. Ia esquecendo de dizer do Acampamento Jatobá, do Sr. Eurípedes, gente finíssima. Lugar muito agradável, praticamente dentro da cidade, a uns 300 metros do Posto Sota. Depois falarei mais disso, se matar a vontade de ficar de papo para o ar...
Contei com a ajuda sempre disposta da Izaura Franco e sua R&F Editora, para aumentar o conjunto de títulos. Alguns trabalhos do Nejar, Maria Luisa Ribeiro, da própria Izaura, dentre outros, vieram fazer companhia aos meus “Jantar às 11” e “Tá na rede”, além das duas antologias do Bar do Escritor. Uma coleção bonita de se ver...
Misturando uma vontade de experimentar a venda de livros daquele jeito atuando no corpo-a-corpo, vendendo livros de forma guerrilheira, abordando as pessoas, oferecendo literatura, praticando a arte de escrever de forma física, full contact; respirar os ares do Fica e tomar umas em Goiás, foi que cheguei no sábado, dia 18.
Acompanhavam-me minha namorada, Jenny, e o Giuliano, parceiro de trampo na Agecom. Os dois, é claro, mais preocupados com a festa. Eu, com a festa, mas também com um pezinho no trampo.
Depois de perambular por várias ruas do centro histórico procurando um local para “montar-barraca-mas-sem-ter-uma”, arranjei um local no meio da feirinha ao lado do coreto e dali busquei meu lugar ao sol. E que sol...
O projeto de venda, em si, ficou devendo. Mais por conta do aviso que ficava rondando toda hora, que a fiscalização poderia recolher os livros a qualquer minuto, daí decidi manter em exposição somente meus livros e alguns do BDE: se fossem grampeados, ia pedir que ao menos os doassem para alguma escola do município. Um preju cultural, por assim dizer. O que não dava era fazer graça com livros dos outros.
Mas os contatos que fiz ali, do pessoal que passou por lá e outros como o Mozart Fialho, da Trama do Cerrado, camisetas e outros trampos muito visu, que estava com uma banca ao lado e foi de uma simpatia sem limites, dando inclusive as dicas de como estava o local e o que poderia rolar no caso de fiscal baixar, maneiríssimo.
Depois da feira, o lance foi curtir mesmo. Já que tava na roda, o jeito foi sambar. E rolou muito samba, muita passeata e alguma cachaça. Ou seria muita cachaça e alguma passeata? Bom, a verdade é que achei meio forçado “Marcha das Vadias” por lá. Mas cada um com seu cada um.
Porém, o que matou a pau mesmo foi o show do Manu Chao. Sonzeira duca, a roupagem, digamos, mais new-heavy-punk-pós-dark-moderno pegou bem para fazer o pessoal pular sem parar naquela madruga friaca na beira do Rio Vermelho. E dá-lhe “Hasta la siempre, Goiás!” O cara não arredava pé do palco e o povo não saía da frente dele. Foram uns bons 40 minutos de “tchaus”, "Gracias por la oportunidad", “Até logos” e “Adiós”. Particularmente curti demais.
Gostaria inclusive de agradecer à alma abençoada que jogou uma garrafa de Passport na faixa. E foi-se o frio...
Ficou na cuca a vontade de repetir a dose durante o feriadão que se aproxima, buscar outros ares, como os de Piri, talvez e tentar novamente a sorte. Vai que cola?
Então vamos passear no parque, enquanto a Flip não vem...
P.S. Ia esquecendo de dizer do Acampamento Jatobá, do Sr. Eurípedes, gente finíssima. Lugar muito agradável, praticamente dentro da cidade, a uns 300 metros do Posto Sota. Depois falarei mais disso, se matar a vontade de ficar de papo para o ar...
08 fevereiro 2011
CLUBE(S) DOS CANALHAS
"Não peço, imediatamente por nenhum governo,
mas imediatamente desejo um governo melhor"
Henry David Thoreau – A Desobediência Civil
.
“Vai chegar de madrugada e ela vai querer saber / onde foi, aonde esteve, o que foi fazer”... Esses são os versos iniciais de um dos maiores sucessos da banda carioca Matanza. A letra é uma espécie de manual para os cafajestes de plantão se darem bem com a vida dupla que levam.
Mas, observando à fundo outras partes da música, percebe-se que cai como uma luva para os nossos queridos e diletos representantes políticos. Senão vejamos:
“...Mas à todas as perguntas sabe responder / tem um plano A e tem um plano B”... Quem acompanha o mínimo do noticiário político sabe o quanto algumas declarações dos envolvidos em diversos episódios grotescos dentro do establishment são estapafúrdias: de ambulâncias superfaturadas a dinheiro na cueca, muita coisa teve que ser (mal) explicada. Basta lembrar de uma das várias CPI´s pizzaiolas que tivemos, o interrogado limitou-se a repetir mecanicamente “não tenho nada a declarar” a cada uma das perguntas. Mais de uma dezena de vezes.
“Se você nunca se contradiz / não abre mão do que te faz feliz...” A bem da verdade, algumas contradições são até benéficas para os depoentes, afinal, como diriam lá pelos idos de 30 (em uma Alemanha totalmente diferente da atual):“Uma mentira contada várias vezes acaba por tornar-se verdade”. É o lema da nossa geração política.
“Se nada abala a tua paz / já nasceu sabendo como é que se faz / e tudo segue do jeito que sempre quis...” A partir do momento que o cidadão brasileiro decide na política nacional, o faz primariamente para satisfação pessoal, nem tanto para contribuição coletiva e crescimento da sociedade como um todo, é levar a expressão “tivesse lá também roubava” ao pé da letra! Sendo assim, ao ingressar nos certames políticos, já o faz de caso (e conchavos) pensado.
“Temos mais um sócio no Clube dos Canalhas...” Esta deveria ser, em suma, a recepção a qualquer novo membro de partido político nacional, pois nenhuma das siglas se salva da titanomaquia que grassa a vida pública: há espoliadores do tesouro nacional à esquerda, direita, centro, abaixo ou acima de tudo quanto é cenário político. Nenhuma das agremiações pode se dar ao luxo de dizer que pode “atirar a primeira pedra”; o próprio telhado de vidro impede a ação.
Há de continuar assim, enquanto os partidos não forem co-responsáveis pelas ações de seus afiliados. Deve-se adicionar que quando a dita ação é boa, como a construção de algum bem comum, o partido faz questão de se alinhar ao lado do candidato da hora, o político que estava na hora certa e no local exato para colher os louros da vitória conquistada com o empenho de todos (via impostos pagos pela população, alheia ao direito de receber em obras aquilo que paga em tributos). No entanto, quando é o caso de se pegar o mesmo elemento (o político) com a mão na botija pública, o partido até que tenta defender o meliante, conquanto a coisa não comece a ‘feder’ acima do habitual ou naqueles casos raros onde não há habeas corpus suficientes para livrar o dito cujo das grades. Aí expulsa-se o aloprado (para usar uma expressão recente) com a condição do mesmo não dar com a língua nos dentes nem entregar um número de companheiros acima do permitido. E segue a vida como se nada houvesse acontecido.
Nossos partidos são, de mamando à caducando, conjuntos vazios de moral e repletos de erros. Pode-se ingressar sem qualquer preocupação latente com o passado cível ou criminal, na maior das caras duras. Do contrário não haveria tantos parlamentares com listagens quilométricas de processos correndo em estado quase vegetativo nas várias instancias do justiça-jabuti-tupiniquim.
“E não aceitamos que apontem nossas falhas...” É o desejo de qualquer Estado em estado de apodrecimento moral: controlar o que se diz ou que se pensa dele. Controle de sua imagem e semelhança, como se fosse um deus da consciência coletiva ou o ídolo das massas. Coisa que qualquer governo totalitário rapidamente se emprenha em conseguir, para o bem de seus próprios propósitos. Viu-se a luz amarelar neste quesito recentemente quando o TSE, por meio da resolução 23.191/2009, proibiu o uso do humor que “degrade ou ridicularize candidato, partido ou coligação”. Oras, os que deveriam se precaver disso seriam justamente os candidatos, partidos ou coligações, não se metendo em situações que se assemelhem a qualquer ato que degrade ou ridicularize eles próprios. Então, como qualificar de outra coisa que senão hilária a prisão de um elemento com dinheiro na cueca? A coisa só não é mais cômica pela seriedade que é o desvio do erário.
“...queremos tudo isso que a vida tem de bom”... Segundo o Transparência Brasil, o Congresso Brasileiro é o mais caro em um conjunto de sete países, sendo que quatro deles são de primeiro mundo, como Estados Unidos e Inglaterra. Além dos altos valores de seus vencimentos (incluindo-se aí, juntamente com os salários, algumas gratificações como auxílio terno, telefone e moradia), alguns mimos como as verbas de gabinete, passagens, representação, além de dois subsídios: um no começo e outro no fim do ano que correspondem efetivamente a um 14º e 15º salários. Uma bocada nada desprezível, se fosse só este o dano das traças públicas (os elevados gastos que a máquina corporativa demanda), até que seria um pequeno preço para os bolsos da nação, o pior é que ainda inventam de aumentar seus rendimentos com relações espúrias com o dinheiro dos outros. E dá-lhe corrupção porque já que o bem é público, a todos pertence.
“Farra, prá tudo é um bom remédio...” Que o digam as farras das passagens, do patrimônio da União, da utilização de veículos por parentes, amigos e até animais. O trem da alegria nunca pode parar.
“...Só um idiota completo morre de tédio / queremos tudo isso que a vida tem de bom...” Há quase cem anos um dos maiores parlamentares brasileiros (senão o maior deles), Rui Barbosa, já vaticinava a pobreza moral que imperaria nos meios políticos nacionais e, porque não dizer, em toda a sociedade: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”
“Sabe o quanto é importante não dar muita explicação / não há nada de extraordinário na situação...” Alguém já viu um político que seja, responder de forma clara e precisa, sem rodeio algum, à qualquer acusação de má versação de recursos ou desvio de dinheiro público? Isso quando se predispõem à responder... E a sociedade brasileira, já desgastada por demais com o (baixíssimo) nível de nossos parlamentares, nem se assusta mais com os novos modelos e formatos das maracutaias de “seus representantes”.
“...o segredo do sucesso é a moderação / ter um dia sim e ter um dia não”... É aí onde a letra da música se distancia novamente da ação dos políticos nacionais. Para eles, todo dia é dia de feira, de festa, de fazer uma vaquinha com o dinheiro dos outros e de autofinanciar o próprio pé de meia. Se roubassem, digamos, nas segundas e sextas-feiras, já seria um avanço na corrupção brasileira: é que nestes dias não há expediente em Brasília...
10 janeiro 2011
Banho de Sol
Imagine um hipotético dia ensolarado em uma penitenciária qualquer. Vai lá que um futebolista com a singela alcunha, também hipotética, de "Nordeste da África" está ali tomando seu merecido banho de sol. Vai que aparece outro futebolista, cujo nome perdeu-se dentro do uniforme laranja (antes já foi de cores bem mais vistosas). Hoje responde pelo número 03854. Há um diálogo:
- E aí, beleza?
- Tranquilo, uai.
- Como vai a vida?
- Ah, o mesmo de sempre. Tribunal, cadeia, julgamento, essas coisas...
- Acusação?
- Dizem pro aí que mandei apagar uma ex, picotá-la em pedacinhos, dar aos cachorros, desaparecer com os restos, só para não pagar pensão. E você?
- Tão falando que forjei um sequestro relâmpago, só por conta de atraso na reapresentação no clube... Essas coisas...
Seguem seus caminhos, cada um para sua cela.
- Puta cara burro! Era só dar um troco para a maria-chuteira que resolvia tudo!
- Eita mané do caralho! Era só matar o treinador, picotá-lo em pedacinhos, dar aos cachorros... Essas coisas...
- E aí, beleza?
- Tranquilo, uai.
- Como vai a vida?
- Ah, o mesmo de sempre. Tribunal, cadeia, julgamento, essas coisas...
- Acusação?
- Dizem pro aí que mandei apagar uma ex, picotá-la em pedacinhos, dar aos cachorros, desaparecer com os restos, só para não pagar pensão. E você?
- Tão falando que forjei um sequestro relâmpago, só por conta de atraso na reapresentação no clube... Essas coisas...
Seguem seus caminhos, cada um para sua cela.
- Puta cara burro! Era só dar um troco para a maria-chuteira que resolvia tudo!
- Eita mané do caralho! Era só matar o treinador, picotá-lo em pedacinhos, dar aos cachorros... Essas coisas...
04 janeiro 2011
O Outro
Sou outro, outra vez
refletido em um rosto que não reconheço
não sei onde me encontro
não sei qual é o preço
da sanidade que não controlo
da ingenuidade que me consola
da concordância com o mundo
ou da revolta que ainda guardo
há na mente tantos quartos !
Tantas lembranças, tantos fardos
mas vou à luta novamente
erguendo-me da lona
onde atirado estava
no fundo da minha vala
que cavei para me defender
dos assaltos ao coração
da covardia e da traição
da minha própria condenação !
sem defesa e sem juiz
me acuso continuamente
por teimar em ser feliz
por sorrir serenamente
enquanto o caos me consumia
levando os socos ainda sorria
fingindo ser tão poderoso
inatingível e inalcançável
Era outro eu que se valia
da bravura e covardia
que dissimuladamente exibia
Estóico !
era o brado que retumbava
nos caminhos que passava
Heróico !
feitos meus que não contei
que nem mesmo acreditei
terem sido obras minhas...
Mas isso é passado de um outro
que guardo longe dos olhares
e me acompanha aos lugares
sem ser visto por ninguém...
Mesmo comigo ele insiste
quer provar que ainda existe
quer provar que é alguém
refletido em um rosto que não reconheço
não sei onde me encontro
não sei qual é o preço
da sanidade que não controlo
da ingenuidade que me consola
da concordância com o mundo
ou da revolta que ainda guardo
há na mente tantos quartos !
Tantas lembranças, tantos fardos
mas vou à luta novamente
erguendo-me da lona
onde atirado estava
no fundo da minha vala
que cavei para me defender
dos assaltos ao coração
da covardia e da traição
da minha própria condenação !
sem defesa e sem juiz
me acuso continuamente
por teimar em ser feliz
por sorrir serenamente
enquanto o caos me consumia
levando os socos ainda sorria
fingindo ser tão poderoso
inatingível e inalcançável
Era outro eu que se valia
da bravura e covardia
que dissimuladamente exibia
Estóico !
era o brado que retumbava
nos caminhos que passava
Heróico !
feitos meus que não contei
que nem mesmo acreditei
terem sido obras minhas...
Mas isso é passado de um outro
que guardo longe dos olhares
e me acompanha aos lugares
sem ser visto por ninguém...
Mesmo comigo ele insiste
quer provar que ainda existe
quer provar que é alguém
19 junho 2010
Dos ofícios, ofídicos e seus males
− Profissão?
− Escritor.
A mulher, ao lado, resolve agir. Até então não havia dito nada, enquanto ele respondia ao check-in do hotelzinho de beira de estrada:
− Como assim, “escritor”?
− Ué, escritor, aquele que escreve.
− E de onde você tira que é escritor, imprestável?
− Bom, eu escrevo, daí sou escritor.
− Não, eu tô dizendo de quem escreve para valer!
− Mas eu “escrevo para valer”. Já até publiquei livro, fiz lançamento...
− Mas isso vale para quem vive disso, seu burro! Quem ganha dinheiro.
− Filha, a grana para esta viagem tu acha que saiu de onde? Do coelhinho da páscoa?
Sem graça com o desenrolar cotidiano, caseiro, conjugal e caótico à sua frente, o atendente arrisca:
− Desculpe senhor, é que...
− E você, cale-se! – a mulher lançou-lhe o famoso olhar de caninana preparando o bote. Retomou a carga dando as costas para o pobre − Estou falando de dinheiro de verdade, para comprar casa, bancar feira do mês, pagar energia, telefone, mandar os filhos estudarem na Suíça, tirar carro do ano, férias na Europa...
− Uai, mas nós estamos de férias!
− Eu tô falando de férias na Europa, não em Cachimbó do Aterro, energúmeno! Além do que, você “vive de férias” com esse “negócio de livro”...
− Querida, veja bem...
− Veja bem é o escambáu! Não me venha com essa retórica de “comunidade de escritor”! − Apertava-o devagarinho, tal sucuri faminta a bezerro gordo. Suspirou, olhou ao céu, agradeceu a providência divina pela paciência. Se a substituísse pela força, já era.
− Amor da minha vida, não se constrói uma carreira literária do dia para noite. Tudo tem um caminho a ser seguido, entende?
− Eu entendo é que esse parangolé aí não dá camisa.
− Benzinho, tudo tem seu tempo.
− Seu tempo nada! Tinha mais é que arranjar um trabalho de verdade, um emprego de salário-mês e aí sim, usar do tempo livre para fazer essas coisinhas.
− Bom, aí seria um hobby, não uma profissão.
− E quem disse que isso é profissão? Ta maluco? Profissão de verdade é aquela com diploma, certificado. È médico, engenheiro, advogado.
− Meu bem, é um tipo diferente de profissional, mas é uma ocupação válida sim. Não sai das faculdades em “produção de linha” como os outros, mas um escritor, basicamente, se cria. Tem que ler muito, decifrar os códigos, estruturar um estilo, se apoderar das letras e construir mundos. Enquanto se formam milhares de advogados e médicos por ano, dentro dos parâmetros estipulados, um escritor tem que ser lapidado, exercitado, tarimbado, entende? É sim, uma profissão, sendo que até é reconhecida pelo Ministério do Trabalho. Número 2615 do Código Brasileiro de Ocupação (do 05 ao 30): Autor-roteirista, crítico, escritor de ficção, escritor de não ficção, poeta, redator de textos técnicos...
− Isso é desculpa de quem não quer trabalhar. Vai me dizer que você faz isso tudo aí.
− Não, querida. Sou um escritor de ficção, que pode ser contista, cronista de ficção, dramaturgo, ensaísta de ficção, escritor de cordel, de folhetim, estórias em quadrinho, novela de rádio, de televisão, obras educativas de ficção, fabulista, folclorista de ficção, novelista (escritor), prosador, romancista... Bom, isso é quando eu to sóbrio, porque quando tomo umas, cometo uns poemas, prá lá de etílicos.
− To sabendo, isso é desculpa sua para não fazer nada e ainda encher a cara.
− Fazer o quê, se o “desregramento dos sentidos é a melhor via para o desconhecido”, como diria Rimbaud, o doce maldito...
− Quem é esse tal de Rambo? É outro desses imprestáveis que andam contigo nos botecos? Deve ser né, porque até você xinga o cara de “maldito”!
− Bom, é que... De certo modo... Ah, deixa prá lá.
− Ta vendo? Falo sempre que esse negócio de escritor é fachada para ficar de pernas por ar!
− Mas querida, se eu não investir na carreira, dedicar meu tempo, como posso fazer algo que valha à pena? Como posso ser sincero com minhas escritas se não as levo a sério? Se não aplico meus esforços para estruturar minha obra, fazer pesquisas, estudar outras vertentes da escrita, aprimorar minha técnica, enfim, fazer algo que seja ao mesmo tempo instrutivo, literário, divertido, questionador... Em um país como o nosso, que tudo o que se faz pela cultura ainda é pouco, nós, os artistas, temos que ter o triplo de esforços que os outros segmentos. Temos que nos lançar de cabeça, dar a cara à tapa, sofrer privações, escutar provocações, para tentar alcançar um lugarzinho ao sol que seja...
O atendente, não percebendo o momento do discurso, ainda arrisca:
− Senhor, eu preciso que...
− Calma aí, já chego em você. Onde estariam os grandes nomes da música brasileira se, ao primeiro sinal de contratempo tivessem jogado tudo para o ar e desistido? Se o Joaquim Maria não desse voz ao Machado de Assis? Se o Antônio Renato, advogado, não tivesse dado vida ao Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbbo, deixasse o Ceará e ganhasse o mundo? Que fim teria o Angenor não se transvertesse em Cartola? O que seria de Pelé se tivesse desistido da bola?
− Isso não é para você. Não tem o talento necessário – Jurou ter visto a peçonha dela escorrendo no canto da boca. E um guizo simbilando no ar, cortando os ouvidos, lenta e mecanicamente, um momento hitchcockiano de tensão tomando corpo. Ainda tentou devolver um sorriso.
− Talvez você esteja certa. Mas eu tenho ao menos que tentar. Fazer algo de belo, ao invés de só correr atrás do vil metal. Criar, produzir, interagir.
− Isso não dá camisa. E nunca vai mudar.
− “A gente muda o mundo na mudança da mente. E quando a mente muda, a gente anda pra frente, e quando a gente manda ninguém manda na gente.”
− Neste mundo há um mar de pessoas e você é somente uma gota no oceano.
− Pode até ser, mas sou a gota revoltada...
− Você já teve uma ocupação de gente na vida, não?
− Claro...
− Quer saber, por mim pode ir à merda com essa palhaçada de escritor, artista, o que for! Eu é que não vou ficar presa a um sem futuro como você − rodopiou nos calcanhares e serpenteava porta afora quando estacou de repente, decidida a dar um fim tanto no assunto quanto no relacionamento − Se fosse tão esperto quanto parece, deixava esse negócio de lado e voltava a fazer o que fazia antes. Afinal, o que você fazia antes, seu porcaria?
O homem, honrando as calças e as palavras, abaixou-se incontinenti, abriu a mala, sacou algo de lá, apontou para a cara da cara metade e disparou. O verbo e a bala, duas vezes. Ficou olhando para a ficha, enquanto o recepcionista marmóreo do outro lado do balcão pedia aos céus que o chão se abrisse e o levasse para longe dali. O homem tomou da caneta e reformou a ocupação.
− Profissão, matador de aluguel – virou-se para o rapaz, explicativo − Pronto, agora eu quero ver alguém reclama, né? Eu mato a cobra e mostro o 38...
− Escritor.
A mulher, ao lado, resolve agir. Até então não havia dito nada, enquanto ele respondia ao check-in do hotelzinho de beira de estrada:
− Como assim, “escritor”?
− Ué, escritor, aquele que escreve.
− E de onde você tira que é escritor, imprestável?
− Bom, eu escrevo, daí sou escritor.
− Não, eu tô dizendo de quem escreve para valer!
− Mas eu “escrevo para valer”. Já até publiquei livro, fiz lançamento...
− Mas isso vale para quem vive disso, seu burro! Quem ganha dinheiro.
− Filha, a grana para esta viagem tu acha que saiu de onde? Do coelhinho da páscoa?
Sem graça com o desenrolar cotidiano, caseiro, conjugal e caótico à sua frente, o atendente arrisca:
− Desculpe senhor, é que...
− E você, cale-se! – a mulher lançou-lhe o famoso olhar de caninana preparando o bote. Retomou a carga dando as costas para o pobre − Estou falando de dinheiro de verdade, para comprar casa, bancar feira do mês, pagar energia, telefone, mandar os filhos estudarem na Suíça, tirar carro do ano, férias na Europa...
− Uai, mas nós estamos de férias!
− Eu tô falando de férias na Europa, não em Cachimbó do Aterro, energúmeno! Além do que, você “vive de férias” com esse “negócio de livro”...
− Querida, veja bem...
− Veja bem é o escambáu! Não me venha com essa retórica de “comunidade de escritor”! − Apertava-o devagarinho, tal sucuri faminta a bezerro gordo. Suspirou, olhou ao céu, agradeceu a providência divina pela paciência. Se a substituísse pela força, já era.
− Amor da minha vida, não se constrói uma carreira literária do dia para noite. Tudo tem um caminho a ser seguido, entende?
− Eu entendo é que esse parangolé aí não dá camisa.
− Benzinho, tudo tem seu tempo.
− Seu tempo nada! Tinha mais é que arranjar um trabalho de verdade, um emprego de salário-mês e aí sim, usar do tempo livre para fazer essas coisinhas.
− Bom, aí seria um hobby, não uma profissão.
− E quem disse que isso é profissão? Ta maluco? Profissão de verdade é aquela com diploma, certificado. È médico, engenheiro, advogado.
− Meu bem, é um tipo diferente de profissional, mas é uma ocupação válida sim. Não sai das faculdades em “produção de linha” como os outros, mas um escritor, basicamente, se cria. Tem que ler muito, decifrar os códigos, estruturar um estilo, se apoderar das letras e construir mundos. Enquanto se formam milhares de advogados e médicos por ano, dentro dos parâmetros estipulados, um escritor tem que ser lapidado, exercitado, tarimbado, entende? É sim, uma profissão, sendo que até é reconhecida pelo Ministério do Trabalho. Número 2615 do Código Brasileiro de Ocupação (do 05 ao 30): Autor-roteirista, crítico, escritor de ficção, escritor de não ficção, poeta, redator de textos técnicos...
− Isso é desculpa de quem não quer trabalhar. Vai me dizer que você faz isso tudo aí.
− Não, querida. Sou um escritor de ficção, que pode ser contista, cronista de ficção, dramaturgo, ensaísta de ficção, escritor de cordel, de folhetim, estórias em quadrinho, novela de rádio, de televisão, obras educativas de ficção, fabulista, folclorista de ficção, novelista (escritor), prosador, romancista... Bom, isso é quando eu to sóbrio, porque quando tomo umas, cometo uns poemas, prá lá de etílicos.
− To sabendo, isso é desculpa sua para não fazer nada e ainda encher a cara.
− Fazer o quê, se o “desregramento dos sentidos é a melhor via para o desconhecido”, como diria Rimbaud, o doce maldito...
− Quem é esse tal de Rambo? É outro desses imprestáveis que andam contigo nos botecos? Deve ser né, porque até você xinga o cara de “maldito”!
− Bom, é que... De certo modo... Ah, deixa prá lá.
− Ta vendo? Falo sempre que esse negócio de escritor é fachada para ficar de pernas por ar!
− Mas querida, se eu não investir na carreira, dedicar meu tempo, como posso fazer algo que valha à pena? Como posso ser sincero com minhas escritas se não as levo a sério? Se não aplico meus esforços para estruturar minha obra, fazer pesquisas, estudar outras vertentes da escrita, aprimorar minha técnica, enfim, fazer algo que seja ao mesmo tempo instrutivo, literário, divertido, questionador... Em um país como o nosso, que tudo o que se faz pela cultura ainda é pouco, nós, os artistas, temos que ter o triplo de esforços que os outros segmentos. Temos que nos lançar de cabeça, dar a cara à tapa, sofrer privações, escutar provocações, para tentar alcançar um lugarzinho ao sol que seja...
O atendente, não percebendo o momento do discurso, ainda arrisca:
− Senhor, eu preciso que...
− Calma aí, já chego em você. Onde estariam os grandes nomes da música brasileira se, ao primeiro sinal de contratempo tivessem jogado tudo para o ar e desistido? Se o Joaquim Maria não desse voz ao Machado de Assis? Se o Antônio Renato, advogado, não tivesse dado vida ao Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Mufumbbo, deixasse o Ceará e ganhasse o mundo? Que fim teria o Angenor não se transvertesse em Cartola? O que seria de Pelé se tivesse desistido da bola?
− Isso não é para você. Não tem o talento necessário – Jurou ter visto a peçonha dela escorrendo no canto da boca. E um guizo simbilando no ar, cortando os ouvidos, lenta e mecanicamente, um momento hitchcockiano de tensão tomando corpo. Ainda tentou devolver um sorriso.
− Talvez você esteja certa. Mas eu tenho ao menos que tentar. Fazer algo de belo, ao invés de só correr atrás do vil metal. Criar, produzir, interagir.
− Isso não dá camisa. E nunca vai mudar.
− “A gente muda o mundo na mudança da mente. E quando a mente muda, a gente anda pra frente, e quando a gente manda ninguém manda na gente.”
− Neste mundo há um mar de pessoas e você é somente uma gota no oceano.
− Pode até ser, mas sou a gota revoltada...
− Você já teve uma ocupação de gente na vida, não?
− Claro...
− Quer saber, por mim pode ir à merda com essa palhaçada de escritor, artista, o que for! Eu é que não vou ficar presa a um sem futuro como você − rodopiou nos calcanhares e serpenteava porta afora quando estacou de repente, decidida a dar um fim tanto no assunto quanto no relacionamento − Se fosse tão esperto quanto parece, deixava esse negócio de lado e voltava a fazer o que fazia antes. Afinal, o que você fazia antes, seu porcaria?
O homem, honrando as calças e as palavras, abaixou-se incontinenti, abriu a mala, sacou algo de lá, apontou para a cara da cara metade e disparou. O verbo e a bala, duas vezes. Ficou olhando para a ficha, enquanto o recepcionista marmóreo do outro lado do balcão pedia aos céus que o chão se abrisse e o levasse para longe dali. O homem tomou da caneta e reformou a ocupação.
− Profissão, matador de aluguel – virou-se para o rapaz, explicativo − Pronto, agora eu quero ver alguém reclama, né? Eu mato a cobra e mostro o 38...
08 maio 2010
O Desafio do Galopeiro bêbado da beira do rio cantador
O espécie humana encontrou nas artes um dos catalisadores para exportar suas emoções e fazer florescer algo de tocante e sincero. O nome “Arte” vem do latim Ars, que significa técnica ou habilidade. Pela própria definição do nome percebe-se que não é tão simples quanto parece ser.
Era nisso que pensava eu, vivendo a tarde modorrenta e naquela seca de dar nó em pingo de pinga. Pensei em fazer algo de útil, tipo ajudar a ajeitar as coisas no mundo ou então lutar em prol de algo nobre e valioso. Algo que inspirasse as próximas gerações e fizesse com que a vida neste planeta tivesse verdadeiro sentido, levasse o nome do homem até a vigésima potência estelar ou marcasse a passagem humana na Terra de alguma forma. Mas essa vontade passou rápido e, como de costume, decidi ir para o Bar. “Uma cerveja antes do almoço é muito bom, prá ficar pensando melhor”, mas uma, três ou vinte depois do jantar é melhor ainda. A matemática nunca é uma ciência exata quando se trata de biritar.
Adentrei o BDE de forma irresponsavelmente incauta (é sempre bom estar com as orelhas em pé, vai que ta rolando um barraco ou outro?), quando dei de cara com um enorme ringue, daquele tipo mezzo Caesar´s Palace, mezzo Academia do Maguila. Reconheci alguns dos presentes, mas havia alguns rostos que, apesar de perceber ser a primeira vez que os via ali, tinham um quê estranho de conhecidos de muito tempo.
− Eita ferro. Será que a pancadaria agora vai ser institucionalizada?
− É o “Desafio do Galopeiro bêbado da beira do rio cantador” – Um zumbi de dois metros e meio (talvez três, medir os outros depois de tomar umas e outras não é um dos meus fortes), explicava o que acontecia.
− Mas, o que é isso?
− Bom, desafio porque alguém ta desafiando alguém. Óbvio. Galopeiro porque vai ter que galopar em alguma coisa, nem que seja na mesa. Bêbado porque tem que ir bebendo algo. A beira do rio cantador é que não sei bem para o que serve... Mas deixa o nome mais chique, não?
− É, pode ser.
Ajudou-me a levantar e nem bem estava pronto, me empurrou ringue adentro:
− Vai lá, a coisa é bem simples.
− Mas, mas o que eu faço?
− Sabe decassílabo, sáfico, gaita galega?
− Bom, conheço a Ritinha, que é uma galega das coxas grossas que...
− Então cala a boca e vai de prosa mesmo.
Olhei para o outro corner, o cara fazia uma cara estranha, com um protetor de mandíbula preto, daquele do Ivan Drago no Rocky IV, puro pesadelo, enquanto rosnava umas redondilhas com extrema maestria. Lembrei do que disse o Scliar: “Nunca cometi um poema na vida”. Merda... Eu já cometi alguns. Mas nada assim, metrificado, com swing e pendulo. Como enfrentar esses pesos pesados do verso? Tentei pensar em um dos grandes versadores da língua pátria, tipo faixa preta 50º Dan. Só saiu um e era gringo. Fernando Pessoa: “Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado / Para fora da possibilidade do soco”. Poema em linha reta, diretamente no nariz. Isso vai doer e não vai ser pouco...
Havia outro cabeludo no ringue, de costas. Uma espiada e vi a fuça do fulano. Olha lá, se não era o velho Dickinson:
− E aí, Bruce, que ta fazendo aqui?
− Tomando chá das cinco, palerma. Não vê que sou o juiz dessa porra?
− Mas peraí. Essa parada não é uma disputa poética?
− Sou músico. Poesia e música tem tudo a ver, “bloody bastard”!
O português do gringo me deixou sem palavras. O gongo soou e o aedo do outro lado lançou-se intempestivamente ao ataque.
Versei de leve, tomei um jab. Arrisquei começar um proseado, veio de lá um potente cruzado. Se pega, já era. Pensei em voltar pro rancho, pra não levar um gancho, mas ainda não tinha tomado nem dois goles. Nem três golpes...
Comecei a ganhar tempo, tentando salvar o que sabia de poesia da época da faculdade. Mas o catzo da coisa é que enquanto tava rolando as aulas de escansão e cositas más, aproveitei o tempo no Bar da Tia, praticando Sinuca I e II, além de halterocopismo e arremesso de guimba. É, eu to frito, pensei. Mas me ocorreu uma parada: os primeiros poetas recitavam os feitos de deuses e heróis. Daí que eram estórias contadas de maneira versada, mas estórias, mesmo assim. Isso quer dizer que tinha um quê de prosa. Melhor dar um jeito de enrolar e deixar o relógio para rodar. Começava a fazer o jogo de pernas quando alguém do meu corner gritou:
− Cuidado com o hexâmetro espondaico e o quinto pé espondeu!
Dei uma olhada de soslaio e vi que tinha uns caras tentando me dar umas dicas, cada um com um jeito mais diferente que o outro. Bailei para cá e para lá, escapei de vários tercetos, evitei uns quartetos e por fim o barulho metálico me colocou à salvo do primeiro round. Nem bem assentei e me vi cercado por três caras. O primeiro, mais atirado, foi logo falando, enquanto me passava a toalha:
− “Usted tiene” que tentar acertá-lo. É “su” única chance.
− Aí, tua fuça não me é estranha...
− García Lorca, à “su dispor”. Os outros “son” monsieur Mallarmé e mister T.S. Elliot. − Três bambas, primeira categoria, pensei.
− Mas a parada é que eu não sei versar desse jeito.
− “What a fuck”?
− Traduz, doutor.
− “Oura”, “Aprendemos o que é poesia lendo poesia”!
− Tá, eu concordo, mas é que...
O “boing” fez com que fosse lançado de novo no centro do ringue. E dá-lhe correr de martelos heróicos e da métrica clássica. Esquivar e esquivar, eis a única saída. O tempo, ainda bem, parecia passar bem rápido. Mas quando a luva passa rente ao nariz, tudo tem um aspecto meio câmera lenta. Voei para o corner de novo.
− O que você está fazendo?
− Sobrevivendo, chefia.
− “But this is” um absurdo!
− É que sou alérgico à pancada, doutor.
Outro “boing” e olha eu de volta. Em várias voltas, devo admitir. Não parei um só momento. Aliás, até que parei, quando o vocalista do Iron, quer dizer, o juiz, me deu um puxão de orelha:
− “Yeahhh”, falta combatividade. Menos um ponto.
− Melhor um ponto a menos no placar que dois a mais na cara.
− What?
− Deixa prá lá...
Havia sobrevivido até o oitavo round. Como tudo acabaria no décimo, já estava quase lá.
− Porque você “non” acerta ele?
− Falta de molejo poético, saca?
− Veja, “enfant”. Muita gente já tentou definir poesia. Acredito que “ a poesia se faz com palavras, e não com idéias”.
− “Todas as coisas tem o seu mistério, e a poesia é o mistério que todas as coisas tem”. − Lorca estava extremamente exaltado. Por fim Mallarmé retornou, ofídico:
− Acabe com “la resistance” de seu “adversarie” acertando umas tônicas bem no “fígadô” dele – protestei no ato:
− Queisso rapaz. Sei que é uma luta, mas é na brinca. Sou contra esse negócio de acertar a zona hepática. Como bom biritum, sei o quanto isso dói.
− “Oui”, você é quem sabe, “non”? Mas lembre-se daquele ditado sobre valer tudo no amor e na “guerre”.
Aquilo me deixou bem bolado. Até agora estava no lucro, a sorte do meu lado e os reflexos apurados. Mas as goladas de cerveja que tomava à cada intervalo estavam começando a surtir efeito: meus reflexos com certeza não agüentaria muito mais. Eu seria atingido, uma hora ou outra. Era questão de tempo. Foi o tempo do gongo soar de novo. Parti para o ataque, desta vez. Comecei soltando uma lorotinha básica e emendei um direto:
−Aê, já ouviu falar do “verso catatônico”?
−Cuma?!
O verbo entrou direitinho, passou pela porta e a fresta, entrou como quem acaba com festa, entre a beirada da sobrancelha e o meio da testa. Foi pá e bola. “Ta lá um corpo estendido no chão...” Ia virar só comemoração quando o juiz (sempre ele), gritou:
− Golpe baixo! Utilizou-se de um verso heterométrico! Metrificou, mas com grande variação!
Perdi mais um ponto e nem me importei. O importante é que não tinha levado na fuça. Deram um tempo para o outro se ajeitar, fiquei ali, na expectativa, entre o calor da glória e a frieza da vida.
O gongo soou mais uma vez e lá fomos, os dois, arremessados um contra o outro, a cento e sessenta e quatro sílabas por hora. Choque frontal, colisão de carrilhões, tragédia de trem-bala: o impacto foi sentido à mesas de distância. Vôo solene, aterrissagem forçada.
Mas o que ninguém esperava, aconteceu. Knockout Duplo: quando dois pugilistas golpeiam-se simultaneamente. Contagem aberta para ambos os lados, quem se levantasse seria considerado vencedor. A cabeça ainda balançava muito, mas eu comecei a reerguer-me. Do lado adversário veio o sussurro:
− Se ficar no chão, pago a cervejada no botequim.
− Ok, mas com uma porção de salaminho também?
− Meia porção. Mas pode pedir uma dose de pinga.
− Duas doses. E com limão!
− Negócio fechado.
Estiquei-me lá e fiquei vendo o juiz apontar o fim da contagem, a luta foi considerada nula. Aproveitei para pegar a mesa de sempre, no canto do boteco, ao lado do balcão, meio na penumbra. Os três do corner vieram beber comigo, assim como o adversário ferido. Mas o organizador da parada, o zumbi de dois metros e meio, passou jurando:
− Isso não vai ficar assim. Te pego lá fora... − afastou solene, com domínio dos pés, direito e esquerdo.
− “Usted non tienes” medo?
− Agora não – apontei para a prateleira de bebidas – Enquanto aquilo estiver estocado, não pretendo sair tão cedo.
− E quando acabar tudo?
Puxei minha Remington 12 para o lado e disparei:
− Aí eu dou um jeito...
Era nisso que pensava eu, vivendo a tarde modorrenta e naquela seca de dar nó em pingo de pinga. Pensei em fazer algo de útil, tipo ajudar a ajeitar as coisas no mundo ou então lutar em prol de algo nobre e valioso. Algo que inspirasse as próximas gerações e fizesse com que a vida neste planeta tivesse verdadeiro sentido, levasse o nome do homem até a vigésima potência estelar ou marcasse a passagem humana na Terra de alguma forma. Mas essa vontade passou rápido e, como de costume, decidi ir para o Bar. “Uma cerveja antes do almoço é muito bom, prá ficar pensando melhor”, mas uma, três ou vinte depois do jantar é melhor ainda. A matemática nunca é uma ciência exata quando se trata de biritar.
Adentrei o BDE de forma irresponsavelmente incauta (é sempre bom estar com as orelhas em pé, vai que ta rolando um barraco ou outro?), quando dei de cara com um enorme ringue, daquele tipo mezzo Caesar´s Palace, mezzo Academia do Maguila. Reconheci alguns dos presentes, mas havia alguns rostos que, apesar de perceber ser a primeira vez que os via ali, tinham um quê estranho de conhecidos de muito tempo.
− Eita ferro. Será que a pancadaria agora vai ser institucionalizada?
− É o “Desafio do Galopeiro bêbado da beira do rio cantador” – Um zumbi de dois metros e meio (talvez três, medir os outros depois de tomar umas e outras não é um dos meus fortes), explicava o que acontecia.
− Mas, o que é isso?
− Bom, desafio porque alguém ta desafiando alguém. Óbvio. Galopeiro porque vai ter que galopar em alguma coisa, nem que seja na mesa. Bêbado porque tem que ir bebendo algo. A beira do rio cantador é que não sei bem para o que serve... Mas deixa o nome mais chique, não?
− É, pode ser.
Ajudou-me a levantar e nem bem estava pronto, me empurrou ringue adentro:
− Vai lá, a coisa é bem simples.
− Mas, mas o que eu faço?
− Sabe decassílabo, sáfico, gaita galega?
− Bom, conheço a Ritinha, que é uma galega das coxas grossas que...
− Então cala a boca e vai de prosa mesmo.
Olhei para o outro corner, o cara fazia uma cara estranha, com um protetor de mandíbula preto, daquele do Ivan Drago no Rocky IV, puro pesadelo, enquanto rosnava umas redondilhas com extrema maestria. Lembrei do que disse o Scliar: “Nunca cometi um poema na vida”. Merda... Eu já cometi alguns. Mas nada assim, metrificado, com swing e pendulo. Como enfrentar esses pesos pesados do verso? Tentei pensar em um dos grandes versadores da língua pátria, tipo faixa preta 50º Dan. Só saiu um e era gringo. Fernando Pessoa: “Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado / Para fora da possibilidade do soco”. Poema em linha reta, diretamente no nariz. Isso vai doer e não vai ser pouco...
Havia outro cabeludo no ringue, de costas. Uma espiada e vi a fuça do fulano. Olha lá, se não era o velho Dickinson:
− E aí, Bruce, que ta fazendo aqui?
− Tomando chá das cinco, palerma. Não vê que sou o juiz dessa porra?
− Mas peraí. Essa parada não é uma disputa poética?
− Sou músico. Poesia e música tem tudo a ver, “bloody bastard”!
O português do gringo me deixou sem palavras. O gongo soou e o aedo do outro lado lançou-se intempestivamente ao ataque.
Versei de leve, tomei um jab. Arrisquei começar um proseado, veio de lá um potente cruzado. Se pega, já era. Pensei em voltar pro rancho, pra não levar um gancho, mas ainda não tinha tomado nem dois goles. Nem três golpes...
Comecei a ganhar tempo, tentando salvar o que sabia de poesia da época da faculdade. Mas o catzo da coisa é que enquanto tava rolando as aulas de escansão e cositas más, aproveitei o tempo no Bar da Tia, praticando Sinuca I e II, além de halterocopismo e arremesso de guimba. É, eu to frito, pensei. Mas me ocorreu uma parada: os primeiros poetas recitavam os feitos de deuses e heróis. Daí que eram estórias contadas de maneira versada, mas estórias, mesmo assim. Isso quer dizer que tinha um quê de prosa. Melhor dar um jeito de enrolar e deixar o relógio para rodar. Começava a fazer o jogo de pernas quando alguém do meu corner gritou:
− Cuidado com o hexâmetro espondaico e o quinto pé espondeu!
Dei uma olhada de soslaio e vi que tinha uns caras tentando me dar umas dicas, cada um com um jeito mais diferente que o outro. Bailei para cá e para lá, escapei de vários tercetos, evitei uns quartetos e por fim o barulho metálico me colocou à salvo do primeiro round. Nem bem assentei e me vi cercado por três caras. O primeiro, mais atirado, foi logo falando, enquanto me passava a toalha:
− “Usted tiene” que tentar acertá-lo. É “su” única chance.
− Aí, tua fuça não me é estranha...
− García Lorca, à “su dispor”. Os outros “son” monsieur Mallarmé e mister T.S. Elliot. − Três bambas, primeira categoria, pensei.
− Mas a parada é que eu não sei versar desse jeito.
− “What a fuck”?
− Traduz, doutor.
− “Oura”, “Aprendemos o que é poesia lendo poesia”!
− Tá, eu concordo, mas é que...
O “boing” fez com que fosse lançado de novo no centro do ringue. E dá-lhe correr de martelos heróicos e da métrica clássica. Esquivar e esquivar, eis a única saída. O tempo, ainda bem, parecia passar bem rápido. Mas quando a luva passa rente ao nariz, tudo tem um aspecto meio câmera lenta. Voei para o corner de novo.
− O que você está fazendo?
− Sobrevivendo, chefia.
− “But this is” um absurdo!
− É que sou alérgico à pancada, doutor.
Outro “boing” e olha eu de volta. Em várias voltas, devo admitir. Não parei um só momento. Aliás, até que parei, quando o vocalista do Iron, quer dizer, o juiz, me deu um puxão de orelha:
− “Yeahhh”, falta combatividade. Menos um ponto.
− Melhor um ponto a menos no placar que dois a mais na cara.
− What?
− Deixa prá lá...
Havia sobrevivido até o oitavo round. Como tudo acabaria no décimo, já estava quase lá.
− Porque você “non” acerta ele?
− Falta de molejo poético, saca?
− Veja, “enfant”. Muita gente já tentou definir poesia. Acredito que “ a poesia se faz com palavras, e não com idéias”.
− “Todas as coisas tem o seu mistério, e a poesia é o mistério que todas as coisas tem”. − Lorca estava extremamente exaltado. Por fim Mallarmé retornou, ofídico:
− Acabe com “la resistance” de seu “adversarie” acertando umas tônicas bem no “fígadô” dele – protestei no ato:
− Queisso rapaz. Sei que é uma luta, mas é na brinca. Sou contra esse negócio de acertar a zona hepática. Como bom biritum, sei o quanto isso dói.
− “Oui”, você é quem sabe, “non”? Mas lembre-se daquele ditado sobre valer tudo no amor e na “guerre”.
Aquilo me deixou bem bolado. Até agora estava no lucro, a sorte do meu lado e os reflexos apurados. Mas as goladas de cerveja que tomava à cada intervalo estavam começando a surtir efeito: meus reflexos com certeza não agüentaria muito mais. Eu seria atingido, uma hora ou outra. Era questão de tempo. Foi o tempo do gongo soar de novo. Parti para o ataque, desta vez. Comecei soltando uma lorotinha básica e emendei um direto:
−Aê, já ouviu falar do “verso catatônico”?
−Cuma?!
O verbo entrou direitinho, passou pela porta e a fresta, entrou como quem acaba com festa, entre a beirada da sobrancelha e o meio da testa. Foi pá e bola. “Ta lá um corpo estendido no chão...” Ia virar só comemoração quando o juiz (sempre ele), gritou:
− Golpe baixo! Utilizou-se de um verso heterométrico! Metrificou, mas com grande variação!
Perdi mais um ponto e nem me importei. O importante é que não tinha levado na fuça. Deram um tempo para o outro se ajeitar, fiquei ali, na expectativa, entre o calor da glória e a frieza da vida.
O gongo soou mais uma vez e lá fomos, os dois, arremessados um contra o outro, a cento e sessenta e quatro sílabas por hora. Choque frontal, colisão de carrilhões, tragédia de trem-bala: o impacto foi sentido à mesas de distância. Vôo solene, aterrissagem forçada.
Mas o que ninguém esperava, aconteceu. Knockout Duplo: quando dois pugilistas golpeiam-se simultaneamente. Contagem aberta para ambos os lados, quem se levantasse seria considerado vencedor. A cabeça ainda balançava muito, mas eu comecei a reerguer-me. Do lado adversário veio o sussurro:
− Se ficar no chão, pago a cervejada no botequim.
− Ok, mas com uma porção de salaminho também?
− Meia porção. Mas pode pedir uma dose de pinga.
− Duas doses. E com limão!
− Negócio fechado.
Estiquei-me lá e fiquei vendo o juiz apontar o fim da contagem, a luta foi considerada nula. Aproveitei para pegar a mesa de sempre, no canto do boteco, ao lado do balcão, meio na penumbra. Os três do corner vieram beber comigo, assim como o adversário ferido. Mas o organizador da parada, o zumbi de dois metros e meio, passou jurando:
− Isso não vai ficar assim. Te pego lá fora... − afastou solene, com domínio dos pés, direito e esquerdo.
− “Usted non tienes” medo?
− Agora não – apontei para a prateleira de bebidas – Enquanto aquilo estiver estocado, não pretendo sair tão cedo.
− E quando acabar tudo?
Puxei minha Remington 12 para o lado e disparei:
− Aí eu dou um jeito...
10 abril 2010
Salve Geral
Greve Geral
Planeta: Terra. Cidade: Goiânia. Como em todas as metrópoles deste planeta, Goiânia se acha hoje em desvantagem em sua luta contra um dos maiores inimigos do homem: o pentelho. E, apesar dos esforços das autoridades de todo o mundo, pode chegar um dia em que a terra, o ar e as águas estejam infestadas das mais diversas formas de pentelhos: os panfletários de diversas siglas, os reclamantes do meio ambiente,os entregadores de panfletos, movimentos de diversas formas e modelos ou os chatos que são chatos só pelo prazer que isso lhes causa. Com ou sem uma causa válida. Quem poderá intervir? Spectreman?(1)
Segunda feira, passava da uma da tarde e eu sentado no boteco ao lado do Centro Administrativo. Até aí nada de anormal: tava rebatendo uma ressaca monstra. Ficava ali vendo o rodízio de passeatas reclamando de uma ou outra coisa: primeiro havia vindo os atendentes de cartório, depois os bancários e logo em seguida uma grande passeata de professores da rede estadual; estão sempre entre os mais pendurados. Entre uma greve e outra, aparecia um movimento disto ou daquilo: sem-terra, sem-moradia, sem camisa, sem calça, sem vergonha, sem isso, sem aquilo. Eu devia estar com uma cara pra lá de gozada, pois volta e meia alguém mandava uma frase de ordem para o meu lado:
− Você aí parado, também é explorado!
Errado. Eu aqui parado, tô ficando é chapado, pensei.
− O povo, unido, jamais será vencido!
Ta, diga isso para as grandes corporações e os grupos bancários... − Caminhando e cantando e seguindo a canção...
Sempre tem um mané para tirar a porra dessa música. Será que não cansam?
Foi então que reconheci uma voz no meio da multidão:
− Juliano Werneck, ainda entregue aos prazeres da Baco?
− Poisé, Professor Birowski. Não dizem que a vida é feita de momentos? Os meus são quase todos aqui, no meio das garrafas.
− Junte-se a nós e exerça seu direito de cidadão, proteste!
− Vão abaixar o preço da breja?
− Não que eu saiba; a coisa aqui é mais pela política.
− Entonces, tô fora.
− “O pior de todos os analfabetos é o analfabeto político”.
Ai, meu saco: Brecht(2) debaixo de uma lua dessas é de estourar as bolas...
− E a pior de todas as sedes é a etílica, professor. Deixa a reclamança de lado e vambora chapar o côco!
− Você, como um representante da classe literária tinha que se engajar mais, defender alguma causa, algum movimento.
− Sou do Movimento dos Sem Movimento. Qualquer lugar para encostar e tomar uma é meu reino; toda mesa de bar é meu campo e o balcão é o melhor exemplo da socialização da humanidade: ali estão lado a lado a direita e a esquerda, o rico e o pobre, o empregado e o patrão e por aí vai...
Fechei os olhos por um instante, a tarde estava estupidamente brilhante naquele momento. Clima perfeito para uma pestana, pensei.
Foi o bastante para um grupo de uns quinze ou vinte manifestantes abordarem o botequim:
− Nós somos do Movimento dos Sem Cerveja. Vamos desapropriar toda essa bebida pequeno-burguesa!
Meu apitinho cívico tocou na hora: na gelada ninguém bota a mão! Nada contra dividir o pão, mas daí para bicar da minha garrafa, há uma enorme distância.
− E quem disse que a cerveja é uma bebida de elite? – protestei, mas intimamente meio que concordando com os caras: com o preço que a loirinha ta, mais fácil e barato tomar pinga ou catuaba, as campeãs das biroscas de subúrbio. Mas tinha que defender meu suco de cevada. Aprontei o gogó e comecei a aula de história:
− Tipo uns 10 mil anos, conforme os cervejeiros mais antigos e ainda não afetados pela cirrose, os homens descobriram, meio na cagada, meio na preguiça, que aquela parada de deixar um monte de cereais jogados em um lugar qualquer acabava fermentando e virando uma pasta que dava para fazer uma espécie esquisita de bolo. Vai daí que uns caras de um lugar das antigas chamado Mesopotâmia, inventaram de tomar uns goles da garapa que sobrava desses bolos, estando assim entre os primeiros birituns da história. A parada deu uma luz e os fulanos ficaram com aquela cara de alegres, gente boa, achando tudo uma maravilha. Pronto, tava inventada a cerva, mesmo bem diferente da que a gente toma hoje... - Neste momento, o lugar foi cercado pela tropa de choque, doidinha para valer a lei do cassetete e descer a borracha no lombo dos mais inflamados. Levantei meu caneco com a autoridade que me era cabida, de cachaceiro mais respeitado do boteco e pedi para eles aguardarem o final de meu pronunciamento. E voltei à carga:
− Daí, uns tempos depois (não me pergunte quanto, nem os caras deviam saber: estavam todos chapados), os egípcios chegaram quebrando tudo na rave mesopotâmica e acabaram levando com eles o segredo mágico da fabricação da birita. Depois de muito porre nas pirâmides, a coisa estendeu-se até os romanos darem as caras (e as espadas). Como eles tinham um pezinho em cada canto, acabaram levando o néctar para todos os lados, seja a Britânia (para posterior alegria dos futuros ingleses), Gália (França) e outras paragens. Dizem inclusive, que César, o cara mesmo, era chegado numa caneca da fermentada (na época ainda não deviam cognominá-la de “loira” ou “gelada”). O nome cerveja acabou sendo uma homenagem à deusa Ceres, o que demonstra que os homens quando bebem sempre estão com uma mulher na cabeça...
Quando baixaram as trevas da Idade Média, a fabricação da bebida acabou parando nos conventos, onde os monges, com tempo de sobra para fazer experimentos mil, vide Mendel e suas ervilhas (3), acabaram criando outros tipos da bebida com diferentes técnicas de fabricação. O que veio bem a calhar, pois com o crescimento dos conjuntos habitacionais, o povo precisava de uma atividade para extravasar os estressantes labores medievais, como o jugo e a servidão. Então, dá-lhes cerveja que a galera se acalma. Outra coisa bacana que esses caras fizeram, por terem o quase monopólio da escrita, foi deixar anotadas as técnicas de fabrico.
Daí surgiram os mestres cervejeiros, que antes eram aprendizes na arte de fabricar a bebida com próprios monges. Aderindo a moda dos artesãos dos burgos, começaram a produzir cerveja em estabelecimentos próprios, as tavernas. Tais lugares logo, logo acabaram virando points onde se discutia de tudo, menos religião e futebol: o primeiro porque podia acabar te levando para a fogueira, o segundo por não existir mesmo. Daí os caras falavam bastante, principalmente depois de umas e outras, de política. Isso fez com que as autoridades da época acabassem botando um olho nestes lugares. Foi quando surgiram os alcaguetes modernos, o popular dedo-duro.
Durante a Idade Moderna, quem vocês acham que estava em todas as mesas importantes da Revolução Francesa? Nota zero para quem pensou em champanhe ou brioche: o que pegava bem mesmo, independente se era entre girondinos ou jacobinos, era estar com uma baita caneca na mão. Para molhar a palavra e aqueles discursos intermináveis da liberte, egalité, fraternité (4) . Não existe nada mais fraterno que dividir uma cerveja com um irmão.
Com os adventos científicos da revolução industrial, o ramo cervejeiro não ficou de fora, o que transformou a breja no que ela é hoje, uma bebida de fácil acesso, popular e com milhões de admiradores espalhados pelos quatro cantos do mundo, a conhecida e admirada “loira gelada”. Ideal para todos os tipos de eventos: casamentos, batizados, aniversários e festas afins; churrascos de fim de semana, reuniões com teor político ou não – Pude notar então que o discurso já havia acalmado os ânimos de ambas as partes.
− Daí vos pergunto, meus caros, o que tem a ver o meu goró com o blá-blá-blá de vocês? Há algum dentre vós, seja militante ou polícia, que não tome uma cervejinha?
Os manifestantes entreolharam meio sem, os policiais balançando as cabeças, concordando: havia atingido à todos em um ponto fraco, do lado direito do corpo, entre o baço e o pâncreas: bem no fígado.
A manifestação, que havia parado para ouvir minhas sábias e ébrias palavras, explodiu em palmas. Havia pessoas chorando comovidas e abraços entre diferentes lados políticos: esquerdistas e direitistas de mãos dadas com o pessoal do centro e todos degustando um gole de cerveja.
Os canas gostaram tanto daquilo que me colocaram na chefia deles. Questão de tempo, já tava comandando a cidade. Daí para o governo do estado foi um pulo; a presidência foi um passo natural, dadas as circunstâncias: um brado percorreu o país de norte a sul, de leste a oeste: Manguaceiros, uni-vos! Fui entronado como governante enquanto os estoques de cerveja se mantivessem graúdos. Chamei o pessoal da Embav, da Choça-Cola, Cachincariol, além de todas as outras marcas e modelos de cerveja e firmei um contrato com eles para fornecimento eterno do néctar da cevada para cada cidadão; aqueles que não bebessem podiam repassar sua cota para o sortudo, quero dizer, parente mais próximo. Deste jeito meu governo tornou-se vitalício logo de cara...
Fiz um churrasco e chamei os amigos que tinha e não tinha. No meio da coisa, um dos políticos que lá estavam resolveu reclamar que faltava sal na carne. Fiquei tão puto que mandei prender o safado. Onde já se viu, o mocorongo ir numa boca livre e ficar reclamando do que ta ganhando de mão beijada? Meti o safado na grade. E depois dele foram os seus correligionários. E logo após os adversários. Mas o pior é que eu peguei gosto pela coisa. O tal de mandar prender os outros... Na outra semana já tinha metido em cana quase um terço da população; uns por reclamarem, outros por escutarem as reclamações e outros ainda por torcerem para o time errado: qualquer motivo era motivo para mandar para o xilindró... Os xadrezes acabaram todos lotados. Agora, além de arranjar mais espaço para os que tinham que entrar, teria também que triplicar a produção de cerveja para conter a demanda. Resolvi tudo com uma decisão radical: el paredón, lógico. Mandei juntar logo uma centena de políticos conhecidos, que era para ir quebrando o gelo e não ter reclamação: e lá alguém ia achar ruim de passar o cerol em vagabundo? O comandante começou a contagem e olhou para meu lado:
− Preparar, apontar... Err... Senhor, eu poderia dar uma sugestão?
− É para maximizar a produção de presunto e a desova de safado?
− Sim Senhor!
− Então manda bala. Quer dizer, pode falar.
− É o seguinte; com a quantidade de político ruim que a gente tem, fica uma grana meter uma azeitona em cada um. Daí que o senhor faria a maior economia se usasse um método diferente. E poderia investir a grana economizada na produção de mais cerveja, o que acha?
O cara estava estupidamente certo. Então, diretamente do Louvre, mandei vir uma das guilhotinas remanescentes da Revolução Francesa. Agora os caras iriam ter a honra de colocar seus pescoços em lugares já frequentados por outros mais famosos, como Robespierre, Danton e Marat (5) ... Não, peraí: foi uma dona peituda, ou melhor, com muito peito que jogou o cara para trás. Mas isso é outra estória. Eu só não sabia onde ela ia se encaixar. Aliás, algo ficava me perturbando já tinha um tempo e não sabia exatamente o quê. A não ser que tudo não passasse de...
− Seu Juliano, Seu Juliano! − acordei com o Etelvino, o garçom, sacudindo meu ombro − Vai mais uma cerveja?
Olhei para os lados, tinha cochilado em pleno botequim. Porra, apagar em mesa de boteco é o fim da picada. Consultei o relógio e vi que estava em cima da hora para pegar o banco ainda aberto. Disfarcei com um leve bocejo e mandei ver o resto do copo numa golada só.
− Passa a régua.
− Vai participar da passeata?
Balancei a cabeça devagar em negativa:
− Mexer com esse negócio de política nada; acabei de descobrir que sou um ditador em potencial – ao ver a cara redonda e curiosa do atendente, emendei: − Mas nem sei se isso é tão ruim assim no fim das contas. Vive La Bierre (6) !
E sai gingando com aquele andado de John Wayne(7) bêbado do cerrado.
(1) Adaptado da chamada inicial do seriado japonês Spectreman.
(2) Bertold Brecht ( 1898 – 1956) – dramaturgo e poeta alemão.
(3) Gregor Mendel (1822 – 1884) – Monge agostiniano, botânico e metereologista, considerado o pai da genética por suas experiências com cruzamento de tipos de ervilhas e outras plantas.
(4) Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Foi o lema da Revolução Francesa e também é da maçonaria.
(5) Personagens históricos da Revolução Francesa.
(6) Viva a cerveja.
(7) Fala sério: cê não sabe quem foi o cowboy-ator-cara-durão-da-silva?
Planeta: Terra. Cidade: Goiânia. Como em todas as metrópoles deste planeta, Goiânia se acha hoje em desvantagem em sua luta contra um dos maiores inimigos do homem: o pentelho. E, apesar dos esforços das autoridades de todo o mundo, pode chegar um dia em que a terra, o ar e as águas estejam infestadas das mais diversas formas de pentelhos: os panfletários de diversas siglas, os reclamantes do meio ambiente,os entregadores de panfletos, movimentos de diversas formas e modelos ou os chatos que são chatos só pelo prazer que isso lhes causa. Com ou sem uma causa válida. Quem poderá intervir? Spectreman?(1)
Segunda feira, passava da uma da tarde e eu sentado no boteco ao lado do Centro Administrativo. Até aí nada de anormal: tava rebatendo uma ressaca monstra. Ficava ali vendo o rodízio de passeatas reclamando de uma ou outra coisa: primeiro havia vindo os atendentes de cartório, depois os bancários e logo em seguida uma grande passeata de professores da rede estadual; estão sempre entre os mais pendurados. Entre uma greve e outra, aparecia um movimento disto ou daquilo: sem-terra, sem-moradia, sem camisa, sem calça, sem vergonha, sem isso, sem aquilo. Eu devia estar com uma cara pra lá de gozada, pois volta e meia alguém mandava uma frase de ordem para o meu lado:
− Você aí parado, também é explorado!
Errado. Eu aqui parado, tô ficando é chapado, pensei.
− O povo, unido, jamais será vencido!
Ta, diga isso para as grandes corporações e os grupos bancários... − Caminhando e cantando e seguindo a canção...
Sempre tem um mané para tirar a porra dessa música. Será que não cansam?
Foi então que reconheci uma voz no meio da multidão:
− Juliano Werneck, ainda entregue aos prazeres da Baco?
− Poisé, Professor Birowski. Não dizem que a vida é feita de momentos? Os meus são quase todos aqui, no meio das garrafas.
− Junte-se a nós e exerça seu direito de cidadão, proteste!
− Vão abaixar o preço da breja?
− Não que eu saiba; a coisa aqui é mais pela política.
− Entonces, tô fora.
− “O pior de todos os analfabetos é o analfabeto político”.
Ai, meu saco: Brecht(2) debaixo de uma lua dessas é de estourar as bolas...
− E a pior de todas as sedes é a etílica, professor. Deixa a reclamança de lado e vambora chapar o côco!
− Você, como um representante da classe literária tinha que se engajar mais, defender alguma causa, algum movimento.
− Sou do Movimento dos Sem Movimento. Qualquer lugar para encostar e tomar uma é meu reino; toda mesa de bar é meu campo e o balcão é o melhor exemplo da socialização da humanidade: ali estão lado a lado a direita e a esquerda, o rico e o pobre, o empregado e o patrão e por aí vai...
Fechei os olhos por um instante, a tarde estava estupidamente brilhante naquele momento. Clima perfeito para uma pestana, pensei.
Foi o bastante para um grupo de uns quinze ou vinte manifestantes abordarem o botequim:
− Nós somos do Movimento dos Sem Cerveja. Vamos desapropriar toda essa bebida pequeno-burguesa!
Meu apitinho cívico tocou na hora: na gelada ninguém bota a mão! Nada contra dividir o pão, mas daí para bicar da minha garrafa, há uma enorme distância.
− E quem disse que a cerveja é uma bebida de elite? – protestei, mas intimamente meio que concordando com os caras: com o preço que a loirinha ta, mais fácil e barato tomar pinga ou catuaba, as campeãs das biroscas de subúrbio. Mas tinha que defender meu suco de cevada. Aprontei o gogó e comecei a aula de história:
− Tipo uns 10 mil anos, conforme os cervejeiros mais antigos e ainda não afetados pela cirrose, os homens descobriram, meio na cagada, meio na preguiça, que aquela parada de deixar um monte de cereais jogados em um lugar qualquer acabava fermentando e virando uma pasta que dava para fazer uma espécie esquisita de bolo. Vai daí que uns caras de um lugar das antigas chamado Mesopotâmia, inventaram de tomar uns goles da garapa que sobrava desses bolos, estando assim entre os primeiros birituns da história. A parada deu uma luz e os fulanos ficaram com aquela cara de alegres, gente boa, achando tudo uma maravilha. Pronto, tava inventada a cerva, mesmo bem diferente da que a gente toma hoje... - Neste momento, o lugar foi cercado pela tropa de choque, doidinha para valer a lei do cassetete e descer a borracha no lombo dos mais inflamados. Levantei meu caneco com a autoridade que me era cabida, de cachaceiro mais respeitado do boteco e pedi para eles aguardarem o final de meu pronunciamento. E voltei à carga:
− Daí, uns tempos depois (não me pergunte quanto, nem os caras deviam saber: estavam todos chapados), os egípcios chegaram quebrando tudo na rave mesopotâmica e acabaram levando com eles o segredo mágico da fabricação da birita. Depois de muito porre nas pirâmides, a coisa estendeu-se até os romanos darem as caras (e as espadas). Como eles tinham um pezinho em cada canto, acabaram levando o néctar para todos os lados, seja a Britânia (para posterior alegria dos futuros ingleses), Gália (França) e outras paragens. Dizem inclusive, que César, o cara mesmo, era chegado numa caneca da fermentada (na época ainda não deviam cognominá-la de “loira” ou “gelada”). O nome cerveja acabou sendo uma homenagem à deusa Ceres, o que demonstra que os homens quando bebem sempre estão com uma mulher na cabeça...
Quando baixaram as trevas da Idade Média, a fabricação da bebida acabou parando nos conventos, onde os monges, com tempo de sobra para fazer experimentos mil, vide Mendel e suas ervilhas (3), acabaram criando outros tipos da bebida com diferentes técnicas de fabricação. O que veio bem a calhar, pois com o crescimento dos conjuntos habitacionais, o povo precisava de uma atividade para extravasar os estressantes labores medievais, como o jugo e a servidão. Então, dá-lhes cerveja que a galera se acalma. Outra coisa bacana que esses caras fizeram, por terem o quase monopólio da escrita, foi deixar anotadas as técnicas de fabrico.
Daí surgiram os mestres cervejeiros, que antes eram aprendizes na arte de fabricar a bebida com próprios monges. Aderindo a moda dos artesãos dos burgos, começaram a produzir cerveja em estabelecimentos próprios, as tavernas. Tais lugares logo, logo acabaram virando points onde se discutia de tudo, menos religião e futebol: o primeiro porque podia acabar te levando para a fogueira, o segundo por não existir mesmo. Daí os caras falavam bastante, principalmente depois de umas e outras, de política. Isso fez com que as autoridades da época acabassem botando um olho nestes lugares. Foi quando surgiram os alcaguetes modernos, o popular dedo-duro.
Durante a Idade Moderna, quem vocês acham que estava em todas as mesas importantes da Revolução Francesa? Nota zero para quem pensou em champanhe ou brioche: o que pegava bem mesmo, independente se era entre girondinos ou jacobinos, era estar com uma baita caneca na mão. Para molhar a palavra e aqueles discursos intermináveis da liberte, egalité, fraternité (4) . Não existe nada mais fraterno que dividir uma cerveja com um irmão.
Com os adventos científicos da revolução industrial, o ramo cervejeiro não ficou de fora, o que transformou a breja no que ela é hoje, uma bebida de fácil acesso, popular e com milhões de admiradores espalhados pelos quatro cantos do mundo, a conhecida e admirada “loira gelada”. Ideal para todos os tipos de eventos: casamentos, batizados, aniversários e festas afins; churrascos de fim de semana, reuniões com teor político ou não – Pude notar então que o discurso já havia acalmado os ânimos de ambas as partes.
− Daí vos pergunto, meus caros, o que tem a ver o meu goró com o blá-blá-blá de vocês? Há algum dentre vós, seja militante ou polícia, que não tome uma cervejinha?
Os manifestantes entreolharam meio sem, os policiais balançando as cabeças, concordando: havia atingido à todos em um ponto fraco, do lado direito do corpo, entre o baço e o pâncreas: bem no fígado.
A manifestação, que havia parado para ouvir minhas sábias e ébrias palavras, explodiu em palmas. Havia pessoas chorando comovidas e abraços entre diferentes lados políticos: esquerdistas e direitistas de mãos dadas com o pessoal do centro e todos degustando um gole de cerveja.
Os canas gostaram tanto daquilo que me colocaram na chefia deles. Questão de tempo, já tava comandando a cidade. Daí para o governo do estado foi um pulo; a presidência foi um passo natural, dadas as circunstâncias: um brado percorreu o país de norte a sul, de leste a oeste: Manguaceiros, uni-vos! Fui entronado como governante enquanto os estoques de cerveja se mantivessem graúdos. Chamei o pessoal da Embav, da Choça-Cola, Cachincariol, além de todas as outras marcas e modelos de cerveja e firmei um contrato com eles para fornecimento eterno do néctar da cevada para cada cidadão; aqueles que não bebessem podiam repassar sua cota para o sortudo, quero dizer, parente mais próximo. Deste jeito meu governo tornou-se vitalício logo de cara...
Fiz um churrasco e chamei os amigos que tinha e não tinha. No meio da coisa, um dos políticos que lá estavam resolveu reclamar que faltava sal na carne. Fiquei tão puto que mandei prender o safado. Onde já se viu, o mocorongo ir numa boca livre e ficar reclamando do que ta ganhando de mão beijada? Meti o safado na grade. E depois dele foram os seus correligionários. E logo após os adversários. Mas o pior é que eu peguei gosto pela coisa. O tal de mandar prender os outros... Na outra semana já tinha metido em cana quase um terço da população; uns por reclamarem, outros por escutarem as reclamações e outros ainda por torcerem para o time errado: qualquer motivo era motivo para mandar para o xilindró... Os xadrezes acabaram todos lotados. Agora, além de arranjar mais espaço para os que tinham que entrar, teria também que triplicar a produção de cerveja para conter a demanda. Resolvi tudo com uma decisão radical: el paredón, lógico. Mandei juntar logo uma centena de políticos conhecidos, que era para ir quebrando o gelo e não ter reclamação: e lá alguém ia achar ruim de passar o cerol em vagabundo? O comandante começou a contagem e olhou para meu lado:
− Preparar, apontar... Err... Senhor, eu poderia dar uma sugestão?
− É para maximizar a produção de presunto e a desova de safado?
− Sim Senhor!
− Então manda bala. Quer dizer, pode falar.
− É o seguinte; com a quantidade de político ruim que a gente tem, fica uma grana meter uma azeitona em cada um. Daí que o senhor faria a maior economia se usasse um método diferente. E poderia investir a grana economizada na produção de mais cerveja, o que acha?
O cara estava estupidamente certo. Então, diretamente do Louvre, mandei vir uma das guilhotinas remanescentes da Revolução Francesa. Agora os caras iriam ter a honra de colocar seus pescoços em lugares já frequentados por outros mais famosos, como Robespierre, Danton e Marat (5) ... Não, peraí: foi uma dona peituda, ou melhor, com muito peito que jogou o cara para trás. Mas isso é outra estória. Eu só não sabia onde ela ia se encaixar. Aliás, algo ficava me perturbando já tinha um tempo e não sabia exatamente o quê. A não ser que tudo não passasse de...
− Seu Juliano, Seu Juliano! − acordei com o Etelvino, o garçom, sacudindo meu ombro − Vai mais uma cerveja?
Olhei para os lados, tinha cochilado em pleno botequim. Porra, apagar em mesa de boteco é o fim da picada. Consultei o relógio e vi que estava em cima da hora para pegar o banco ainda aberto. Disfarcei com um leve bocejo e mandei ver o resto do copo numa golada só.
− Passa a régua.
− Vai participar da passeata?
Balancei a cabeça devagar em negativa:
− Mexer com esse negócio de política nada; acabei de descobrir que sou um ditador em potencial – ao ver a cara redonda e curiosa do atendente, emendei: − Mas nem sei se isso é tão ruim assim no fim das contas. Vive La Bierre (6) !
E sai gingando com aquele andado de John Wayne(7) bêbado do cerrado.
(1) Adaptado da chamada inicial do seriado japonês Spectreman.
(2) Bertold Brecht ( 1898 – 1956) – dramaturgo e poeta alemão.
(3) Gregor Mendel (1822 – 1884) – Monge agostiniano, botânico e metereologista, considerado o pai da genética por suas experiências com cruzamento de tipos de ervilhas e outras plantas.
(4) Liberdade, Igualdade, Fraternidade. Foi o lema da Revolução Francesa e também é da maçonaria.
(5) Personagens históricos da Revolução Francesa.
(6) Viva a cerveja.
(7) Fala sério: cê não sabe quem foi o cowboy-ator-cara-durão-da-silva?
11 março 2010
Lançamento do livro "Jantar às 11"
Poisé, eis aí a arte do lançamento, marcado para o dia 18 de março, coincidentemente, o dia em que também estarei lançando, com mais de 70 autores, pela Prefeitura de Goiânia, a coleção Verso e Prosa. Mas isso é uma outra estória, como também é outro livro. Corri tanto para fazer um lançamento que vai acabar de ter que fazer dois na mesma noite. Mas "c´est la vie" como dizem nos cafés...
A entrada é franca e tô convidado de norte a sul para o evento.
Tendo um tempinho, aparece por lá.
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